Fazer as Pazes com o Passado é Necessário

"Ter filhos nos dá oportunidade de fazer as pazes com o passado, e é fundamental aproveitar essa chance para ressignificar relações, mesmo que seja doloroso."

Eu gostaria de iniciar esse post agradecendo de todo coração por todas as mensagens de apoio e carinho que vocês me enviaram, quando eu escrevi O Que Aprendi Nesse Terceiro Ano de Paternidade. Só para contextualizar, nesse texto eu contei sobre a minha vontade de ter uma conversa aberta e sincera com o meu irmão, porque já estava na hora de fazer as pazes com o passado. E muitas pessoas desejaram boa sorte, paciência, e um monte de coisas bacanas, esperando que a conversa fosse boa, no final das contas. Também tinham as pessoas que, assim como eu, estavam super ansiosas para que a nossa conversa acontecesse logo e, bem, ela aconteceu.

Eu tinha ideia de que a conversa seria rápida e duraria 1 hora, talvez. Ficamos 3 horas conversando, mas não porque foi incrível e tudo foi resolvido. Também não quero dizer que foi horrível, mas foi o tempo necessário para que dois irmãos que não se falavam ter algum nível de conversa profunda.

Ficamos metade do tempo conversando sobre assuntos gerais até a conversa realmente engrenar. Falamos sobre o que tem acontecido hoje em dia em nossas vidas, e também sobre nossas opiniões no que diz respeito a criação de filhos e escolarização, por exemplo. A impressão que eu tinha era que eu estava em uma partida de jogo de xadrez, sem querer jogar xadrez. A cada comentário ou opinião que eu dava, sentia que minha resposta estava sendo muito bem analisada, para que o próximo movimento fosse bem calculado.

Eu realmente entendo essa posição defensiva dele, afinal de contas, eu sabia por que eu estava lá: queria fazer as pazes com o passado. Ele, por outro lado, não sabia por que eu estava lá, por que eu queria conversar sozinho com ele e, principalmente, se eu realmente estava lá para conversar sobre tudo isso, sem segundas intenções. Acho que no lugar dele, eu também estaria falando protegido por escudos, armaduras e muralhas.

Então, senti que esse tempo seria necessário para ele saber que a minha vontade genuína era de trocar, conversar, mas não de julgar, analisar ou rejeitar. E como isso era algo inédito nas nossas vidas, ficava realmente difícil para ele acreditar que eu estava ali para conversar sobre os nossos sentimentos.

— Sei que você está na defensiva, e sei que você tem motivos de sobra para isso. Mas queria que você soubesse que eu não tenho nenhum objetivo específico para essa conversa, eu queria conversar com você para que saber o que você sentiu e sente em relação em mim. Quero saber o que existe aí dentro, e gostaria que você conhecesse o que existe aqui dentro.

E, assim, ele resolveu me dar um voto de confiança e disse:

— Tá bem, você quer saber a última vez que você me fez chorar?

Disse que sim, claro que eu queria saber. Ele começou a contar um episódio, que aconteceu há 5 anos, quando ele me pediu ajuda para um trabalho de faculdade e, além de não ajudar em nada, ainda fui extremamente grosso e ofensivo. Vê-lo contar aquilo com a riqueza de detalhes que ele contou, com os olhos marejados me fez me sentir péssimo e chocado.

Parte do choque foi porque eu esperava que ele fosse contar um episódio antigo, mas não, era um episódio relativamente recente. Era um Thiago que não era pai ainda, que não havia mudado o tanto que mudou com a paternidade, mas que ainda estava tão perto, tão fresco na memória magoada do meu irmão.

— Cara, eu lamento muito, muito mesmo por isso. Ver como você lembra dos mínimos detalhes me faz perceber o quanto foi dolorido para você, e gostaria que você soubesse que, hoje, eu me entristeço muito por saber que você passou por isso. Isso é o tipo de coisa que você pode ter certeza que nunca mais vai acontecer.

Perguntei a ele o que ele sentiu naquela época em relação a esse episódio, e ele disse que, em geral, sentiu-se humilhado, desvalorizado e triste. Assenti e disse que me entristecia muito saber que ele se sentiu daquela maneira, e gostaria que ele não se sentisse mais assim, principalmente a partir de ações minhas.

