Brincar Junto ou Ter Que Dividir?

"À medida que os bebês crescem e começam a interagir mais uns com os outros, eles começam a demonstrar mais enfaticamente suas vontades, principalmente as relacionadas à posse. Não é a toa que muitas mães e pais costumam desabafar de suas dificuldades quando o bebê tem crises muito intensas de frustração, quando ele quer algo que não pode pegar, ou quando esse objeto é tirado de suas mãos, mesmo que o motivo para isso seja para garantir a própria segurança do bebê."
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À medida que os bebês crescem e começam a interagir mais uns com os outros, eles começam a demonstrar mais enfaticamente suas vontades, principalmente as relacionadas à posse. Não é a toa que muitas mães e pais costumam desabafar de suas dificuldades quando o bebê tem crises muito intensas de frustração, quando ele quer algo que não pode pegar, ou quando esse objeto é tirado de suas mãos, mesmo que o motivo para isso seja para garantir a própria segurança do bebê.

Uma das coisas que eu curto ver acontecendo com o Dante é como essa relação com os objetos foi evoluindo: quando ele era bem pequeno, não ligava muito se nós tirássemos algo da mão dele. Depois, começou a reclamar, mas ficava tranquilo quando trocávamos um objeto por outro. Mais alguns meses de vida e ele já não aceitava muito bem as trocas, fazendo questão de mostrar sua frustração. E ultimamente, ao passo de que ele se aproxima cada vez mais do aniversário de 2 anos, tem uma noção muito clara daquilo que quer, e faz o que puder para manter posse daquilo que deseja.

Claro, existem objetos que nós permitimos que ele mexa, como controles e telefones. Como isso não nos incomoda, então são objetos que ele pode manusear sempre que quiser. Mas outros, obviamente, são objetos que ele não pode mexer e, nesses casos, a boa e velha empatia é o nosso maior socorro. Ajudá-lo a entender o sentimento que está passando por ele e, mais ainda, mostrar a ele que reconhecemos aquele sentimento, é o que costuma amenizar uma situação negativa.

Mas existe algo que vai um pouco além disso, e que é um tanto mais delicado: a divisão, ou compartilhamento, de brinquedos com outros bebês ou crianças. Eu já escrevi sobre essa experiência no post A Dura Tarefa de Dividir Brinquedos e expliquei os motivos pelos quais eu não acredito que eu deva obrigar meu filho a dividir seus brinquedos, ou a esperar que a outra criança divida seu brinquedo com o Dante. Eu continuo achando que meu filho não deve ser coagido, ameaçado ou forçado a dividir, mas existe uma coisa que vai acontecer com frequência dentro deste contexto: conflitos.

Pensando no que acontece quando nossos filhos estão na pracinha, brincando alegremente, basta existir uma disputa por um brinquedo que teremos, então, todos os ingredientes necessários para iniciar um conflito. Evidente que para bebês muito pequenos, isso não deve acontecer. Mas Dante, com quase 2 anos, já consegue se envolver em pequenos conflitos, como uma maneira de afirmar que ele quer aquele brinquedo, mesmo que o brinquedo não seja dele.

Então, para facilitar a minha reflexão aqui, vou dividir o tema em duas partes:

Quando o seu filho não quer dividir o brinquedo dele

Uma criança, ao crescer, começa a desenvolver um senso de propriedade que precisa ser respeitado. Se um determinado brinquedo é dele, então precisamos respeitar isso. Uma criança que fala “é meu” não está mentindo, nem sendo grosseira, mas está apenas afirmando que aquele brinquedo, de fato, é dela. E isso precisa ser reconhecido, não rechaçado, na minha opinião.

Há pouco tempo atrás, quando Dante tinha seus 1 ano e 10 meses, estávamos nós dois na pracinha. Levei o patinete dele, que é um dos brinquedos que ele mais gosta, e ele ficava dando voltas e voltas na pracinha, todo peralta com seu patinete.

Pouco tempo depois, um casal de amigos chegou com seu bebê, Miguel, que tinha 1 ano e alguns meses. Como era de se esperar, o bebê ficou absolutamente fascinado com o patinete do Dante e foi tentar pegar. Mal sabia o bebê que estava enfiando a mão dentro de um vespeiro! Dante imediatamente agarrou o patinete e começou a falar alto:

– Não, não! É meu! Do Dante!

Enquanto o Miguel já ameaçava chorar, várias possibilidades passaram pela minha cabeça. Mas uma delas ficou e, então, eu me abaixei para falar com o meu filho:

– Filho, o patinete é do Dante mesmo. Mas e se o Dante brincar junto com o Miguel? Olha, acho que vai ser legal!

Assim, consegui acalmar os ânimos e colocar os dois em cima do patinete; Miguel na frente e Dante atrás. Comecei a empurrá-los e pronto, o conflito acabou. Os dois, que antes estavam disputando por um brinquedo, agora descobriam que é possível brincar juntos e se divertir sem excluir um ao outro. A foto deste post é a prova de que não estou inventando uma história para vocês!

