Um pai nasce depois do filho. Sofre o parto de si mesmo, a revolução da sua vida que só a paternidade pôde proporcionar até aquele momento.

Um filho te faz agir para cuidar do bem-estar dele, mas também te mobiliza a enfrentar desafios pessoais que são obstáculos a esse bem-estar pleno que desejamos aos nossos pequenos. Esses monstros e fantasmas que enfrentamos por nós e por nossos filhos constituem uma das facetas mais sublimes da paternidade: a abnegação. Claro, não se trata da própria negação, ou da anulação de si pelo outro, mas a doação tão intensa de si que transcende o que há muito seria o máximo a ser dado.

Vejam bem: talvez seja menos diagnóstico do que experiência pessoal, mas sempre há desafios a serem superados por nós em razão dos filhos.

No meu caso, um desafio pessoal foi aprender a dirigir na marra. Assim, sem nunca ter dirigido, e com carteira de habilitação há anos na mão. Este texto não é sobre carros. Também não é sobre a potência e virilidade que a publicidade machista sobre carros diz que os homens terão ao comprar e pilotar um. É sobre a barra que foi fazer algo que eu considerava que nunca seria capaz de fazer, muito menos sendo responsável por levar meu filho, tão pequeno.

Segue mais ou menos assim. Eu, de humanas e miçangueiro, não concebia uma realidade que incluísse o carrocentrismo triunfante na minha vida. Eu era contra. Ainda sou contra. Se fosse possível, não usaria, mas as distâncias e as circunstâncias levaram eu e minha esposa a comprar um carro, evento que adiei por meses, inclusive. Era ela quem dirigia, mais experiente, forte e confiante do que eu. Nessa época, nosso filho, o Frederico, tinha quase 1 ano de idade.

Quando matriculamos o Frederico na escolinha, tirei férias para fazer a adaptação, e as circunstâncias foram tais que eu precisava aprender a dirigir em poucos dias para levá-lo à escolinha e acompanhá-lo na adaptação. Era eu ou eu. Era daquele jeito ou nada. Pior: se empurrasse o problema com a barriga ele só aumentaria.

Com muita ajuda, consegui. Aliás, quem mais me ajudou foi meu pai. Foi bastante doloroso enfrentar um medo, e um tanto enlouquecedor saber que eu precisava fazer aquilo porque meu filho precisava de mim para todo o processo na escolinha. Não saí da zona de conforto, eu me catapultei para fora dela.

A paternidade te faz querer ser uma pessoa melhor. Ser inteiro, se entregar para um desenvolvimento pessoal e emocional para oferecer o melhor pai que se pode ser. O melhor de hoje certamente não é o melhor de amanhã, pois as demandas e as trocas mudam. Nossos filhos nos impulsionam para nosso melhor o tempo todo, seja engatinhando, andando ou batendo asas e voando.

Já o tempo… O tempo se encarrega de demonstrar que nossos filhos são um grito de esperança ecoando no mundo desde o seu primeiro choro. É um grito nosso, de família, e que não cessa nunca. Queremos um futuro melhor para eles e nos esforçamos em cuidar de nossos bebês e do mundo que os cerca. E eles, por sua simples existência, são um futuro melhor para nós, pais. Se somos impelidos a sermos pessoas melhores, só temos a agradecer a eles. A melhor versão de si é certamente aquela que surge quando colhemos o primeiro sorriso da manhã dos nossos filhos. É o que convida o otimismo para entrar, tomar um café e expulsar o mundo feio que conhecemos. É o que nos permite ter forças para transformá-lo, e também a nós mesmos.

Uns param de fumar. Outros decidem largar o emprego e trabalhar com o que gostam, mesmo que pague menos, ou ficar tempo integral em casa com os filhos. Há quem tente recuperar laços familiares enfraquecidos pela distância e pelo tempo. Muitos tentam adquirir hábitos mais saudáveis, seja para viver mais e melhor, seja para oferecer bons exemplos. Talvez sejamos todos um pouco dessas dores, tanto para nós como para nossos filhos. Superá-las nos torna mais leves, e possivelmente pais mais amorosos. Tomara.

E tu, qual é o teu desafio? Por que teu filho te mobilizou ou te mobiliza a enfrentá-lo?