Criação com Apego, Feminismo e Liberdade #‎AgoraÉQueSãoElas

"A liberdade está em deixar de lado um pouco o campo das dicotomias na hora de fazer suas escolhas. Para ser uma feminista e também praticar a Criação com Apego com a leveza que a vida merece, é preciso ir além do senso comum, além da superficialidade dos rótulos, e arredondar as fronteiras demasiadamente duras dos discursos dominantes."
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Estamos na semana #‎AgoraÉQueSãoElas, criada por Manoela Miklos, onde mulheres ocupam o espaço de fala dos homens, que reconhecem a urgente luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino.

Aqui no blog, abri as portas para mulheres que me inspiram demais, e agora o espaço é da Clarissa Oliveira, antropóloga, feminista e autora do blog A Mãe Que Quero Ser.

Acompanhem o blog que teremos ainda mais textos escritos por mulheres!

Juntar três termos carregados de significado e polêmica em um texto curto é a minha definição de ousadia. Depois de um mês em que várias mulheres tiveram a coragem de expor episódios de abuso e assédio – muitos envolvendo homens próximos da família – decidi me permitir o risco de não agradar nem gregos nem troianos com esse texto nada ortodoxo.

Para quem não me conhece, prazer, sou Clarissa. Sou mulher, brasileira, bilíngue, classe média alta, feminista, heterossexual, de esquerda, branca no Brasil/latina nos EUA (onde vivi e passei anos formativos), antropóloga. Esses são alguns dos rótulos que adotei (ou que me foram impostos), da infância até o final da adolescência. De lá para cá, agreguei novas palavras à minha biografia: editora de livros, ativista do parto humanizado, defensora da criação com apego, blogueira materna, mãe.

Por que estou contando tudo isso para vocês? Primeiro para mostrar que, em qualquer movimento, existe diversidade e complexidade; dialogar com tudo isso é desafiador – e, às vezes, um exercício em paciência e tolerância. Há quem diga que há uma insustentável incoerência entre criar com apego & ser feminista, sobretudo na condição de profissional que não tem intenção de deixar de lado a carreira para se dedicar integralmente aos cuidados de um filho (o meu caso).

Dentro do feminismo, existe um discurso de que os valores pregados pela criação com apego – em especial o parto natural e a amamentação em livre demanda, mas também práticas como a cama compartilhada e o babywearing – seriam opressores para a mulher, já que impossibilitam o cuidado 100% compartilhado com o parceiro e valorizam em excesso o biológico. E sabemos que a condição biológica da mulher – portadora de útero e dada a histeria, apta só para a domesticidade e o servir – foi/é, de fato, usada para nos tirar escolhas e direitos e nos manter dependentes dos homens.

Por outro lado, em muitos praticantes da criação com apego, nota-se uma divisão dita tradicional dos papéis de gênero na família, com o pai provendo o sustento e a mãe priorizando cuidados com as crianças. Como vivemos em uma sociedade capitalista, entende-se que, nesses arranjos, a mulher fica numa condição financeiramente frágil, mesmo que temporária. Ideologicamente, percebe-se também o uso de teorias psicológicas e neurocientíficas que valorizam as necessidades das crianças e clamam por mais dedicação a elas, e isso talvez envolva colocar de lado as próprias necessidades ou impulsos.

Imagino que você, leitor ou leitora, esteja se sentindo meio confuso/a com o rumo desse texto. Além de eu não ter cumprido a promessa de um texto curto (desculpa!), meus argumentos parecem sustentar a tese de que criar com apego é mesmo anti-feminista.

Mas eu não disse isso. No primeiro parágrafo, eu falei que algumas feministas acham os princípios da Criação com Apego opressores. No segundo, eu disse que algumas pessoas que praticam a Criação com Apego adotam arranjos alinhados com o ideal patriarcal. Acontece que nem tudo que sai da boca de qualquer feminista me toca e nem todo praticante de Criação com Apego me representa.