Continuamos trocando, falando sobre as dores do passado, e ele foi entendendo que meu objetivo era justamente conversar sobre essas dores do passado. Eu queria muito saber sobre como era para ele ser meu irmão, sobre o que ele sentia naquela época, então ele me contou de outros episódios mais antigos, e eu fui conseguindo conhecer o que estava vivo dentro dele.

Com isso, soube que, na percepção dele, eu era um irmão que fazia de tudo para provocá-lo, para irritá-lo. Ele me contou que, em relação a mim, ele se sentia muito desvalorizado. Enquanto isso, ia tentando administrar a minha própria surpresa de conhecer o meu irmão profundamente, ao mesmo tempo em que tentava empatizar com os sentimentos dele, e tentando também não sucumbir à culpa, ao lembrar de alguém que eu era — alguém de quem não tenho o menor orgulho.

Conversamos por mais um bom tempo até que eu disse:

— Estou muito feliz em conhecer você melhor e, ainda mais, saber o que você sentia enquanto moramos juntos. Era bem isso que eu queria: saber o que você sente e que você soubesse o que eu sinto. Mas ainda não falei sobre mim, você gostaria de saber?

Ele concordou e disse que sim, gostaria de me ouvir.

— Sabe, se eu tivesse que resumir a um sentimento tudo o que eu senti esses anos todos, seria sufocamento. Eu me senti sufocado. Viver ali me causava um sufocamento enlouquecedor.

Eu fiquei muito surpreso com o que eu mesmo disse. Eu não havia me preparado para a conversa, nem pensado sobre o que eu falaria para ele, muito menos tentado nomear os sentimentos que eu sentia. Tudo aquilo veio de dentro, rápido e intenso, como um grito desesperado de todos aqueles anos de convivência. Ele perguntou:

— Mas quem sufocava você? Eu?

— Não, eu estou falando sobre o que eu sentia, não acusando ninguém.

— A nossa mãe sufocava você então?

— Percebe, não se trata sobre você ou sobre a minha mãe. Eu estou falando sobre o meu sentimento, é sobre mim. Eu me sentia sufocado, mas isso não é a mesma coisa que dizer que você me sufocava, ou que a nossa mãe me sufocava, entende?

Ele entendeu, e eu continuei contando como tudo o que eu queria era ser eu mesmo, mas que não sentia essa abertura, porque precisávamos ser iguais em tudo, desde as coisas que ganhávamos até as nossas “características positivas”, como rótulo de “inteligente”. Eu me sentia sufocado porque não tinha espaço para buscar quem eu era, ou a minha autonomia e, consequentemente, ficava frustrado e com raiva de tudo.

Fiz questão de reforçar que isso não significava que ele ou qualquer outra pessoa faziam o que fizeram com o intuito de me sufocar, mas eu me sentia sufocado porque tinha uma necessidade muito grande de conseguir ter autonomia naquela época. E como eu não me conhecia bem a ponto de identificar essas coisas, e nem tinha abertura para falar sobre os meus sentimentos, esse sufocamento ficou ainda mais forte.

Depois de ouvir tudo o que eu disse, perguntei a ele o que ele sentiu ao saber dos meus sentimentos. Ele me respondeu que sentiu-se surpreso, mas uma surpresa rápida, porque logo pensou em como era para mim e tudo o que ele me ouviu dizer fez sentido.

Fiquei muito feliz, porque senti exatamente a mesma coisa: eu fiquei surpreso ao conhecer algo que nunca imaginei sobre o meu próprio irmão, mas rapidamente pude me colocar no lugar dele e entender a situação dele. Contudo, só agora, pensando e escrevendo esse relato, pude perceber que isso aconteceu porque nós conseguimos ter uma conversa com uma troca empática genuína. Tivemos um nível de conexão ali, um com o outro, que nunca tivemos em nossas vidas.

Nossa conversa terminou logo depois e, claro, não resolvemos todos os nossos problemas. Não viramos melhores amigos, e sei que nunca seremos melhores amigos. Porém, conseguimos abrir um canal de diálogo muito profundo, e isso nos transformou. Acredito, com muita força, que estamos caminhando para uma relação mais respeitosa, empática e amigável.

Fazer as pazes com o passado é necessário mesmo.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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