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A Síndrome de Dory nos Adultos Que Esqueceram Que Foram Crianças

"O que nos leva a esquecer que já fomos crianças um dia? E que já demos piti em público? Por que não toleramos crianças sendo crianças?"
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Existe um grupo de pessoas adultas muito peculiar e, para o propósito deste texto, direi que essas pessoas sofrem da Síndrome de Dory. Para quem não sabe, Dory é uma personagem da animação que mora em nossos corações: Procurando Nemo (2003). Dory é um peixinho tang azul, que sofre de esquecimento severo. Ela esquece de tudo, absolutamente tudo.

Treze anos depois, decidiram lançar a sequência da animação, chamada Procurando Dory (2016). E é basicamente por isso que estamos aqui, refletindo sobre as coisas esquisitas da vida.

Acontece que esses adultos, que sofrem da Síndrome de Dory, resolveram se posicionar. Saíram de seus esconderijos e escreveram um recadinho que viralizou:

UM RECADO SINCERO:

Essa semana, quando Procurando Dory estrear, eu não quero ter que empurrar suas crianças, mas eu vou. Deixem-nos, bebês dos anos 90, irmos ao cinema primeiro, porque esperamos TREZE ANOS para isso.

Se seu filho tem menos de 12 anos, ele ou ela não vai gostar. Vocês podem comprar o blu-ray quando sair, mas não encham a sala de cinema com essas crianças que enxergam somente peixes.

É sério.

Vamos analisar isso, tá? A primeira impressão que eu tive, além da agressividade gratuita a crianças, é que a geração adultos dos anos 90 é uma geração de pessoas-prodígio, com um intelecto muito superior à média da população. Isso porque, quem nasceu na década de 1990, teria, no máximo, 13 anos quando Procurando Nemo estreou. Essas crianças, que variavam de 4 a 13 anos, foram aos cinemas e, para meu total espanto, assistiram ao filme sem enxergar somente peixes na tela. Elas enxergaram outras coisas, perceberam todas as nuances e metáforas que estavam naquela animação.

Por outro lado, as crianças de 4 a 13 anos de hoje, só enxergariam peixes. Isso me abalou um pouquinho mas, enfim, fico feliz que temos uma geração inteira, hoje, de adultos superdotados.

Sarcasmos à parte, quando eu tento entender a motivação das pessoas que pensam assim, só posso concluir que elas, realmente, esqueceram que já foram crianças um dia. Esqueceram que elas já gritaram em público, já deram piti no meio do supermercado e já se jogaram no chão do shopping, em prantos. Por algum motivo, esses adultos bloquearam essa memória, e foi justamente essa motivação que me fez pensar nesses últimos dias.

E, pensando, comecei a ver o quanto deve estar internalizada essa noção de que crianças são seres vis e controladores. Aposto com vocês que, se você perguntar sobre a infância de cada pessoa que compartilhou o texto agressivo acima, muito provavelmente elas dirão o seguinte:

— Mas é verdade, eu mesmo não valia nada! Só funcionava na base da surra.

— Bem, eu era um capeta, né? Eu não parava quieto e só parava quando me ameaçavam.

— Coitados dos meus pais, eu não era fácil.

E sabe o que tem em comum entre todos esses adultos hipotéticos falando de suas crianças internas hipotéticas?

Eram crianças sendo crianças.

Não existe criança saudável que não tenha uma crise de choro frente a uma frustração enorme, ou que consiga ficar sentada quieta, sem dar um pio, durante duas horas em uma sessão de cinema. Elas vão causar, vão tretar, vai ter babado e confusão. E tudo bem, é assim mesmo!

Mas se isso é normal, porque é tão naturalizado esse conceito de que crianças são criaturas tão insuportáveis? Porque isso é o que a maioria de nós ouvimos desde criança. Crescemos e criamos imagens de nossas infâncias que em nada refletem a realidade. E isso tudo tem a ver com a maneira como educávamos e educamos as crianças de hoje: com desrespeito, autoritarismo, punição e agressões — sejam estas físicas ou psicológicas.

É o mesmo pensamento que leva uma multidão de pessoas a discordar e zombar da Lei Menino Bernardo, por exemplo, que protege a integridade física e emocional das nossas crianças.

Percebem? É todo um ciclo de desrespeito à criança, e que precisa ser quebrado. Somente quando olhamos para os nossos filhos como indivíduos dignos de respeito e aceitação, quando nos relacionarmos com eles com parceria e não autoritarismo, só então conseguiremos quebrar esse ciclo vicioso.

Para finalizar, eu gostaria de abrir aqui uma discussão sobre isso, porque eu tenho convicção de que tudo isso tem muito a dizer sobre o que se pensa sobre crianças na sociedade. Então, por favor, comentem aí, compartilhem suas reflexões, vamos fazer barulho.