Mas vários outros pensamentos vieram na minha cabeça, antes que eu decidisse mostrar a eles que poderiam brincar juntos. E essas são normalmente as respostas que damos para os nossos filhos, automaticamente. Pensamentos como estes:

– Não custa nada emprestar para ele.

– Para de besteira, vai emprestar sim!

Compre o meu livro e ganhe uma dedicatória personalizada!

– Deixa de ser egoísta, empresta logo!

– Se você não emprestar, nós vamos voltar para casa agora.

– Desculpa, gente, ele é muito egoísta…

Sinceramente, eu não consigo imaginar nenhuma dessas alternativas tendo um final que não seja uma criança triste e outra, talvez, feliz. Por que não tentar fazer com que as duas crianças ficassem felizes? Claro, isso não é receita de bolo, nem vai funcionar todas as vezes, mas o exercício de reconhecer a propriedade de um brinquedo dos nossos filhos, e não obrigar ou rotular nossos filhos é, de fato, um exercício de respeito, empatia e compaixão.

Quando o seu filho não quer dividir o brinquedo de outra criança

Mas e quando o conflito existe com um brinquedo que nem é do seu filho? Existem casos em que os nossos filhos irão brigar para poder brincar com algo que é de outra criança e, apesar de ser uma situação significativamente diferente, o exercício da empatia também continua sendo muito interessante.

É normal desejar o que é do outro. Nós mesmos desejamos aquilo que é do outro, de vez em quando. Não há nada de errado em desejar, mas para um bebê, que ainda tem dificuldades em lidar com emoções fortes, controlar o sentimento de desejo negado é simplesmente impossível. Por isso, podemos ajudá-los a entender o que eles estão sentindo, de maneira empática.

Nessa semana, estávamos em uma pracinha quando surgiu um carrinho de boneca. Dante, de uma maneira geral, já adora carrinhos de boneca, mas aquele era diferente: tinha dois lugares e duas bonecas muito bonitas sentadas nele. Na mesma hora, Dante largou tudo e foi atrás do carrinho, que pertencia a uma menina maior. A menina emprestou o carrinho sem problemas, mas logo outro bebê avistou o carrinho e veio correndo atrás do Dante para puxar o carrinho.

Pronto, outro conflito havia começado e estavam lá os dois falando alto, puxando o carrinho para cá e para lá. Dessa vez, a ideia veio mais rápido, porque da última vez tinha dado certo com o patinete, então abaixei e falei com ele:

– Dante, você quer muito brincar com o carrinho, né? O menino também quer brincar. Olha, dá para brincar junto! O Dante segura aqui e o menino segura ali. Agora, vocês podem empurrar juntos.

E dali em diante, eu pude presenciar uma das cenas mais bonitas que eu vi naquela semana. Dante e o colega de pracinha, empurrando o carrinho para cima e para baixo, brincando juntos! Às vezes, um corria mais rápido que o outro, e os dois acabavam caindo no chão, mas logo estavam de pé, empurrando o carrinho novamente.

O colega do Dante era mais novo que ele, então, depois de alguns minutos, foi procurar outra coisa para fazer e acabou indo para a gangorra. Dante, agora, tinha o carrinho só para ele de novo. Ele ficou feliz e brincou sozinho? Nada disso, ele saiu correndo atrás do colega, falando:


– Vem, vem, empurrar carrinho!

Dante havia descoberto como pode ser divertido brincar com o outro. E, como ele está entrando em uma fase em que ele realmente começa a se interessar em brincar junto de outras crianças, ter vivido essa experiência foi deliciosa não só para ele, mas para mim e para a mãe dele, que assistíamos a tudo aquilo com um grande sorriso no rosto.

Por isso, precisamos estar atentos ao tipo de ajuda nós daremos aos nossos filhos, durante os pequenos conflitos da vida. Existem ajudas que, na verdade, atrapalham mais do que ajudam e, nesse caso, se eu tivesse tirado o carrinho da mão dele, dizendo que aquele carrinho não é dele, não teria sido nada produtivo. Ao contrário, eu acolhi o sentimento dele, reconheci que ele gostou muito daquele carrinho, mas apontei também que outro menino queria brincar. Quando dei a ideia de que os dois poderiam empurrar juntos, fiquei torcendo para que tudo desse certo, mas também poderia não dar certo e, então, eu teria que recorrer à empatia novamente. O importante mesmo é ajudar nossos filhos com seus sentimentos, guiando-os através de soluções pacíficas e respeitosas.

Nem sempre isso irá funcionar, mas definitivamente vale a tentativa. Quando tentamos, mostramos aos nossos filhos que nos importamos com os sentimentos deles e damos o exemplo ao buscar uma solução que se baseia na cooperação e harmonia, ao invés de conflito e disputa. Isso já faz todo o esforço valer a pena!

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.

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