É Preciso Resistir #‎AgoraÉQueSãoElas

"Somente ao engravidar é que eu despertei para questões das quais eu passei a vida totalmente alienada. Criei coragem e fugi dos serviços de saúde convencionais, que diziam que eu teria que parir num hospital. Não era o que eu queria, e pela primeira vez na vida decidi por mim, fui protagonista."

A semana da campanha #‎AgoraÉQueSãoElas acabou, mas gostaria de manter aqui no blog essa série, para que mulheres ocupem o espaço de fala dos homens, que reconhecem a urgente luta feminista por igualdade de gênero e o protagonismo feminino.

Hoje, uma amiga querida, a Wanessa Campos escreve um texto que é um desabafo mas também uma declaração de resistência, e se você quer ler todos os outros posts da série é só clicar em #‎AgoraÉQueSãoElas! Wanessa, mulher negra, neste mundo já há 32 verões, mãe, orientadora sócio-educativa, estudante de Serviço Social, separada.

Nunca desejei ser mãe, mas acabei decidindo junto ao meu companheiro, na época, casados a 7 anos, que era hora de cumprir com o nosso papel social. Não basta existir, você precisa se encaixar, se adequar, e seguir o curso esperado. Nunca tive o menor jeito com criança, e quando engravidei tive que lidar com sentimentos mistos. Sentimentos que você não pode externar, pois será alvo de julgamentos.

A gravidez não é aquela coisa linda e sublime… Romantizam tudo e quando você se depara com a realidade, é assustador. E falo aqui do meu ponto de vista como mulher negra, trabalhadora, estudante, porque quanto menos privilégios você tem, pior, muito pior será a sua experiência. A mulher negra está colocada ainda numa sub-categoria em relação a mulher branca, e dentre as negras, conforme o seu tom de pele escurece, isso tende a piorar.

Sou negra de “traços finos”, como classificam alguns, minha família durante um bom tempo teve uma situação confortável, pude estudar em colégio particular, adolescência até que foi tranquila, apesar de alguns percalços e da péssima experiência de assédio que vivenciei, a primeira, aos 17 pra 18 anos, cuja memória me veio a tona com a campanha #PrimeiroAssédio, após tantas queridas compartilharem seus relatos.

Não basta sofrer todo tipo de opressão pelo simples fato de ser mulher, você ainda é meio que uma sub-mulher, muitas vezes é aquela que não será assumida em público por causa da sua cor, ou da sua origem, e isso é muito cruel. Eu não passei por isso, mas é impossível ignorar situações que muitas irmãs pretas passam. E é muito séria essa questão da solidão, porque tudo é arquitetado e construído pensando primeiro no homem, e quando abre um espacinho lá simbólico pra mulher, pra não escancarar que é mais conveniente que ela não ocupe aquele lugar, é a mulher modelo padrão comercial de TV a que foi pensada para estar ali.

Somente ao engravidar é que eu despertei para questões das quais eu passei a vida totalmente alienada. Criei coragem e fugi dos serviços de saúde convencionais, que diziam que eu teria que parir num hospital. Não era o que eu queria, e pela primeira vez na vida decidi por mim, fui protagonista. Meu filho nasceu respeitosamente, e passar por essa experiência desencadeou um efeito dominó… Minhas certezas, meus pré-julgamentos, e muitas das minhas crenças foram para o ralo. Foi uma viagem sem volta.

Sair da zona de conforto, assumir e sustentar as minhas escolhas passou a ter um outro peso. Isso deu sentido e começou a moldar a minha vida. Saí de um relacionamento abusivo, assumi meu cabelão crespo, vi que a sociedade reserva pra mim um não-lugar, decidi ir contra isso e arcar com o ônus das minhas escolhas. Foi quando descobri também que amamentar de maneira prolongada, apesar dos olhares desaprovadores, era um ato de resistência; não ceder ao recurso da violência para educar, era resistência; brigar com a creche pelo direito de enviar o leite materno para meu filho, lidar com sexismo e o reforço dos estereótipos de gênero já desde o jardim de infância, e por aí vai…

É muito claro pra mim que o grande desafio que me está posto é o de criar meu filho partindo deste olhar, de levar em consideração que natural e instintivamente, eu vou sim querer proteger a minha cria, mas devo sempre ter em mente que ele já nasceu privilegiado pelo simples fato de ser homem, assim como também é privilegiado por ter um tom de pele mais claro que o meu. E preciso ter o cuidado de mostrar a ele a realidade na qual estamos inseridos, e que ele não deve se valer de seus privilégios para perpetuar essa cultura machista, racista e classista em que a gente vive. Não é papel dele “ajudar” em casa, ele é parte da casa e como todos que nela residem, deve compartilhar todas as tarefas, sem essa de “isso é coisa de menino e isso coisa de menina”. Uma mulher não é menos que ele, fora as clássicas do brinquedo que pode e o que não pode, a roupa ou a cor de roupa que pode que não pode, o “tipo” de gente que você pode ou não pode conviver, ou a mais cruel delas, a de que meninos não choram e não podem expressar seus sentimentos e nem a sua humanidade.

Em tempos onde homens inescrupulosos legislam sobre os nossos corpos, tentam nos tirar o poder de escolha inclusive sobre ser ou não mãe, querem nos obrigar a dar a um filho o sobrenome do estuprador que nos abusou, que querem impor qual o formato aceito de família, é preciso resistir.

A desconstrução é diária. Não pára.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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