Como Pessoas Vindas de Relações de Apego Inseguro Podem Criar Relações de Apego Seguras e Saudáveis na Vida Adulta

"O vínculo de apego criado na infância não é uma sentença para a vida toda. Há maneiras de mudar, quando se está em um relacionamento saudável. Leia como!"
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O seu estilo de apego pode não ser tão inalterável ou definitivo quanto você imagina.

A maneira com que homens e mulheres interagem com seus parceiros enquanto adultos tem muito a ver com os seus estilos de apego, que – de acordo com a teoria do apego – são frequentemente influenciados ou desenvolvidos durante a infância.

A teoria do apego, pioneira pelo psicanalista John Bowlby e futuramente expandida pela psicóloga Mary Ainsworth, é “um modelo psicológico que tenta descrever as dinâmicas de curto e longo prazo das relações interpessoais entre humanos,” e descreve “como seres humanos reagem dentro das relações quando magoados, separados dos seus entes queridos ou quando percebem uma ameaça.”

Os seres humanos são programados para buscar suas primeiras figuras de apego como protetores quando se sentem ameaçados. Quando procuramos por ajuda, nós na verdade honramos a nossa capacidade de sobreviver a situações perigosas.

Existem muitos fatores que podem influenciar nossa adaptação ao vínculo – incluindo procedimentos médicos, epigenética (como os genes de uma pessoa se expressam), e o temperamento de uma criança – mas nesse texto, vamos olhar através das lentes das interações entre pais e filhos na infância. Esse modelo sugere que a primeira forma que você aprende a amar e a se comportar nas relações é baseada na forma como seus pais cuidaram de você quando criança e como eles demonstraram afeto.

Quando você é uma criança, você se impressiona e responde bastante ao ambiente relacional onde você nasceu. Você aprende com os seus pais como funcionam as relações, o que você pode esperar, e o que você pode projetar nos seus parceiros do futuro – muito baseado em como seus cuidadores tratam você. Podemos pensar em um cuidador como sendo uma “presença parental” ou como uma figura de vínculo primário – podendo ser o pai, outros irmãos, avós e/ou babá, etc.

As crianças também são muito conscientes de como seus pais interagem um com o outro, e não podemos esquecer dos avós e irmãos, porque o campo relacional a que somos expostos geralmente se torna parte do nosso mapa, o qual inconscientemente procuramos quando entramos nas relações adultas. Nossas relações adultas também podem influenciar se estamos nos aproximando ou nos afastando de um apego seguro.

Como resultado, as experiências da sua primeira infância ajudam a formar seu estilo de apego – o que, posto de forma simples, influencia como você se aproxima e se comporta nas relações como um adulto.

Como criança, não temos outra escolha a não ser nos adaptarmos aos benefícios, e aos déficits, dos nossos cuidadores, que também herdaram ou aprenderam isso dos seus próprios pais. Essa transmissão de comportamento, atitude e expectativas normalmente é repassada inconscientemente de uma geração para a próxima.

Na maioria dos casos, os pais fazem o melhor que eles podem e isso serve para todos nós quando resolvemos investir em curar um vínculo ferido, bem como ajuda a restabelecer e aprender habilidades de apego seguro.

Existem dois tipos base de estilos de apego: apego seguro e apego inseguro.

Se você cresceu em um lar saudável e pró-social, você provavelmente aprendeu a se vincular de forma segura nas relações.

Adultos com um estilo de apego seguro se sentem confortáveis em demonstrar e receber amor. Eles se sentem seguros em expressar suas necessidades em uma relação e confiam nas habilidades dos seus parceiros em atendê-las.

Pessoas apegadas de forma segura são também autônomas e conseguem se auto-regular, mas também gostam de regulação interativa, onde elas conseguem ser confortados pelos parceiros e confortar o parceiro em troca. Elas são protetoras dos seus entes queridos e honram a confidencialidade da sua relação – tornando prioridade compartilhar os problemas, desafios e celebrações um com o outro em primeiro lugar.

Elas se mantêm conectadas e unidas umas às outras enquanto também sentem-se confortáveis passando tempo sozinhas.

