Falando com Meninos do Jeito que Falamos com Meninas

"Estudos mostram como a maneira que falamos com os meninos, diferentemente de como falamos com as meninas, contribui para a construção da masculinidade tão problemática que vemos hoje em dia."

Sendo pai de dois filhos meninos, cada vez mais eu me preocupo com a responsabilidade que é criar homens na nossa sociedade hoje em dia. Como fazer para que eles não precisem desconstruir tanto quanto eu tive que desconstruir quando me tornei adulto? Como mostrar a eles sobre respeito, emoções, consentimento, e tantas outras coisas que ninguém acha que meninos deveriam pensar sobre?

Certo dia, recebi a indicação desse texto maravilhoso, que reúne alguns estudos mostrando como nós podemos influenciar nesses processos e, por isso, acho muito importante que todos leiam e reflitam sobre isso. Mesmo que você não tenha filhos meninos, vale muito a leitura.

Esse texto foi escrito por Andrew Reiner para o site do The New York Times e eu contei com a ajuda da Ana Balderramas para a tradução.

Falando com Meninos do Jeito que Falamos com Meninas

(link para o texto original)

Num café da manhã de dia dos pais, meu filho de 5 anos e seus colegas de classe cantaram uma música sobre pais, cantarolando sobre como “meu pai que é grande e forte” e “conserta coisas com seu martelo” e, além disso tudo “é muito legal”.

Bem, não há nada de errado com a maioria dessas qualidades em si. Mas quando essas letras são transmitidas como a trilha sonora de definição da identidade masculina, nós limitamos o entendimento das crianças, não só sobre o que significa ser um pai, mas o que significa ser um homem – e um menino também.

Quando pais são retratados em livros infantis, eles estão lutando por risadas, levando seus filhos em aventuras ou modelando força física ou independência estoica. Existem raras exceções nos livros infantis em que um pai demonstra de forma bem simplista — sem gestos simbólicos — seu amor pelo seu filho. Assim como estudos femininos examinaram largamente as maneiras como a linguagem de gênero mina mulheres e meninas, um crescente corpo de pesquisa mostra que mensagens estereotipadas são igualmente prejudiciais aos meninos.

Um estudo na Pediatrics de 2014 descobriu que mães interagem verbalmente mais frequentemente com filhas meninas do que com filhos meninos. Em um outro estudo, um time de pesquisadores britânicos descobriu que mães espanholas são mais propensas a usar palavras e assuntos emocionais quando falam com suas filhas de 4 anos de idade do que com filhos meninos da mesma idade. Curiosamente, o mesmo estudo revelou que as filhas meninas são mais propensas a falar sobre suas emoções com seus pais quando falavam sobre experiências passadas. E durante essas conversas sobre memórias, os pais usaram mais palavras carregadas de emoção com suas filhas de 4 anos do que com seus filhos de 4 anos.

Ainda mais, um estudo de 2017 conduzido por pesquisadores da Universidade Emory descobriu que, além de outras coisas, pais também sorriem e cantam mais para filhas e utilizam uma linguagem mais “analítica” demonstrando muito mais sua tristeza do que fazem com seus filhos. As palavras que eles usam com os filhos meninos são muito mais focadas em conquistas – como “vencer” e “orgulhoso”. Os pesquisadores acreditam que essas diferenças na linguagem dos pais contribui para “as descobertas consistentes de que as meninas superam os meninos nos resultados escolares.”

Após algumas visitas à emergência pediátrica por lesões causadas por acidentes, outro estudo descobriu que pais de ambos os gêneros falam de maneira diferente para filhos e filhas. Eles são quatro vezes mais propensos a dizer para meninas para serem mais cuidadosas ao fazer a mesma atividade. O mesmo estudo cita uma pesquisa anterior que descobriu que pais de ambos os gêneros usavam “direções gerais” quando ensinavam seus filhos de 2 a 4 anos a escalar um poste no parquinho, mas ofereciam extensas “explicações” às filhas.