Para mim, opressor é qualquer discurso que tire a liberdade de viver experiências desejadas.  Alguns discursos adotados por pessoas que falam em nome do feminismo podem soar opressores para quem, como eu, deseja passar por coisas que são sim proporcionadas pelo nosso corpo feminino: o parto (natural, sem anestesia sim, porque eu quero!) e a amamentação (peito livre, peito até quando meu filho quiser, o peito é meu!).

O discurso de quem defende a Criação com Apego também pode ser opressor para quem enxerga sacrifício por trás das escolhas supostamente “obrigatórias” de seus praticantes em nome da “saúde do bebê”. Mas essa obrigatoriedade está nos olhos de quem vê. E todas as escolhas exigem algum grau de sacrifício – sendo que alguns sacrifícios são chancelados por nossa cultura (machista, capitalista, imediatista) e outros não. Para usar um exemplo bobo: todos acham válido defender o sacrifício de horas de lazer para malhar em nome da saúde. Ninguém vai dizer que quando um jornal publica pesquisas divulgando os benefícios dos exercícios ele está oprimindo os sedentários. Então por que dizem que aplaudir os benefícios do parto é “obrigar as mulheres a um parto normal”? Ou que a recomendação da OMS de amamentar até dois anos ou mais é “irreal” ou “injusta” para mães que trabalham?

Por trás da palavra “opressão” há certas presunções, e é preciso entender que cada um escolhe conservar o que lhe é mais caro. O importante é lutar para possibilitar escolhas – especialmente as escolhas que não são chanceladas pela cultura hegemônica. Inclusive a escolha de não fazer “o que é melhor para o bebê” pelo simples fato de que você não é obrigada a colocá-lo em primeiro lugar sempre (aliás, por favor, não faça isso, pro bem dele!).

A liberdade está em deixar de lado um pouco o campo das dicotomias na hora de fazer suas escolhas. Para ser uma feminista e também praticar a Criação com Apego com a leveza que a vida merece, é preciso ir além do senso comum, além da superficialidade dos rótulos, e arredondar as fronteiras demasiadamente duras dos discursos dominantes. Na minha vivência, ser feminista é fazer uso do meu corpo como eu bem entender e, no meu caso, isso envolve usá-lo de maneiras que estão fora da “norma cultural”. Na minha compreensão, criar com apego não é sacrificar-se em nome de uma tese que diz que o “melhor” para o bebê é seguir uma cartilha que coloca a mulher de volta ao lar em condição servil (como pregam seus críticos); criar com apego é reconhecer os benefícios de estar próxima da criança, de corpo e de espírito, e colocar isso em prática da maneira mais viável possível porque isso me dá prazer, sem essa de medir o grau de acerto pelo tamanho do martírio. O meu feminismo e a minha “forma”de criar certamente não são as suas (que bom!).

Eu espero que cada mulher e cada homem se sinta capaz de escolher, questionar, descartar ou fazer as pazes com os seus rótulos com a flexibilidade e a leveza necessárias para uma vida interessante e alinhada com seus desejos e valores. Sonho também com o dia em que essa pluralidade de rótulos será tão senso comum que passemos menos tempo nos atacando nas redes sociais em nome de bandeiras e mais tempo brindando as nossas belas e frutíferas diferenças. Tim-tim!

 

Crédito da foto: Mari Hart Dore.

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Comentários

  • Fabiana Carvalho Amorim disse:

    Essas ideias me contemplam. As lutas deveriam ser mais pela liberdade de escolha através da informação/conhecimento, e menos pelo q se considere certo e errado. Muito grata a vc Clarissa, pelo texto – q poderia sim ser mais logo rsrsr – e a vc Thiago, por ter me apresentado-a.

  • Gabriela disse:

    Adorei o texto! Liberdade de escolha e ponto. Reflexões sobre quem somos ou de que somos rotulados além de tudo podem nos ajudar no caminho de julgar e rotular menos o outro. E que sigamos brindando a isso! 😉

  • Thiago Queiroz

    Thiago Queiroz

    Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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