As Crianças Deveriam Brincar Livremente?

"Existe brinquedo de menino e de menina? O que acontece quando deixamos os nossos filhos escolherem livremente aquilo que desejam brincar? Será que funciona?"

Nós falamos cada vez mais sobre o brincar das nossas crianças. E isso até seria uma coisa boa, se não fosse a tamanha resistência que vemos todos os dias de pessoas que gostariam que seus filhos brincassem livremente, desde que essa “liberdade” não incluísse, por exemplo:

  • meninos brincando com bonecas
  • meninas brincando com carrinhos

Esse texto é para você, que talvez não concorde comigo. Pegue um café e continue lendo, e eu só tenho um pedido: leia com o coração aberto, mesmo na possibilidade de você ler o texto inteiro e continuar discordando de mim. Afinal de contas, meu objetivo aqui não é necessariamente mudar a sua opinião, mas apenas dialogar com outros pontos de vista.

Ah, e lembrando que eu escrevo isso como um pai, homem, mas que já foi um menino que só tinha brinquedos de meninos.

Eu costumo dizer, inclusive para os meus filhos, que brinquedos são para crianças. Às vezes, alguns adultos reclamam comigo, porque adultos também podem brincar. Ok, adultos, vocês podem brincar do que quiserem também, ainda mais quando vocês tiverem filhos. Nesse caso, vocês têm a desculpa perfeita para voltar a brincar!

Mas, voltando aos meus filhos, você sabe por que eu digo a eles que brinquedos são para crianças? Porque eu não gostaria que eles se sentissem aprisionados em um determinado tipo de brinquedos, independente do que a sociedade definiu para o gênero deles. Ou seja, eu não gostaria que eles fossem proibidos de brincar com os brinquedos considerados “de menina”, ao mesmo tempo que eu não gostaria que eles se sentissem obrigados a só brincarem com brinquedos considerados “de menina”.

Em outras palavras, eu queria muito que eles fossem livres para escolher com o que desejam brincar.

Mas por que eu esquentaria a cabeça com isso? São apenas brinquedos, não é mesmo? Sim, mas brinquedo é coisa séria! Eu, por exemplo, lembro de ser criança e olhar de longe para o setor “proibido” nas lojas de brinquedos. No meu caso, o setor “proibido” era o setor de bonecas e outros brinquedos que são considerados “de meninas”.

Eu lembro desse sentimento, que era uma mistura de confusão e culpa. Ao mesmo tempo que eu tinha a curiosidade de ver aqueles brinquedos, porque alguns eram muito legais para mim, eu também me sentia culpado. A culpa vinha porque, teoricamente, eu não deveria ter nenhum tipo de desejo por aquela categoria de brinquedos.

É uma sensação muito esquisita essa de você estar em um lugar e sentir culpa por desejar ir para algum canto. Ainda mais esquisito quando você é uma criança. Nessas horas, você começa a pensar:

— Ninguém pode me ver olhando para esses brinquedos!

— Eu não posso deixar ninguém saber que eu queria brincar com isso!

E foi assim que, com o tempo, eu comecei a fazer um diálogo comigo mesmo. Eu dizia para mim coisas do tipo:

— Ah, mas esses brinquedos de meninas são muito chatos!

— Brinquedos de meninos são muito mais legais!

Hoje, eu vejo isso como uma tentativa de eu me convencer de que nem valia a pena ficar desejando aqueles brinquedos. Eles nem eram legais assim! Sabe aquele ditado “quem desdenha quer comprar”? Pois é, esse ditado nunca fez tanto sentido para mim.

Mas quem foi mesmo que disse para mim que eu não posso gostar de determinados brinquedos ou brincadeiras? Quem me ensinou que brinquedos “de menina” são chatos? Para ser sincero, eu não sei dizer quem foi. Provavelmente, não foi uma pessoa só, mas todas as pessoas ao meu redor. E, observando como elas se comportam e interagem entre si, você acaba “aprendendo”, num esforço gigante de pertencer a determinados grupos.

Só depois que eu me tornei pai e desconstruí um bocado de coisas, posso admitir que esses brinquedos são bem legais! Poxa, bonecas fazem tantas coisas legais! Tem umas que você dá comida e elas fazem cocô, isso é muito divertido! Ou então, sabe aqueles brinquedos que faziam sorvete de verdade, e você poderia comer o seu próprio sorvete? Que criança não gostaria disso? Eu sei que eu adoraria.

Sei que eu gostaria de poder brincar com essas coisas sem me sentir culpado ou com medo. E eu sei que brincaria tanto com bonecas como “Comandos em Ação”. Entreguei a minha idade, né? Não faz mal! Eu consigo imaginar como seria importante, para mim, ter essa liberdade para brincar com tudo o pudesse me interessar.

Por outro lado, eu entendo que, naquela época, as coisas eram diferentes. Tenho certeza que meus pais apenas fizeram o que era praticado comumente no momento, e fizeram o melhor que podiam, com o que tinham acesso. Era bem difícil ter acesso à informação, que não fosse veiculada pela TV ou jornal.

Mas os anos passaram. Muitos anos passaram, eu diria! E com o tempo, o acesso à informação ficou mais fácil. O espaço para debates e reflexões também tornou-se mais acessível. Então, como temos esse privilégio, por que não conversar sobre os brinquedos que os nossos filhos podem brincar?

E quando eu, pai, consigo me desfazer dos preconceitos que existiam em mim, começo a perceber como as brincadeiras podem ser mais leves. Outro dia, por exemplo, meus filhos estavam brincando juntos, sem brigar. Isso, por si só, já é motivo de comemoração. Mas a forma com que eles brincaram me deixou de queixo caído.

O Dante, meu filho mais velho, acabara de conhecer quem era o Wolverine. Por isso, pediu que eu fizesse garras para ele. Pegamos 6 canudos que tínhamos em casa e improvisamos, colocando 3 canudos em cada mão. Já o Gael, bem, ele queria ser o Thor, balançando seu martelo de espuma com muita vontade.

Nesse momento, você deve estar pensando: mas o que isso tem a ver com o texto? Seguindo as regras da sociedade, eles estariam brincando com as coisas que são consideradas “de menino”, não é mesmo?

Sim, seria exatamente isso, se não houvesse um pequeno — grande — detalhe na brincadeira: eles eram heróis, mas também eram pais.

Enquanto Wolverine Thor corriam para lá e para cá, eles também empurravam consigo um carrinho com seus filhos. Perguntei a eles quem os bonecos eram e a resposta estava na ponta da língua:

— Esse é o Wolverine Filho e esse é o Thor Filho.

Pronto, tínhamos ali uma família de super heróis. Entre uma luta imaginária e outra, eles pegavam seus filhos, cuidavam deles e viam se não estavam correndo algum perigo. Eles estavam sendo cuidadores, mas também heróis. E isso só aconteceu porque não impusemos regras a eles sobre o que e como deveriam brincar.

Pode me chamar de pai babão, mas essa cena vai ficar guardada no meu coração. E vai me lembrar sempre de que aquele Thiago criança, que se sentia mal por desejar uma boneca não estava tão errado assim.


Deixe nos comentários do post as suas opiniões! Se trabalharmos sempre com muita empatia e respeito, podemos conduzir qualquer tipo de discussão.

E, se você tiver interesse em ver mais coisas sobre o assunto, eu também tenho um vídeo sobre isso no meu canal. É só clicar no play:

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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