Mesmo as habilidades de alfabetização dos meninos parecem ser afetadas pelo modo taciturno que esperamos que eles falem. No livro “Manhood in America” (Masculinidade na América – tradução livre), Michael Kimmel, o pesquisador de estudos masculinos e autor, sustenta que “o currículo tradicional de artes liberais é visto como afeminador pelos meninos.” Em nenhum lugar isso é mais verdadeiro do que nas aulas de inglês onde, como testemunhei depois de mais de 20 anos de ensino, meninos e jovens policiam uns aos outros quando outros caras exibem um interesse excessivo em literatura ou trabalhos de escrita criativa. Normalmente, a leitura e a escrita de não-ficção passam, pois representam pouca ameaça para os meninos. Mas ficção literária e, especialmente poesia, são meios a temer. Por quê? Eles são a linguagem de exposição emocional, supõem “fraqueza” feminina — a coisa que os ensinamos a evitar, na melhor das hipóteses, e suprimir, na pior delas.

Mulheres geralmente dizem querer que os homens sejam emocionalmente transparentes com elas. Mas como o expert em vulnerabilidade e vergonha Brené Brown revela em seu livro, “A Coragem de Ser Imperfeito”, muitas se tornam desconfortáveis ou até recuam se os homens demonstram isso realmente.

Na verdade, um estudo canadense descobriu que as meninas no final da vida escolar consideram os homens mais atraentes se estes usarem palavras e frases menores e falarem menos. Essa descoberta parece confirmar a pesquisa da Dra. Brown, sugerindo que quanto menos os homens se arriscarem emocionalmente de maneira verbal, mais atraente eles parecem.

Contudo, aparentemente essas mensagens devastadoras correm na contra-mão do que seria a programação do homem: os meninos nascem mais emocionalmente sensíveis do que as garotas.

Por três décadas, a pesquisa de Edward Tronick explorou a interação entre as crianças e suas mães. Ele e seus colegas do departamento de medicina para recém nascidos da Faculdade de Harvard descobriram que mães inconscientemente interagiam com seus filhos meninos com mais atenção e vigilância do que faziam com suas filhas meninas, pois entendiam que os filhos precisavam de mais apoio para controlar suas emoções. Algumas de suas pesquisas descobriram que a reatividade emocional dos meninos era eventualmente “restringida ou talvez mais propícia a mudanças do que a reatividade das meninas”, como o Dr. Tronick notou através de um e-mail.

“Então a ‘masculinização’ dos meninos pequenos começa cedo com suas interações típicas”, segundo o Dr. Tronick “e muito antes da linguagem ter seu papel.”

A bióloga humana Judy Chu conduziu um estudo por 2 anos com meninos de 4 a 5 anos e descobriu que eles eram tão inteligentes para ler as emoções de outras pessoas e cultivar amizades próximas e significativas tanto quanto as meninas. Em seu livro “When Boys Become Boys” (Quando Garotos se Tornam Garotos – tradução livre) ela sustenta que, no momento em que os meninos chegavam ao primeiro grau, às vezes antes disso, trocavam sua empatia natural por um estoicismo erudito aprendido e uma maior distância emocional dos amigos. Curiosamente, eles adotavam esse novo comportamento em público, exclusivamente, mas não em casa ou quando seus pais estavam por perto.

Por que limitamos o vocabulário emocional dos meninos?

Nós dizemos para nós mesmos que estamos preparando os nossos filhos para lutar (literal e figurativamente), para competir em um mundo e economia brutais e insensíveis. Quanto mais cedo pudermos prepará-los para esse futuro distópico, melhores eles serão. Mas a psiquiatra de Harvard, Susan David, insiste que o oposto é verdade: “A pesquisa mostra que pessoas que reprimem emoções têm menor nível de resiliência e saúde emocional.”

Como podemos mudar isso? Podemos começar, afirma o Dr. David, ao deixarmos os meninos experimentarem suas emoções, todas elas, sem julgamentos — ou oferecendo a eles soluções. Isso significa ajudá-los a entender as lições cruciais que “emoções não são boas ou ruins” e que “suas emoções não são maiores do que eles. Emoções não são algo a se temer.”

Diga aos meninos: “Eu posso ver que você está chateado” ou pergunte “O que você está sentindo?” ou “O que está acontecendo com você no momento?” Não precisa ter um grande plano além disso, ela diz. “Apenas se mostre disponível para eles. Faça com que falem. Mostre que você quer ouvir o que eles estão dizendo.”

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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