E Se Eu Trabalhasse Mais?

"O que aconteceria com um pai que opta por trabalhar mais? O que se ganharia? O que se perderia?"

E se eu trabalhasse mais por mim, pela família, pelos filhos?

Quando eu chegasse, o mais velho já estaria de pijamas. Eu não conseguiria brincar tanto quanto gostaria porque já seria hora de dormir.

O sorriso daquele dia. A careta na hora da janta. O pedido de cosquinhas. Nada disso volta. Como viver sabendo que perdi o sorriso do dia e só vou conhecer o do outro?

Aquela palavra nova? Perdi! Só quando for usar novamente. A música que ele nunca cantou mas sabia a letra de cor e desencantou. A história que inventou inteira.

Não levaria nem buscaria da escola. Não transmitiria a segurança que ele tem em mim desde a adaptação. Não veria as lagartas no chão, nem,as borboletas no céu.

A hora de dormir? Perderia. Dormiu mais cedo. Estava cansado. Chamou pelo papai pra embalar, chorou um pouco, mas ele iria chegar só mais tarde novamente. Perderia de contar história, de brincar de pega pega, escovar os dentinhos apoiado nos meus pés. Não faria pé de gigante com ele.

Não devoraria o sorriso do mais novo, sempre que me vê, como se fosse exatamente aquilo que ele queria. As mãos dele descobrindo meu rosto, na ponta dos dedos.

Não embalaria no colo, descobrindo os jeitos, como descansar, como adormecer. Não cantaria pra você dormir.

Não veria os dois se abraçando. O mais velho beijando o mais novo. O mais novo dando os bracinhos pro mais velho. Não veria os cuidados, o amor entre os dois desde a barriga. Não veria Frederico dizer que ama o Henrique.

Não veria o olhar da Carol, marejado, confirmando que tudo aquilo valeu e vale todas as noites mal dormidas.

Não seria o pai que quero ser.

Eu quero ser pai!

O amor comeu minha noção de tempo e a medida das minhas brincadeiras. A paternidade é um mundo com regras próprias. O tempo da brincadeira também é o tempo do abraço e do perdão pelo grito. É o mesmo tempo que trocaria por algo diferente e que não vale nem de longe o tempo com eles.

Nada disso acontecerá. Minha opção, privilegiada, mas ainda assim opção, é não perder esses segundos.

É contemplá-los, emocionado, enquanto dormem e crescem, sem volta.

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Thiago de Moraes

Thiago de Moraes

Pai do Frederico, companheiro da Carol, historiador e servidor público. Atualmente, grávido. Escreve porque a paternidade transborda.