Tem um tempinho que eu já tenho me dedicado bastante à Disciplina Positiva. Leio, estudo, aprendo, pratico, erro, aprendo mais, erro ainda mais e escrevo. Se o pequeno Dante soubesse o quanto ele tem me proporcionado em termos de crescimento pessoal desde que nasceu…

Mas uma coisa que eu vejo bastante é a escassez em textos falando de termos práticos, ou mais descomplicados, sobre a disciplina positiva. É claro que ler o livro Disciplina Positiva, da Jane Nelsen, já ajuda muito nesse entendimento, mas ainda assim, principalmente em blogs, eu nunca fui de encontrar coisas tão fáceis para ler e refletir. E foi bem nesse sentido que eu pensei nesse texto, bem como para os futuros posts que planejo escrever aqui no blog. Então, aguarde por uma série de posts bem bacanas sobre a disciplina positiva!

Antes de qualquer coisa, é muito importante esclarecer que aqui não estamos falando em métodos ou estratégias para termos as soluções de todos os nossos problemas. Quando falamos em disciplina positiva, não falamos em fórmula mágica. O que fazemos aqui é discutir como enxergar os nossos filhos e como pensar na relação que temos com eles de uma maneira diferente. À medida que começamos a avançar nessas reflexões, a disciplina positiva passa a fazer muito mais sentido, assim como todas as ferramentas que podemos utilizar para educar nossos filhos de maneira respeitosa e afetiva, através do nosso vínculo.

Como esse post é apenas para iniciar nossas conversas sobre disciplina positiva, acho interessante começarmos falando sobre o que a disciplina positiva não é. Prepare para mandar esse texto para todas aquelas pessoas que costumam dizer que fazemos exatamente aquilo que a disciplina positiva não é!

Em primeiro lugar, disciplina positiva não é permissividade. As pessoas costumam pensar que nós, pais e mães, que utilizamos a disciplina positiva na relação que temos com os nossos filhos somos, na verdade permissivos. Elas acham que nós, obrigatoriamente, deixamos nossos filhos fazerem o que quiserem, na hora que bem entenderem, e da maneira deles. Mas isso está longe de ser verdade.

A verdade é que existe a disciplina autoritária e a disciplina permissiva. São os dois extremos. Em um, você tole, pune e agride seu filho. Em outra, você o deixa fazer o que bem entender. Eu acho que todos nós concordamos que nenhum desses dois caminhos é o melhor caminho, não é mesmo? Mas isso também não significa que nós só temos essas duas alternativas para escolher. Tem que haver um meio termo, como tudo na vida. Então, a nossa tarefa é buscar esse meio termo, encontrar esse lugar ali no meio, onde nós conseguiremos educar nossos filhos de maneira respeitosa e amorosa.

Esse meio termo existe e tem nome! Chamamos ele de disciplina positiva, mas encontrar esse equilíbrio é um dos nossos maiores desafios, enquanto pais e educadores, é um trabalho diário buscar esse equilíbrio e enxergar as situações cotidianas através das lentes da disciplina positiva. O que torna isso realmente difícil é que nós tendemos a ir sempre de um extremo ao outro: do permissivo diretamente para o autoritarismo. Soa confuso? Se é confuso para nós, adultos, imagina para os nossos filhos!

Por não conseguirmos encontrar esse meio termo, acabamos variando constantemente de um extremo para o outro. E essa situação combinada, além de ter os pontos negativos de cada extremo, também causa uma sensação de instabilidade extrema para a criança, que nunca sabe o que esperar dos pais. A criança, que tenta buscar as ligações entre suas ações e reações de seus pais, nunca consegue chegar a uma conclusão, porque a reação pode ser extremamente permissiva em um dia, mas extremamente punitiva no outro.

Vamos tentar pensar agora em um exemplo, e tente recordar se algo parecido já aconteceu com você, ou com alguém que você conheça: está na hora do jantar e o filho pede para ver desenho na TV para o pai. Ele, então, pensa em como o filho brincou pouco naquele dia e decide responder:

– Claro, meu amor, pode assistir o quanto quiser. Quando você tiver fome, nós iremos jantar.

No dia seguinte, o filho decide pedir a mesma coisa, na hora do jantar. Só que dessa vez, o pai tem uma reação bastante diferente, porque sente várias emoções ao mesmo tempo: ele sente que está sendo abusado pelo filho e que deve impor limites, sente-se cansado também de um dia exaustivo de trabalho e, sem paciência alguma, grita:

– Claro que não! Que menino preguiçoso, fica aí o dia inteiro na frente da TV e não faz nada! Vá brincar de alguma coisa útil, e só depois que você jantar o prato todo!

Horas depois, esse pai sente-se muito mal por ter gritado daquela forma e ter feito o filho chorar, pensando então que talvez, da próxima vez, para compensar a grosseria, ele deixe o filho assistir TV, o quanto quiser.

Você consegue perceber que, como ele não consegue achar esse meio termo da disciplina positiva, ele tende a ir de um extremo ao outro, como forma de compensar o que ele não gosta do último comportamento autoritário (ou permissivo) que teve. E assim o estresse do jantar, nesse exemplo, entra em um ciclo vicioso: o pai não sabe como ter uma noite tranquila com o filho e o filho não sabe o que esperar do pai.

Soa familiar?

A segunda coisa que podemos falar é que a disciplina positiva não é uma educação sem limites. Muitas, mas muitas pessoas criticam a disciplina positiva dizendo que é um absurdo criar filhos sem limites, e que eles serão adultos irresponsáveis ou delinquentes. Dizem que a nossa juventude está perdida porque todos esses jovens foram criados sem limites. Eu concordo que uma criação sem limites tenha um efeito negativo na formação do indivíduo, mas calma, que disciplina positiva ensina, sim, limites. E a grande diferença de toda a disciplina positiva para as outras formas de educar filhos é, na verdade, algo muito simples: nós ensinamos limites aos nossos filhos, mas respeitando a dignidade dos nossos filhos ao longo do caminho. Afinal, eles são tão seres humanos quanto nós.

De tempos em tempos, precisamos entoar o mantra: é possível ensinar limites sem gritar, bater, punir ou humilhar. Porém, à medida que nos empoderamos e conhecemos mais sobre a disciplina positiva, sobre os nossos filhos e sobre nós mesmos, temos cada vez mais certeza de que esse mantra é a mais pura verdade.

Na disciplina positiva, nós buscamos ser firmes e gentis. Enquanto que, na disciplina autoritária, somos firmes em excesso, na disciplina permissiva somos gentis em excesso. E assim como comecei esse post, preciso dizer novamente que o equilíbrio, como sempre, é a resposta para o dilema. Se combinarmos firmeza e gentileza, teremos o ponto ótimo para conviver e educar nossos filhos.

Ser gentil significa ter respeito aos nossos filhos: porque precisamos respeitá-los enquanto indivíduos, respeitar suas necessidades e aceitar suas condições intrínsecas. Complementarmente, ser firme significa ter respeito à situação como um todo e às necessidades das pessoas envolvidas nesta situação, ou seja, passamos a levar em conta não só as necessidades das crianças como as necessidades de outras pessoas que estejam envolvidas em uma situação específica onde tenderemos a ser mais permissivos ou autoritários.