Às vezes, parece que nós estamos mais preocupados em saber se estamos acertando do que qualquer outra coisa. Quando estamos falando dos nossos filhos, então, tudo fica ainda mais complicado. A sombra da culpa cresce e o pavor de traumatizar nossos filhos para todo o sempre é paralisante.

Esse é um medo que eu tenho, mas é também o medo de muitas pessoas que me escrevem e-mails, ou dos pais e mães que vão aos meus encontros pelo Brasil.

— Se eu fizer isso ou aquilo, vou errar muito na criação do meu filho? Estou certo em fazer aquilo?

Sempre que eu ouço isso de outras pessoas, e também quando ouço isso dentro de mim através daquela vozinha que tenta minar a minha confiança, eu penso: em que ponto da história as pessoas pararam de se satisfazer fazendo apenas o melhor que podem fazer, com aquilo que têm para oferecer?

Eu sei, escrever isso é fácil demais. Sei como é difícil fazer cara de alface para todo mundo que olha e julga o que você está fazendo com o seu filho. E fazem isso justamente nos momentos mais difíceis das nossas vidas, como por exemplo, durante aquele chilique cinematográfico no meio do shopping.

Imagine: no meio do shopping, seu filho tem uma crise de choro daquelas. Ninguém vai oferecer um abraço para você e para o seu filho. As pessoas oferecem olhares fulminantes e, independente do que você decidir fazer — seja acolher, empatizar, gritar ou até punir — sempre ficaremos com a mesma pergunta na cabeça:

— Será que estou fazendo o certo para o meu filho?

Falar em certo e errado comparando com outras pessoas é a fórmula perfeita para termos muitas discussões acaloradas e, pior ainda, muitas pessoas sentindo-se oprimidas. Por isso que eu sempre busco fazer o melhor que eu posso, com aquilo que eu tenho. Esse é o meu norte, e diz respeito a mim e à minha paternidade. Cada pai e mãe pode oferecer aquilo que tem de melhor e aquilo que tem para dar.

Portanto, se formos consistentes nesse pensamento, chegaremos a um ponto em que não importa muito o que os outros fazem ou deixam de fazer. O que importa mesmo é se você está no seu caminho que é certo para você, na sua jornada da sua paternidade (ou maternidade). Eu sei, eu escrevi “seu” e “sua” muitas vezes, e foi de propósito.

— Agora, o que faz você saber que está no caminho certo da sua paternidade?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares, né? Uma das coisas que me fazem ter certeza que estou no caminho que eu gostaria de percorrer é saber que os meus filhos têm liberdade de falar para mim sobre seus sentimentos, mesmo que esses sentimentos sejam negativos e, mais ainda, que estes sentimentos sejam relacionados a mim.

Por exemplo, num dia desses em que eu estava super exausto e sem paciência alguma, errei a mão com o Dante e briguei feio com ele por algum motivo bobo qualquer. Ele chorou, claro, mas na minha braveza eu não consegui pedir desculpas, nem consolá-lo como gostaria.

Na hora de colocá-lo para dormir, Dante falou mais ou menos assim comigo, no auge dos seus 4 anos:

— Papai, eu fiquei triste quando você brigou comigo. Eu não gosto quando você fica bravo.

No mesmo instante, eu pensei:

— Caramba, eu nunca me senti seguro o suficiente para falar algo assim para os meus pais.

Pedi desculpas a ele, disse que aquele foi um dia muito difícil para mim e que eu tentaria não ficar tão bravo com ele. Dante acenou com a cabeça, ganhou um beijo de boa noite de mim e deitou para dormir.

Dante, com os seus 4 anos de idade, sente-se seguro o bastante para chegar a mim e dizer que está triste comigo. Ele sabe que pode dizer que está bravo comigo, ou que não gostou de me ver bravo. Ele tem certeza que pode me pedir para não gritar com ele.

E sabe por que ele pode fazer isso tudo? Provavelmente porque ele já tem noção de que eu não sou perfeito e que eu vou errar algumas vezes. Ele sabe que a minha relação com ele não é um teatro, onde eu interpreto um pai que nunca erra.

Isso me dá o conforto de saber que estou certo no meu caminho da paternidade, porque uma das coisas mais importantes para mim é que a minha relação com os meus filhos não seja baseada em medo.

Momentos como esse evidenciam que os meus filhos me enxergam como alguém humano, que vai errar tanto quanto ele.

Que é alguém que vai gritar, mesmo sabendo que não podemos gritar.

Assim como ele.

Mas também é alguém que vai pedir desculpas, que vai fazer as pazes.

E, no fim do dia, nossa relação sai fortalecida.