Eu sei, parece muito óbvia a proposta desse texto. Todo mundo sabe que não deveríamos diminuir os sentimentos dos nossos filhos, certo? Talvez não seja tão claro assim, ainda mais nas diversas pequenas interações que temos com os nossos filhos, e principalmente quando eles estão tristes por algum motivo que nós julgamos pequeno.

Ainda pensa que isso é algo tão bobo que não merece um texto? Então vamos lembrar de situações em que nós vivemos com determinado tipo de pessoas:

— AI! Puts, machuquei meu dedo na porta!

— Ahhhh, não foi nada! Eu já quebrei minha perna e coloquei pino!

Sabe esse tipo de pessoa?

— Poxa, meu pai está doente…

— Caramba, mas sabia que eu já passei um mês instalado num hospital acompanhando a minha mãe que estava muito mal?

Pois é, existem pessoas que simplesmente não conseguem empatizar com a dor alheia, e precisam rapidamente tornar aquilo em algo sobre elas próprias. Essas pessoas têm suas questões que devem tê-las levado a agir dessa maneira, motivos que jamais saberemos e é justamente por isso que não deveríamos julgá-las.

Em todo caso, ainda é ruim estar na pele da pessoa que nunca é acolhida, porque sempre tem alguém que sofreu algo “pior”, mesmo que você não tenha se inscrito para uma competição de sofrimentos.

Se nós concordamos que não empatizar com o outro não é algo tão legal de se fazer, por que isso ainda é largamente aceitável quando falamos dos nossos filhos? Quem nunca ouviu um “não foi nada” direcionado a uma criança chorando?

Dizer que “não foi nada”, além de problemático pela invisibilização de um sentimento genuíno, ainda é muito complicado porque causa confusão na cabeça da criança. Ela começa a se perguntar se ela deveria mesmo estar sentindo daquele jeito, e imagina que está errada, afinal de contas, seus pais disseram que não era nada. Por outro lado, se frustra ainda mais porque simplesmente não consegue controlar aqueles sentimentos.

Vamos tornar o exemplo ainda pior. Quem nunca ouviu um: “para de chorar, que menino não chora”? Essa frase tem tantos erros que eu nem sei por onde começar: se é pelo reforço de um esteriótipo machista, ou criação de uma prisão onde os meninos têm que ser fortes e nunca devem fraquejar.

E quando fazemos com as crianças exatamente o que detestamos que façamos conosco?

— Aaaaai, machuquei meu pé!

— Ah, filho, não foi nada. Na sua idade, eu já quebrei o braço e não chorei.

Coisas assim me fazem pensar: por que fazemos isso com os nossos filhos? E quando corremos para tentar racionalizar os sentimentos dos nossos filhos, como fica?

— (chorando) Eu queria tanto aquele brinquedo!

— Mas você já tem um monte!

Ou então:

— Ahhhh, eu queria ver mais um desenho!

— Você já viu demais, foram duas horas de TV, muito mais do que você poderia assistir por dia.

E isso me traz a uma pergunta que muitas pessoas fazem para mim: como ensinar os nossos filhos a serem empáticos?

A resposta, apesar de simples, é bastante desafiadora: sendo empático com eles.

Às vezes, ficamos preocupados demais em justificar, racionalizar ou reduzir os sentimentos dos nossos filhos. E justo quando o que eles mais precisam é de empatia e acolhimento. Quando coisas assim acontecem conosco, nós corremos para as redes sociais para reclamar das pessoas que não nos acolhem e da falta de empatia no mundo. A diferença é que os nossos filhos não podem fazer o mesmo.

Ainda.

Empatizar com os nossos filhos não é permissividade, mas gentileza. É nosso esforço de ver o mundo através dos seus olhos. Os nossos filhos poderiam chorar por causa de um galho que se quebrou, e não cabe a nós dizer que aquilo não importa. Se eles estão chorando, então importa.

Se nós conseguirmos ensinar esse conceito de empatia aos nossos filhos, certamente estaremos ajudando-os a crescer.