Porém, enquanto um estilo de apego seguro seja ideal, muitas pessoas não cresceram em um lar de apego seguro, o que pode provocar o desenvolvimento de um estilo de apego inseguro. Um apego inseguro pode ser categorizado em três sub-tipos: o apego evitativo, o apego ambivalente e o apego desorganizado.

Mas uma vez que você tenha desenvolvido um estilo de apego como criança, você está preso a ele pelo resto da vida? É possível mudar seu comportamento e se tornar apegado de forma segura nos relacionamentos românticos na vida adulta?

A boa notícia é que sim, o estilo de apego pode mudar ao longo do tempo.

Apesar de que talvez você se perceba mais fortemente em um dos quatro estilos de apego do que nos outros, seus comportamentos e respostas nos relacionamentos como adulto podem ser fluidos em algum nível – em vez de totalmente “fixos” em um estilo único de apego. Você pode ter um mix de adaptações de apego, dependendo do ambiente relacional que você está e como você responde a pessoas e situações específicas.

Muitas vezes quando nós estamos cansados, estressados ou nos encontramos num relacionamento particularmente difícil, nossa configuração padrão nos leva a padrões de apego inseguros – onde nos afastamos, nos desconectamos, ficamos grudentos, ou nos sentimos abandonados ou não queridos.

À medida que a vida passa, você encontra outras relações significativas e seu estilo de apego pode ser influenciado pelos estilos de apego do outro. Por exemplo, se o seu estilo de apego é inseguro, se relacionar com um parceiro com estilo seguro – ou um parceiro que está a afim de investir em aprender sobre apego seguro – pode, na verdade, ser benéfico e ensinar para você métodos mais positivos de dar e receber amor. Ambos podem se beneficiar e ajudarem um ao outro.

Da mesma forma, pessoas apegadas de forma segura, precisam tomar cuidado com o excesso de confiança no outro, pois podem se encontrar numa relação difícil, como violência doméstica, por exemplo. Numa situação como essa, o apego pode mudar de seguro para desorganizado até que os parceiros curem a relação ou que eles decidam que é hora de terminar o relacionamento.

Nós podemos fazer coisas que reforcem nossa ligação e que nos ajudem a reparar desentendimentos.

Independente de você ser vinculado de forma segura ou insegura, é importante pensar que esse não é um rótulo que define você como “bom” ou “mau”.

Seu estilo de apego é resultado de como você se adaptou às diferentes situações e relacionamentos com pessoas variadas. É melhor honrar as experiências que você teve na vida e perceber que mesmo que elas tenham sido difíceis, existem práticas que podem ajudar você a curar o máximo possível.

Eu as chamo de experiências corretivas. O exercício dos “olhos gentis” no vídeo abaixo é apenas um exemplo.

Entender o seu histórico de relacionamentos e as suas adaptações de apego junto com outras técnicas de cura podem realmente ajudar você a aproveitar mais as relações, que preenchem e dão significado, bem como ressaltar sua capacidade de explorar as profundezas da intimidade e autenticidade.

Nós todos merecemos viver uma vida bem amados e aprender a amar bem!

É tranquilizante saber que se você deseja tornar seus vínculos mais seguros nas relações como adulto, você pode desenvolver respostas mais saudáveis a situações estressantes e trabalhar para superar seus desafios pessoais. Existem maneiras de fazer isso.

À medida que você se cura das circunstâncias dolorosas que te levaram a desenvolver um apego inseguro, você pode trocar para um estilo de relação que preencha mais, enquanto você trabalha nos problemas de base e foca nas experiências corretivas, em vez de deixar suas reações emocionais dominarem você, o que pode afastar as pessoas que você mais ama.

Agora vamos falar sobre maneiras como as pessoas com tendência a um dos três estilos de apego inseguro podem se tornar pessoas apegadas de forma mais segura nos seus relacionamentos românticos saudáveis como adultas.

1. Estilo de apego evitativo

Pessoas com estilo de apego evitativo podem ter sido negligenciadas ou rejeitadas quando mais novas. Quando os pais não são presentes ou são muito negativos, a criança não tem escolha diferente de tentar fazer as coisas por conta própria, já que literalmente não tem ninguém a quem ela possa se conectar ou se apegar de forma segura.

