E Se Você Morrer, Mamãe?

"Eu nunca imaginei que no escuro do abraço, vozinhas sonolentas me perguntariam “E se você morrer também, mamãe?”. Nunca cogitei que, justamente nos momentos mais sagrados, mais íntimos, ou mesmo nos mais triviais, eles me levariam a lidar com emoções, lágrimas, medos, dúvidas e muitas perguntas."

A Camila Goytacaz — escritora e autora do livro Até Breve, José — nos presenteou com uma conversa linda e sensível no episódio #050 do podcast Tricô de Pais sobre perda se lutos, mas ela também decidiu que precisava abordar mais alguns aspectos desse tema, que cairiam muito bem em um texto.

Eu sou muito grato por conhecer a Camila Goytacaz e por tanta sensibilidade e gentileza que habitam tanto na sua fala, como na sua escrita.

Estejam convidados a ler esse texto que é uma preciosidade.


“E se você morrer, mamãe?”

Quando me tornei mãe, idealizei que a infância dos meus filhos seria mágica: desde o parto, passando pela amamentação, estariam cercados de amor, cuidado, respeito, presença, liberdade para brincar e assim teriam tudo, estariam protegidos de tudo. Há dez anos, quando eu me imaginava colocando as crianças para dormir, nosso assunto nessa cena linda seria acerca de reis, fadas, fábulas e suas histórias encantadas. Eu nunca imaginei que no escuro do abraço, vozinhas sonolentas me perguntariam “E se você morrer também, mamãe?”. Nunca cogitei que, justamente nos momentos mais sagrados, mais íntimos, ou mesmo nos mais triviais, eles me levariam a lidar com emoções, lágrimas, medos, dúvidas e muitas perguntas.

“Por que as pessoas morrem? Por que José morreu? Podemos visitá-lo? Ele brincava de que? Você gostaria que ele estivesse aqui? Por que algumas pessoas morrem e outras não? Antes de morrer, ele disse alguma coisa? Ele gostava de feijão? Ele parecia comigo ou com minha irmã? Você tem foto dele? Coitado, nenhuma foto, por que? Quem me ensinou a respirar? Você acha que ele vai voltar? Você ficou brava? Você já desculpou José por ter feito isso? Você já sonhou com ele, como eu sonho? Será que eu vou morrer também? E o papai? E se você morrer também, mamãe?

Essa é uma pequena lista das perguntas que me marcaram recentemente, vindas dos meus filhos para mim, sobre a vida e a morte, mais especificamente, sobre o irmão que morreu com apenas onze dias, há sete anos. Algumas eu respondo, às vezes, apenas choro. Há dias em que, em meio a um sorriso ou um abraço, digo que não sei. Com algumas questões me identifico muito, elas falam de mim. São a minha voz, com um timbre inocente. Algumas me fazem rir, outras me elevam o espírito e quase todas me fazem sentir mais perto deles. Dos três. Meus dois filhos que estão aqui comigo debaixo das cobertas, seguros e saudáveis amparados em minhas asas, e dele, o José, o filho que não está, mas está sempre na cabecinha e no coração das crianças e dos adultos dessa casa.

Quando José morreu ele tinha onze dias. Seu irmão mais velho, Pedro Luis, tinha dois anos e meio. Naquela fase, as informações chegavam para ele de forma lúdicas, traduzidas em termos poéticos e sutis. “Ele foi para o céu”. “Ele é uma estrelinha agora”. “Ele estará sempre conosco”. “Ele vive em uma linda nuvem e olha por nós”. A explicação intelectual não dá conta de atender uma criança de dois, três ou quatro anos sobre muitos assuntos, quem dirá sobre a morte. Com conversas rasas, Pedro Luis, como muitas crianças dessa idade, usava de outros sentidos para compreender o que estava acontecendo: ele atentamente observava e sentia. Assim, ele me via chorando em momentos e dias diferentes, e sabia que era pelo José. Ele não precisava me perguntar, ele apenas sabia. Quando estávamos brincando e de repente eu ficava aérea, meio perdida, ele sabia onde eu tinha ido com meu pensamento. Quando ele se sentava ao meu lado enquanto eu escrevia, em silêncio, ele sabia quem estava conosco. Em nossas brincadeiras, quando eu ria alto, ele gargalhava mais gostoso, pois ele entendia o valor daquele riso. Ele apenas sabia.

O que ele não entendia, ou o que apenas desconfiava mas precisava confirmar, ele me perguntava. E eu respondia com a franqueza total do coração. Assim, tivemos muitas conversas sobre a vida e a morte, muitas delas enquanto estávamos vivendo, cozinhando, tomando banho ou guardando brinquedos. As crianças não se preparam para essas conversas, não temem esse momento, não têm filtros ou neuras. Elas estão totalmente abertas para falar e questionar, usando de boas doses de curiosidade e aceitação. Sim, elas têm uma aceitação, uma forma quase natural de receber notícias sobre a morte, ou de entender que alguém não está mais vivo (e tudo bem), de mudar do choro para o riso rapidamente, de continuar brincando e vivendo APESAR da morte de alguém, que nós não temos. Elas estão no agora. No presente. Por mais curioso ou misterioso que pareça, as crianças lidam mais naturalmente com a morte do que nós, adultos.

Conforme meu filho foi crescendo, ele foi também ficando à vontade para tratar desse assunto com naturalidade em outros ambientes. Esse hábito já nos trouxe situações ora engraçadas, ora constrangedoras, ora tristes. Imagine uma simpática vizinha que nos encontra na rua. Eu grávida, ele de mãos dadas comigo. Ele tinha menos de quatro anos. Ela pergunta: você vai ter um irmãozinho? E ele responde: “eu vou ter uma irmã. Irmão eu já tenho, ele chama José. Ele morreu. Ele vive no céu”. A pessoa ficou muda, parecia desconcertada. Eu me contive para não rir.

