A banalização dos dentes ausentes: tira que nasce outro.

"Aceitamos com naturalidade a falta de dentes, mas sem eles não estaríamos aqui. O que a evolução da espécie tem haver com dentes? Qual futuro da mastigação?"
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Resumindo: por que aceitamos facilmente a remoção de um órgão, que é vital para a manutenção da espécie?!

Sem os dentes o ser humano não teria desenvolvido o crânio que conhecemos.

Então por que a nossa geração pede para extrair os dentes de leite que estragam, se há possibilidade de tratar canal, por exemplo?

Extração de dente é tratamento e faz parte do protocolo, mas o que ouço diariamente no consultório é a clássica frase: ainda bem que é dente de leite, dá para tirar que logo nasce outro.

Meu coração de dentista paralisa por 10 segundos até eu processar que a nossa sociedade culturalmente coloca mais energia (e dinheiro) para tratar doenças que de fato as evitar.

Então, vamos do começo.

Do começo da humanidade.

Nossos ancestrais utilizavam os dentes para alimentação, mastigavam milhões de vezes ao dia para triturar raízes e carnes cruas. Os caninos eram bem desenvolvidos e afiados, responsáveis por rasgar a comida, além de atacar o inimigo numa sociedade competitiva de vida ou morte.

Os dentes de trás, que chamamos de molares, eram a máquina trituradora da alimentação, que destruíam os pedaços grandes para poder engolir e chegar ao estômago passível de digestão.

Como o sistema de mastigação era muito utilizado, possibilitou o crescimento de todas as estruturas ao redor.

Nosso crânio cresceu e precisou de mais energia para exercer mais funções, e aos poucos avançando nossa capacidade de raciocinar. (basicamente o que difere humanos do resto do planeta).

Os milhares de anos foram passando, descobriram o fogo, a faca e aumentou a diversidade alimentar, assim a comida ficou mais palatável, os dentes diminuíram de tamanho e a região de crânio e pescoço também. Possivelmente, graças a essa evolução que conseguimos desenvolver os órgãos relacionados a fala.

Mais milhares de anos passando, fixamos moradia, agricultura e avançamos para a Revolução Industrial.

Com alimentos mais amolecidos, que passam por fase de pré-preparo, minimizamos o uso dos dentes.

Quase não mastigamos mais, a comida é deglutida em frações de segundos, e praticamente não tocamos a superfície do dente.

O açúcar entra em ação e começamos a quantificar a perda de dentes por doença cárie.

Perdemos dentes por comer rápido demais, comida pastosa demais e por dieta rica em açúcar.

Esse cenário já estabelecido atualmente aumenta a chance de atrofia muscular, ou seja, usamos menos os dentes e músculos da mastigação favorecendo uma mordida errada, embora o nascimento dos dentes ainda siga a evolução alimentar.

Nascem primeiro os da frente, em torno de 6 meses de idade, justamente quando oferecemos alimentos moles.

Lá por 1 ano e pouco, nascem os dentes molares, que servem para triturar a carne, época ideal para introduzir pequenos pedaços de carne. (Dentes + movimento de “pinça” dos dedos).

Nascidos todos os dentes, perto de 3 anos, a criança já mastiga bem, estimula a musculatura orofacial várias vezes ao dia e adivinha? Começa a estruturar pequenas frases, ou seja, tem força muscular e habilidade suficiente para falar mais que uma palavra.

Esse cenário todo é baseado num movimento evolutivo, ou seja, não há verdade absoluta, nem condições diretas do tipo, se comer carne vai falar. Precisamos colocar na mesa os hábitos, a história, as evidências e assim encaixar uma explicação para os fatos.

Dito isso, seguimos o raciocínio.

Hoje, os dentes não são mais decisivos para a manutenção da espécie. Desdentados sobrevivem.

Adultos com 1 ou 28 dentes em boca seguem se alimentando.

Por isso banalizamos tanto a ausência dos dentes.

Mas historicamente sabemos que sem eles não teríamos avançado na linha do tempo.

A falta de UM mísero dente pode ocasionar:

  • problemas de fala, prejudicando os fonemas que utilizam lábio e língua;
  • desalinhamento do dente antagonista (extrai o dente inferior, a tendência é do superior desalinhar, já que não tem correspondente para mastigar);
  • sobrecarga dos dentes remanescentes, podendo fraturar os outros dentes por excesso de trabalho;
  • atrofia óssea;
  • mudanças estéticas que estão relacionadas a auto-estima e todo o universo da boa aparência;
  • ordem dos nascimentos dos dentes permanentes também pode ser afetada pela ausência precoce do dente de leite, ou seja, o permanente pode nascer antes do osso estar preparado para recebe-lo, causando graves problemas de mordida.

Se houver perda de vários dentes, as consequências se agravam.

A nossa sorte é que a odontologia trabalha para repor os elementos perdidos e minimizar os danos. Está cada dia mais acessível e seguro o tratamento de reabilitação.

Por dia, mastigamos três vezes, sorrimos 50 e falamos 20 mil palavras, em todas essas ações, os dentes estão diretamente envolvidos.

Em 80 anos de vida, são 29200 dias, com os mesmos 32 dentes. Dá para sentir o quanto a gente usa e ainda vai usar a estrutura dental, ou seja, não podemos nos dar ao luxo de perder um elemento!

Dente bem cuidado é espécie segura.

A evolução trabalha para a preservação da espécie.

Acho que foi por isso que nossos caninos encolheram.

Em tempos de redes sociais não seria uma boa ideia ter dentes afiados.

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Comentários

  • Fernando disse:

    Excelente texto!

  • Karoene Denardi Vanzela

    Karoene Denardi Vanzela

    Cirurgiã-dentista, com ênfase em Odontopediatria e atendimento para pacientes com necessidades especiais. Especialista e mestranda em tratamento de canal. Mãe da Isadora, da Gabriela e aprendiz em conciliar a teoria com a prática! Instagram: @karoene
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