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Essas pessoas contam muito com elas próprias e frequentemente necessitam de muito tempo sozinhas para conseguirem se sentir confortáveis. Elas encontram segurança na solidão em virtude das experiências passadas. Elas podem claramente acabar com um relacionamento, já que o parceiro de uma pessoa que se apega de forma evitativa pode se sentir ignorado, rejeitado, negligenciado ou não amado.

Uma das formas mais fáceis de ajudar essas pessoas a se sentirem melhor nas relações é ajudá-las a se sentirem acolhidos e mostrar a elas que você gosta da sua presença.

Tente dar a elas um tempo pra transmutar da solidão para conexão, já que pode ser uma transição estressante até que elas sintam a nutrição/preenchimento que podem ter em um relacionamento com você.

Como elas foram deixadas sozinhas frequentemente, sem ninguém para se espelhar quanto a estados emocionais, elas normalmente não sabem ler os sinais sociais (tom de voz, olhar, postura, expressão facial, etc.) de forma efetiva – então elas podem interpretar mal ou não perceber o estado emocional do outro, nem mesmo estar conscientes das necessidades do outro, então você pode ensiná-las a entender esses sinais de forma mais clara e definitiva com o passar do tempo.

A coisa mais importante a se lembrar é que o fato de que alguém tenha a tendência a se distanciar, não significa que essa pessoa não goste de você; significa apenas que ela precisa aprender que é capaz de experimentar segurança nas conexões, da mesma forma que na solidão.

2. Estilo de apego ambivalente

As pessoas com estilo de apego ambivalente normalmente tiveram pais que não tinham reações emocionais previsíveis ou consistentes. Elas receberam reações inconsistentes às suas demandas. Assim, essas pessoas têm dificuldade em relaxar em seus relacionamentos – mesmo que no início sejam amorosas – porque eles acreditam que serão abandonadas. Como resultado desse estilo de parentalidade “ora acolhimento, ora abandono” vivido na infância, elas frequentemente têm dificuldade em compreender, como pessoas adultas, o comportamento carinhoso dos parceiros, já que elas temem que se relaxarem, alguma coisa ruim pode acontecer.

Para ajudar pessoas com estilo de apego ambivalente a mudar suas reações, é importante praticar respostas consistentes, tranquilizando-as com sua presença, e ajudando-as a ficarem presentes no seu comportamento carinhoso com elas. Tranquilize-as mostrando que você vai estar alí para elas no futuro, em qualquer circunstância.

Tranquilidade é fundamental para ajudar um ambivalente a acalmar seu estilo de apego super-ativo.

Com o passar do tempo, à medida que elas aprendem a receber amor e afeição e a confiar que você vai realmente estar lá o tempo suficiente, elas conseguem relaxar e seguir para um apego seguro.

Elas também precisam aprender a dar um tempo e não pressionar muito seus parceiros a atender suas demandas imediatamente da forma que elas acreditam que é a perfeita. Isso é irrealista, e as ajuda a aprenderem a ser mais auto-suficientes e se acalmarem sozinhas conforme elas preenchem o desejo de conectar com seus entes queridos.

Pode parecer uma solução fácil, mas esse exercício corretivo exige muita paciência e prática, já que a ansiedade das pessoas ambivalentes pode as destruir.

Se uma pessoa apresenta um padrão ambivalente suave, ela pode se sentir triste na maioria das vezes ou desapontada antes mesmo que você, como parceiro, faça qualquer coisa frustrante, porque essa projeção está vindo da história dela, muito mais do que o que está acontecendo com o seu relacionamento agora, o que com certeza pode estar confundindo aos dois.

Pode ser difícil para ela esquecer feridas do passado e ela costuma se comunicar através de reclamações. Ela precisa aprender a solicitar sua demandas de forma mais direta e positiva, o que geralmente resulta em satisfação para ela também.