Porque enquanto as pessoas não tratarem crianças como seres humanos, o nosso trabalho não acaba.

Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Pai de quatro, escritor, educador parental, criador do site e canal no YouTube Paizinho Vírgula!, host dos podcasts Tricô de Pais e Vai Passar, autor dos livros "Abrace seu Filho" e "A Armadura de Bertô", e participou do documentário internacional "Dads".

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Comentários

6 comentários em “A Síndrome de Dory nos Adultos Que Esqueceram Que Foram Crianças”

  1. Pedro Gurgel

    Somente o amor em abundância pode superar tamanha ignorância (dessa galerinha que não foi criança).

  2. Sinceramente achei ambos os textos bem exagerados e sem empatia para com os outros, tanto da parte das “crianças dos anos 90” quanto dos pais que muitas vezes acham que por serem crianças, seus filhos podem fazer o que quiserem onde quiserem. Respeitar o espaço e o direito dos outros é algo fundamental, para todos.
    óbvio que todos tem o direito de ver o filme independente da idade mas o problema para mim está no fato de os pais não conhecerem os próprios filhos e a suas preferências, personalidade etc. Eu sempre amei televisão, a minha infância foi feita basicamente de desenhos, até hoje eu posso ficar horas vendo filmes, a minha mãe sempre me levava no cinema pra ver pokemon ou algum filme novo e eu chegava, comia minha pipoca e assistia meu filme sem quase piscar. Uma vez ela levou meu primo junto, que sempre foi de correr, pular, jogar bola etc. e ele não conseguia ficar um segundo quieto, cara ele não estava nem ai pro filme e ainda não me deixou ver direito, fiquei brava afinal era importante pra mim. A minha irmã por exemplo nunca teve paciência nenhuma para assistir nada, enquanto ela andava de bicicleta eu via Mogli pela 17° vez, cada um no seu canto. Eu vejo muitos pais que vislumbram os filhos como uma coisa q na verdade eles não são, trabalhei de babá para um menino de 7 anos e o pai achava que ele gostava de jogar bola e afins enquanto o coitado só queria brincar com os Legos dele em paz.
    Acho que os pais poderiam pensar um pouco antes de levar seu filho no cinema só porque ele, próprio pai acha que o filho quer. Tente perguntar o que ele prefere, um parque de diversões? cinema? Piscina? um Livro? Talvez ele queira todos e tudo bem também. Tente levar seus filhos no horário da tarde ao cinema, que é próprio para este público (e mais barato tbm), principalmente para crianças menores, que tem mais dificuldade de ficarem quietas.
    Ter um pouco de empatia com as outras pessoas não é tao difícil assim, não é porque são adultos que as outras pessoas não tem direito de querer ver esse ou qualquer filme, que pagaram para ver, em paz. É importante para elas também.

    1. Voce coloca de uma forma que os pais praticamente obrigam seus filhos a irem ao cinema. Mas se seu filho pedir pra ir ver o filme da Dory, no cinema, domingo e esse seu filho não tem, como vc diz, paciência para ver nada? Você teria que pensar nas outras pessoas, adultas, querendo paz em um filme infantil no cinema? Acho que não, já que como bem disse você, temos que perguntar aos nossos filhos o que eles preferem. Pensa um pouco nisso, ja que gastou maior parte do seu texto dizendo como voce foi uma criança quieta e “boa” para assitir filmes e como os pais devem se tocar e entender o que realmente seus filhos querem.

  3. Juliane Gering

    Eu fiquei furiosa quando vi a postagem. sério, me subiu o sangue só de pensar que tem marmanjo que vai ler o dito cujo e se autorizar a empurrar crianças mesmo… O pior ainda é ver os comentários no post original, um bando de gente dizendo que criança não deve ir nem a cinema, nem a lugar nenhum, sem estar devidamente “civilizado”. Que ninguém merece ter que aguentar criança correndo, pulando, e sendo… criança! Lendo tudo isso, fiquei ainda mais indignada, pois lendo e estudando sobre filhos, descobri que a criança não consegue conter-se por conta própria, precisa de ajuda em seus primeiros anos de vida. Tornar-se um ser social é um processo longo, e que precisa ser conduzido com empatia. E o que acontece na prática é que um bando de adultos higienistas não suportam terem seu sossego ameaçado por crianças. O direito de ir e vir, de frequentar lugares públicos, é posto em cheque para crianças e seus pais. E isso dói, em ambos – pais e crianças. Cada olhar torto, cada cochicho indignado, cada expressão de desagrado em praças, restaurantes, parques, cinemas dói, pq parece que pais e filhos “não domesticados” ficam desautorizados a ocupar espaços públicos.

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