Tem gente vendendo palavrinhas mágicas que prometem obediência. Cobram caro, mas deixam parcelar. Esse assunto me revolta, então vou direto ao ponto: não existe palavra mágica para fazer seu filho obedecer.
Se você já pensou em comprar um curso, um e-book ou uma palestra que prometia resultados milagrosos, eu não culpo você. Eu e minha esposa temos quatro filhos e já tivemos momentos em que pensamos que tínhamos estragado tudo. E é desse desespero que muita gente se aproveita para ganhar dinheiro.
Por que essas promessas seduzem tanto
São promessas irreais, mas que parecem palpáveis: “seu filho é irracional e isso aqui vai fazer ele se comportar como você quer”, “você perde tempo demais conversando, use estas palavras”. Ou então “um estudo de uma universidade diz que…”, sem ninguém mostrar o estudo completo nem como ele foi feito.
Junte os termos da moda, neuro isso, neuro aquilo, e parece o último biscoito do pacote. Não é. É tudo pensado para pegar a gente num momento de fragilidade.
Não existe método que sirva para toda criança
Tem quem diga que o método funciona para qualquer criança, de qualquer idade, inclusive neurodivergentes. Esse argumento cai fácil. Um método universal só funcionaria se todas as crianças fossem iguais, e elas não são. Cada uma tem seu contexto familiar e social, sua personalidade, sua idade e sua fase de desenvolvimento. Se essa fórmula existisse, alguém já teria ficado bilionário com ela.
Na nutricionista, você espera um plano feito para você. Se ela entregasse a mesma folha copiada para todo mundo, você saberia que não ia funcionar. Por que, quando se trata dos nossos filhos, a gente acha que vai ser diferente?
E o roteiro é conhecido. Quando o método não funciona e você vai reclamar, ouve que a culpa é sua: não falou do jeito certo, no tom certo. Se você é mãe, sabe bem como a culpa costuma cair nas suas costas. Além de perder o dinheiro, você sai achando que não consegue seguir nem um passo a passo. Não é você. É o método que não funciona.
Obediência plena não é o que a gente quer
Por que treinar um filho para obedecer? Não estamos adestrando um bichinho de estimação. Uma criança que só obedece vira um adulto que só aperta o botão, sem condição de questionar criticamente as outras pessoas. Seu filho não obedecer tudo o tempo todo mostra que ele faz parte da raça humana. A gente questiona aquilo que não faz sentido.
Isso não quer dizer passar duas horas explicando os porquês para uma criança de três anos. No fundo, você não quer obediência sem questionamento. Você quer uma saída porque está cansada, sobrecarregada, no meio do furacão que é cuidar de uma criança pequena ou de um filho de 8 ou 11 anos que está desrespeitando você.
O trabalho de detetive, no exemplo do banho
Seu filho precisa tomar banho, isso não se discute. Ele anda resistente ao banho por quê? Talvez o banho esteja colado na hora do desenho, e ele já sabe que, quando você chama, acabou a TV. Dá para afastar uma coisa da outra e chamar para o banho depois de um momento de leitura ou de brincadeira, que não é tão hipnotizante quanto a tela.
Quando der, sentem juntos, pai e mãe, e olhem de fora: ele mudou de escola? Vai nascer um irmão? E se ele sempre foi resistente, a gente é firme, sem precisar fazer discurso. Comunica o que é inevitável e oferece escolhas sobre o resto:
- Avise o que vai acontecer: “vamos ver o último episódio, depois o papai desliga a TV e a gente vai tomar banho”.
- Ofereça escolhas possíveis: levar o bonequinho ou o naviozinho para brincar no banho, escolher o pijama.
O banho não está em questão. Outras coisas podem estar. Criar filhos é tentativa e erro, mesmo no quarto filho, como no meu caso. A gente já teve muita dificuldade, ainda tem e sempre vai ter.
Comportamento é comunicação
A única regra clara nessa história é que comportamento é uma forma de comunicação. O comportamento desafiador é a criança transbordando algo que ainda não consegue elaborar e colocar em palavras. Pode ser o filho que fica resistente na hora da comida porque um colega está implicando com ele na escola.
A gente também faz isso. Quem nunca deu uma patada no marido ou na esposa depois de um problema no trabalho e depois precisou pedir desculpas? Mesmo podendo elaborar, nós transbordamos. Nossos filhos, inclusive os de 8, 10 ou 12 anos, ainda estão com o cérebro em formação. O córtex pré-frontal, a parte que nos ajuda a controlar as emoções, só fica plenamente desenvolvido por volta dos 25 anos.
Métodos rígidos, que ignoram o que a criança sente, só passam uma mensagem: “não me importo com o que você está sentindo, só quero que você me obedeça”. Nossos filhos não estão tentando nos manipular. A gente não é tão importante assim. Eles precisam de ajuda, e nós somos os adultos da relação. Então vale segurar o dinheiro no bolso, olhar o contexto e buscar menos método e mais vínculo.
E na sua casa, qual comportamento do seu filho ficou mais fácil de entender quando você parou para olhar o que estava por trás dele?