Ela precisa aprender a tolerar a satisfação e realização nos relacionamentos sem se desesperar de medo do abandono, e ela provavelmente vai precisar da sua ajuda como parceiro para tranquilizá-la que você ainda está com ela/para ela.

3. Estilo de apego desorganizado

Esse tipo específico de estilo de apego resulta de pais ou cuidadores amedrontados ou amedrontadores. Talvez eles venham de um lar onde havia abuso, ou talvez os pais tivessem comportamentos caóticos e instáveis, que não deixavam as crianças se sentirem seguras.

Instintivamente, crianças buscam os pais quando estão com medo, e quando não podem recorrer aos pais – porque são eles quem estão os fazendo se sentirem com medo – eles têm uma sensação de medo e desconforto que dura bastante tempo e que pode permanecer até a vida adulta.

Nós somos programados biologicamente para procurar a primeira figura a quem somos vinculados/apegados quando estamos com medo ou precisamos de conforto. Quando um pai é amedrontador, nós perdemos nosso porto seguro e ficamos sem recursos.

Isso significa que ao mesmo tempo que alguém com esse tipo de apego quer intimidade e conforto, ele também tem medo dessas sensações. De certa forma, ele sente que relacionamentos são perigosos. Isso pode ser porque seus pais se sentiam sobrecarregados quando os filhos expressavam suas demandas. A criança pode se sentir alvo de agressões ou dos medos mal resolvidos dos pais. Algumas vezes os pais dão orientações que não são claras e a criança se sente fadada a falhar.

Então, quando adulto, você pode se sentir sobrecarregado com problemas simples que precisam ser resolvidos – tão simples quanto “onde você quer jantar?” ou “você quer comer sushi, pizza ou cachorro quente na esquina” – e se fecha emocionalmente em vez de escolher.

Para oferecer uma chance de cura às pessoas apegadas de forma desorganizada, é importante enfatizar a segurança.

Ajude-as a encontrar maneiras de se sentirem mais seguras na relação, como por exemplo, ajudá-las a encontrar um exercício que as acalme e elas podem praticar sempre que se sentirem sobrecarregadas ou quando tem o instinto de se fechar ou se afastar.

Elas também precisam aprender a se acalmarem sozinhas quando estressadas e você, como o parceiro, pode ajudar bastante se você sabe o que as acalma quando estão muito ansiosas, sobrecarregadas ou irritadas, bem como reanimá-las quando estão pra baixo, deprimidas ou letárgicas.

Esse é o cenário de apego mais complicado porque o medo e o estado de vigília estão presentes nos relacionamentos. Fazer uma lista coisas que fazem a pessoa com apego desorganizado se sentir segura pode ajudar bastante, bem como construir um kit de ferramentas que a ajudem a regular as emoções e conexões.

Independente do seu estilo de apego, todos podem trabalhar em busca de apegos mais seguros e saudáveis.

Trabalhe junto do seu parceiro ou terapeuta se você acha que vai ajudar.

Mesmo que os problemas do passado tenham formado o seu jeito atual de se apegar, você é sempre capaz de fazer diferente e criar um futuro melhor e mais seguro para você, bem como ajudar as pessoas que você ama.

Um dos maiores presentes que podemos dar uns aos outros na relação é apoiarmos um ao outro a aprendermos sobre formas seguras de apego. Pratique formas seguras de apego em suas relações íntimas – é uma vitória para vocês e as pessoas ao seu redor!

Diane Poole Heller, Ph.D., é uma psicoterapeuta que ajuda pessoas e casais a entender e decodificar as atitudes e comportamentos que foram introjetadas na infância, para que eles consigam apreciar amor duradouro, intimidade e felicidade. Visite sua página na internet e se você entende inglês, faça gratuitamente o teste de estilo de apego ou escute seu audio livro, Healing Your Attachment Wounds: How To Create Deep and Lasting Intimate Relationships.

Texto original:

https://www.yourtango.com/experts/diane-heller/how-people-with-avoidant-ambivalent-disorganized-insecure-attachment-styles-can-build-secure-healthy-relationships

Tradução Livre: Carolina Cesconetto Martins

Revisão: Thiago Queiroz

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