Há um tempo atrás, uma enquete foi ao ar no Portal da Câmara para avaliar a posição dos brasileiros sobre o conceito de família, que está sendo proposto no Projeto de Lei 6583/13, do deputado Anderson Ferreira (PR-PE). O objetivo é criar o Estatuto da Família e, neste Projeto de Lei, o deputado define a família como o núcleo formado a partir da união entre o homem e a mulher.

Esta enquete ainda está aberta para votação e, na época em que ela foi ao ar, houve bastante comoção. Muitas pessoas compartilharam a enquete em redes sociais, muitas pessoas participaram. E, como resultado, esta enquete é a mais votada de todos os tempos do Portal da Câmara. Até o momento ela tem quase 550 mil votos, enquanto que a segunda mais votada tem apenas 230 mil votos.

Contudo, o resultado parcial está muito apertado. De todos que votaram, 50,63% não concordam com a definição proposta de família, 48,98% concordam com a definição e 0,39% não têm opinião formada. Infelizmente, muitas pessoas ainda pensam que família é núcleo formado a partir da união entre o homem e a mulher.

Homem e mulher. Família.

Vamos analisar essa definição matematicamente:

papai + mamãe + filho = família

Será que esta é a única maneira de se compor uma família? Será que qualquer outra resposta está errada? E estes arranjos aqui, estariam todos errados?

papai + papai + filho = família
mamãe + mamãe + filho = família
mamãe + vovó + filho = família
titia + sobrinho = família
papai + filho = família
mamãe + filho = família

Olhando mais a fundo percebe-se que, no Projeto de Lei, também é considera família aquela formada por qualquer dos pais e seus descendentes, como uma viúva e seus filhos, um divorciado com seus filhos ou uma mãe solteira com seus dependentes. Então, revendo as contas acima, o que continuaria errado?

papai + papai + filho = família
mamãe + mamãe + filho = família

Hmmm, então o problema real está na opção sexual dos cuidadores, e não na estrutura familiar, propriamente dita? É isso mesmo?

Na verdade, este é um dos exemplos em que a homofobia aparece deturpando a realidade e prejudicando não só uma parte da população, mas toda ela. Quando a realidade não é representada, precisamos parar imediatamente e refletir. Se a lei só beneficiar a suposta família formada a partir de um homem e uma mulher, ou uma variação bastante heterossexual desta, quantas mães e pais não ficarão desamparados?

E os dois homens que desejam realizar o sonho de ter um filho e constituir uma família? Já existem decisões judiciais aprovando a adoção de crianças por casais homossexuais. Esta família estaria fadada ao fracasso e, por isso, não digna de receber amparo legal? Essa criança se transformaria, inevitavelmente, em um indivíduo depravado e imoral? Não, porque os pais desta criança não são depravados. Não, porque essa criança receberia tanto afeto e cuidado quanto uma criança criada por pais heterossexuais comprometidos com uma criação respeitosa.

O ponto principal desta discussão está no questionamento: são válidas as famílias formadas por casais homossexuais? Claro que sim.

Mas o problema, é que na visão míope e homófoba, essa família não pode funcionar. Não deve. Uma criança, a partir desta visão, não pode crescer emocionalmente saudável. Pouco importa quanto afeto, amor, carinho, cuidado e respeito essa criança vai receber dos pais, ou das mães. Para quem é míope, essa criança não será emocionalmente saudável. Será?

A saúde emocional e psicológica de uma criança depende do tipo de relação que ela tem com seus cuidadores. Quantos pais heterossexuais não abusam moral e fisicamente seus filhos? Quantas crianças são deixadas a chorar sozinhas, quantas crianças são agredidas verbal e fisicamente todos os dias, por seus tão heterossexuais pais? A orientação sexual dos pais não tem relação alguma ao tipo de criação que o filho receberá.

O nosso papel, enquanto seres humanos conscientes é o de oferecer suporte a toda e qualquer formação familiar. O ser humano, ao nascer, possui uma necessidade de criar vínculos com o seu cuidador, e essa necessidade é uma das características que garantiram a nossa sobrevivência enquanto espécie até hoje. O bebê busca, em seu cuidador principal, o vínculo que irá garantir a sua sobrevivência. Na maioria das vezes, o bebê busca na mãe esse vínculo por razões óbvias (parto, amamentação, etc.), mas isso não significa que outro cuidador não possa estabelecer um vínculo, principalmente porque um dos fatores que estabelecem o apego seguro é o cuidado consistente; a capacidade do cuidador de responder sensível e consistentemente às necessidades do bebê.

Isso, do ponto de vista da natureza humana, é ótimo porque é um mecanismo que garante que outro cuidador amoroso e disponível possa assumir a responsabilidade de criar um bebê. É a própria natureza humana dizendo: “gente, na ausência da mãe, o pequeno bebê não precisa e nem deve ficar largado à própria sorte”. O bebê consegue, sim, estabelecer um apego saudável em outras configurações familiares, desde que cuidado com carinho e respeito.

Se você leu até aqui e concorda com o post, aproveita e dá uma passadinha aqui na enquete para votar! Vamos mostrar às pessoas que família pode ser muito mais.