O que é realmente importante pontuar quando falamos de acolher, cuidar e dialogar com uma criança que faz parte de uma família que vive uma perda, um luto, é garantir a entrega para essa criança de três mensagens essenciais: a primeira é que ela não tem culpa. Não é nada com ela. Mamãe não está chorando porque o seu castelo de blocos caiu e sim porque mamãe está muito triste. E isso não tem nada a ver com você, filho. A segunda é que essas coisas acontecem. Simplesmente acontecem. E então, depois de falar de responsabilidade e de fatalidade, falemos de amor! É preciso dizer: nós continuamos te amando do mesmo jeito, e somos felizes. É surpreendente – e quase revolucionário –pensar que podemos ser tristes e felizes ao mesmo tempo, não é? Quando vivemos uma perda e temos uma criança pequena, essa possibilidade se materializa no meio da nossa sala, entre brinquedos e uvas passas. Enquanto amamos e celebramos a criança que está ali, que nos preenche, choramos pela que não está. Tristes e felizes, ao mesmo tempo; preenchidos e saudosos, no mesmo coração.

A criança nos convida ao agora: ela quer brincar, conhecer, explorar, descobrir. Ela compreende a tristeza, no entanto, não deixa muito espaço para ficarmos no passado, na dor, no sofrimento. Ela nos chama à vida, a estar, a bagunçar. A sair do casulo. Foi assim comigo, vivi meu processo de luto indo a piqueniques, festinhas de aniversário e bagunças barulhentas e cheias de alegria.

A criança cresce e com ela, as perguntas, que a cada dia ficam mais elaboradas. A “estrelinha” já não basta. Aos seis, sete anos, ele quer saber onde exatamente é essa tal estrela, o que tem lá, como chega, quantos anos luz leva, quem mais está lá, como faz para entrar e sair, como sabemos disso, e por aí vai.

Assim como o adulto, também a criança costuma se aliar a outras crianças para ter companhia na elaboração do luto. É ótimo que tenham alguém em que confiam para isso, alguém que também esteja no mundo da imaginação. Pedro Luis encontrou em seu melhor amigo o primeiro cúmplice para falar sobre o irmão que morreu. Em vozes cochichadas, eles conversavam sobre José e sobre bebês que se vão. Somavam o que sabiam, o que ouviram dos adultos e o que ninguém falou, mas eles pescaram, e assim construíram teorias. Depois, a parceria veio com sua própria irmã, Joana. Quando ela chegou aos três anos, José começou a aparecer nas brincadeiras deles. Deram o nome de Josezinho a um boneco de pano que cuidam com tanto carinho que até se revezam para dormir com ele! Há no guarda roupa deles alguns itens tratados como preciosos, pois seriam do José, sem falar o quanto brincam com os amados tsurus. Nas histórias que inventam, o José chega como um personagem que mora com eles, que os diverte, mas que em alguns momentos viaja para muito longe. Nos desenhos de giz de cera, ele aparece com a família, flutuando de forma simpática, com um corpo ora oval, ora de criança, ora de bichinho. Para meus filhos, José faz parte da família.

Eles amam saber que tenho um livro publicado com a história do José. Me assistiram na Internet ao vivo dando palestra sobre luto e vibraram muito nesse momento. Hoje sei que quando falo ou escrevo, não é só a minha, é a nossa história que estou contando. Sou a nossa voz.

Pedro Luis está com nove anos. Joana, com seis. Os amiguinhos sabem quem é José, falam dele numa boa. Joana também faz muitas perguntas sobre o irmão e sobre como foi para mim recebê-la após essa perda. Ela se sente importante quando eu conto, sempre do mesmo jeito, que ela chegou em um lindo mergulho, iluminando tudo, como um Sol.

A maneira leve, doce e lúdica como as crianças se relacionam com esse irmão que morreu me alegra. Me dá uma paz, a sensação de que aqui podemos ser autênticos. É como se a morte do meu filho tivesse me convidado a fazer uma escolha: entre me tornar uma pessoa que está, talvez sem intenção, com uma áurea de mistério, tabu e sofrimento no ar, deixando adultos e crianças ao seu redor com sentimentos de dúvida ou insegurança. E a segunda rota era a alternativa, a que exigia mais coragem e abertura, para a qual não tinha mapa. Escolhi essa e por isso ignorei todos os conselhos clássicos, como “não fale disso na frente dele” “se você sofrer, eles sofrem também” ou “não deixe seus filhos notarem que está triste”. Seguindo nosso coração, acabamos por apresentar aos nossos filhos uma mãe e pai totalmente diferentes do que esperávamos. Eles agora conhecem um pai que chora, uma mãe que sente, que sempre fala a verdade, que tem saudades de seu outro filhinho, que vê beleza em tudo, que é feliz e que gargalha também.

E assim, com toda a verdade que mora em mim, com todo o amor e toda a dor, com fragilidade e força, em minha ambiguidade, tal como a vida e a morte, me deito com eles, aberta para o que vier, para acolher, ouvir e responder, até que cessem as perguntas. Até que suavemente chegue o silêncio pacífico e quentinho todas as noites, trazendo a certeza de que estamos vivos, estamos juntos e estamos felizes, e isso é muito mais mágico e belo do que qualquer conto de fadas.

 

Camila Goytacaz

Mãe do Pedro Luis, José e Joana.

Escritora e autora do livro Até Breve, José.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.