Uma das perguntas que mais recebo das mães é “como posso fazer o pai dos meus filhos ser mais afetuoso e participativo na criação dos nossos filhos?”. Não tem uma vez que eu leia essa pergunta e não fique com o coração triste, porque sei que é um dos maiores problemas que temos hoje: pais que não são pais.
Mas como resolver isso? O problema é bem complexo, porque tem suas raízes no machismo, nesse lugar em que o homem não cuida, porque isso é “coisa de mulher”. Vivemos numa sociedade que criou homens para serem os melhores atletas, guerreiros, empresários, mas não os melhores pais.
Justamente por isso que esse é um problema complexo, porque exige que o homem “abra a porta por dentro” e comece a questionar seu papel enquanto homem e pai na sociedade. É trabalho de formiguinha, mas que, de vez em quando, nos presenteia com palavras como as de Daniel Miranda na carta que convido você a ler — e se inspirar.
Sou pai de terceira viagem. Tenho 2 filhos, os quais “eduquei” através da educação “tradicional” – batendo, gritando, castigando… reproduzi neles o que “aprendi” através da forma com a qual fui “educado” pelo meu pai (o excesso de aspas é redundante de propósito, pois preciso ilustrar o quão incomodado fico ao tratar do assunto).
Hoje, eles têm 24 e 25 anos, respectivamente, e conversamos abertamente sobre os traumas que causei neles pelo meu posicionamento “paterno” (medo do escuro, insegurança, abandono emocional, revolta pelos momentos de dor e outros).
Em paralelo a essa educação autoritária, os tratei e trato com muito amor e carinho, e para eles isso ainda é um tanto confuso. Talvez para mim também seja, pela culpa que carrego ao comparar o pai que fui com o pai que hoje sou.
Eu tenho uma filha de 4 anos do meu relacionamento atual e estamos nos permitindo uma criação com apego que eu nunca imaginei ser possível. É simplesmente absurda a forma com a qual as coisas, caminhos e escolhas mais óbvias de uma criação com apego estão na nossa frente, nessa paternidade recente e estavam também logo ali, quando eu tive a oportunidade de ser o pai que não fui para os meus dois filhos mais velhos, mas não me preocupei em sê-lo.
Talvez pela atmosfera naquele momento. Pela ignorância naquele momento. Por ser muito jovem naquele momento. E isso dói. Infelizmente, não posso voltar no tempo para refazer os passos em relação aos meus filhos, nos dando a oportunidade dessa criação que estou aprendendo a cultivar, praticar e sim, multiplicar com os meus amigos, papais recentes, para que eles não cometam os mesmos erros que eu cometi. Estou aproveitando cada momento oportuno para colher as vitórias, triunfos e conquistas em cada reflexo dessa escolha. Muito obrigado… e preciso dizer:
Thiago, você é muito necessário, cara!
Obrigado.
Daniel Miranda
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Quando nos dispomos a criar novas histórias com nossos filhos e quebrar ciclos de violência, todos ganham. Todos mesmo.
É justamente nessa jornada do afeto que nós, homens, desconstruímos e nos transformamos.
E sobre o que é realmente necessário: que os homens conversem sobre essas transformações, que questionem outros homens, e redescubram modelos de masculinidades mais saudáveis através da paternidade.