Quem nunca se sentiu sobrecarregado, perdido na rotina de cuidado com os filhos, a ponto de esquecer quem era antes da parentalidade? É uma realidade comum, mas que precisamos desmistificar e, acima de tudo, encontrar um caminho mais leve e saudável.
A Armadilha da Devoção Total: Um Amor que Pode Sufocar
Existe uma ideia, quase um mantra social, de que ser um bom pai ou uma boa mãe significa anular-se completamente em função dos filhos. A gente vê isso em filmes, em conversas, e até mesmo nas redes sociais: a imagem do “super-pai” ou da “super-mãe” que vive 24 horas por dia para a prole. E, claro, quando um bebê chega, a demanda é imensa, urgente e exclusiva. É natural e necessário que seja assim nos primeiros meses de vida.
Mas o tempo passa, os filhos crescem, ganham autonomia, e muitas vezes nós, pais, continuamos presos a essa lógica de devoção absoluta. O que era essencial para um recém-nascido, pode se tornar prejudicial para uma criança de 2, 3, 5 anos ou mais. Afinal, será que estamos realmente ajudando nossos filhos ao nos perdermos completamente nesse processo?
O “Pai/Mãe Suficientemente Bom”: A Liberdade de Não Ser Perfeito
Eu sempre gosto de trazer para as nossas conversas o psicanalista britânico Donald Winnicott e seu conceito de “mãe suficientemente boa”. E, claro, isso se estende ao “pai suficientemente bom” também! A ideia é simples e libertadora: não precisamos ser perfeitos. Precisamos ser “suficientemente bons”.
No início, a mãe (ou o cuidador principal) se adapta quase que totalmente às necessidades do bebê. Mas, com o tempo, essa adaptação diminui gradualmente. Isso permite que o bebê experimente pequenas frustrações, perceba que o mundo não gira apenas em torno dele e que os pais são seres individuais, com suas próprias vidas e necessidades. É nesse espaço de “ausência” (não de abandono, mas de individualidade) que a criança começa a construir sua própria identidade e a desenvolver a capacidade de lidar com a realidade.
Quando nos anulamos por completo, tiramos dos nossos filhos a oportunidade de vivenciar essa frustração saudável e de entender que eles são parte de um todo, e não o centro exclusivo do universo. Além disso, colocamos sobre os ombros deles uma carga invisível: a responsabilidade pela nossa felicidade ou pelo nosso sacrifício.
A Importância Vital da Rede de Apoio (e Como Criá-la)
Um dos maiores vilões da parentalidade exaustiva é a falta de uma rede de apoio. Muitos pais se sentem sozinhos, sem familiares por perto, sem amigos que possam ajudar, ou sem recursos para contratar alguém. E aí, a culpa e o esgotamento batem forte. Como tirar 15 minutos para si mesmo sem sentir que está abandonando o filho?
É fundamental entender que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de inteligência e autocuidado. Sua rede de apoio pode ser formada por:
- Familiares e amigos: Se tiver a sorte de tê-los por perto e dispostos a ajudar, aceite!
- Profissionais: Babás, cuidadores, ou até mesmo a escolinha ou o parquinho do shopping (sim, eles contam como apoio pago!).
- Outros pais: Grupos de apoio, comunidades online, ou até mesmo um revezamento com outros pais para cuidar das crianças.
Construir essa rede é um ato de amor por você e por seus filhos. Permite que você respire, recarregue as energias e volte para o cuidado com mais paciência e alegria.
Não Se Anule: Cuidar de Você é Cuidar Deles
Quando nos dedicamos 100% aos filhos, sem espaço para nós mesmos, entramos em um ciclo de angústia e sofrimento. E, sejamos sinceros, filhos não precisam de pais perfeitos, mas de pais presentes, felizes e saudáveis. Um pai ou uma mãe esgotado, frustrado e sem identidade própria tem muito menos a oferecer.
Conselhos Práticos para Resgatar Sua Individualidade:
1.Reconheça sua individualidade: Você é mais do que “pai de” ou “mãe de”. Quais eram seus hobbies, seus interesses, seus sonhos antes dos filhos? Resgate-os, nem que seja por alguns minutos na semana.
2.Permita a frustração saudável: É ok dizer “agora a mamãe/papai precisa de um tempinho” ou “você pode brincar sozinho por um pouco”. Isso ensina limites e autonomia aos seus filhos.
3.Busque e utilize sua rede de apoio: Não hesite em pedir e aceitar ajuda. Pequenos momentos de respiro fazem uma grande diferença.
4.Abandone a culpa: Cuidar de si não é egoísmo, é um investimento na sua saúde mental e na qualidade da sua parentalidade. Filhos com pais felizes tendem a ser mais felizes.
Lembre-se: a parentalidade é uma jornada, não uma corrida. E nessa jornada, você também merece ser visto, cuidado e amado. Encontre o seu equilíbrio, permita-se ser “suficientemente bom” e viva uma parentalidade mais leve e plena.
Assista ao vídeo completo para aprofundar essa conversa e ouvir mais insights sobre o tema.



