É Importante Ceder

"Qual a importância de ceder em alguns momentos? Como esperamos que nossos filhos sejam flexíveis se nós mesmos nunca flexibilizamos nada para eles? Um texto sobre como ensinar através do modelo."
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Muitas pessoas enxergam suas relações com seus filhos como relações de guerra e poder. Elas pensam que jamais podem ceder a alguma condição, para não passar uma imagem de fraqueza para os filhos. E, então, estes filhos, criaturas vis e controladoras, saberiam que ganharam a batalha e jamais respeitariam seus pais novamente.

Escrevendo dessa maneira, pode até parecer um pouco extremo, mas se você parar para analisar com cuidado, é exatamente assim que funciona para muitos pais e mães.

E mesmo nós, que estamos sempre refletindo sobre a relação com os nossos filhos sem a ótica da hierarquia, de vez em quando, caímos na tentação de achar que não podemos ceder. Mas será que não podemos ceder mesmo?

Para responder a essa pergunta, precisamos tentar nos colocar no lugar dos nossos filhos e imaginar como as coisas funcionam no dia a dia deles. Desde o momento em que eles acordam, nós começamos a solicitar que eles cedam. Podemos não solicitar explicitamente, mas indiretamente pedimos que eles cedam ao longo do dia. Às vezes, até pedimos gentilmente para eles cederem, mas em outros momentos, podemos ser bem agressivos nesse pedido.

— Quero comer pão de queijo de café da manhã, papai.

— Não tem, filho. Come banana que é melhor para você.

— Quero ir de bota para a escola!

— Filho, bota é só para quando chove. Você vai de sapato, tá?

— Pai, quero beber água de côco.

— Agora não, filho. Você vai almoçar primeiro e depois toma sua água de côco.

— Vamos ver um filme, papai?

— Ih, agora não dá. Já está de noite e daqui a pouco vamos dormir.

Vejam só quantas vontades foram negadas ao meu filho em um só dia! Não é de se espantar que, ao longo do dia, nossos filhos vão protestando cada vez mais fortemente. É como se eles estivessem usando toda a capacidade de ceder e atingissem seus limites de flexibilidade que, vamos combinar, são bem grandes.

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Justamente nessas horas que costumam acontecer explosões de frustração, crises de choro, ou qualquer outro comportamento que nós tendemos a rotular simplesmente de manha ou birra. Porque, afinal, essas crianças são muito manhosas e inflexíveis, né?

Mas pensando com cuidado, nossos filhos estão cedendo o tempo inteiro, o dia inteiro, todos os dias. E nós, pais e mães? Nós cedemos?

Quando chega a hora de cedermos, nem pensar! Voltar atrás em uma decisão? Jamais! Como é que o ditador mantém seu respeito se começa a ceder para o povo, se começa a reavaliar suas decisões com base no que o povo está demandando?

Por outro lado, todos sabemos que a melhor maneira de ensinarmos algo aos nossos filhos é através do modelo. É pelo modelo que meus filhos aprendem a pedir por favor, desculpas e obrigado, por exemplo. Isso porque eles têm a oportunidade de ver todos os dias eu e Anne mostrando contextos diferentes em que esse tipo de comportamento é esperado.

Se a Anne pede água para mim, ela costuma pedir “por favor” e, quando entrego a água, ela costuma dizer “obrigada”.  Ou, se eu esbarro sem querer no Dante, peço “desculpas”.

Então, como ensinar meus filhos a cederem ou serem flexíveis? Cedendo e sendo flexível! Por isso que é tão importante ceder eventualmente, para que eles tenham exemplos de que pais e mães também cedem algumas vezes. Obviamente, não estou dizendo aqui que é para liberar geral, ceder em tudo o que eles oferecerem alguma resistência, e sempre voltar nas decisões que tomamos, porque isso causa mais confusão do que qualquer coisa. Não é essa a ideia deste post, nem de longe.

Agora, imagina se você, quase saindo de casa, resolve voltar atrás e deixar seu filho trocar de sapato, mesmo que ele próprio já tenha escolhido o par que calçou. Isso talvez faça com que você se atrase uns 5 ou 10 minutos. Contudo, seu filho estará aprendendo com você que, às vezes, é bom ceder para fazer o bem do outro.

Ou ainda, num belo dia, ele pede para assistirmos um filme à noite, quando, na verdade, deveríamos seguir com a rotina do sono? Se ele não estiver bêbado de sono, por que não? Por que não usar aquela noite para uma sessão especial de cinema em casa? Isso não significa que eu serei obrigado a fazer isso todas as noites, a partir deste dia, mas ajudaria muito a mostrar para o Dante que mesmo as rotinas podem ser flexíveis e alteradas temporariamente.

Só que, para começarmos a ceder, precisamos desfazer essa ideia de que a relação entre pais e filhos é uma relação hierárquica e autoritária. Quando começamos a nos enxergar no mesmo nível, entendendo que a relação é de troca e respeito mútuos, fica muito mais fácil derrubar esse mito absurdo de que nós nunca podemos demonstrar sinais de fraquezas para os nossos filhos. Se tem uma coisa que eu quero que meus filhos saibam é que eu tenho fraquezas! Que eles saibam que eu sou humano e cheio de erros, mas que consigo ceder aqui e acolá.

Afinal, sendo flexível ajudo meus filhos a serem flexíveis.

Créditos da imagem do post: link.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.

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