Grávida no dentista

"Spoiler: grávida pode (e deve) ir ao dentista, além de realizar um pré-natal odontológico, ao longo dos nove meses. A saúde da mamãe e do bebê agradece!"
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Existe uma grande lenda urbana ao redor dos dentes da gestante, onde cada filho é um dente perdido e que não se pode realizar nenhum procedimento no dentista ao longo dos 9 meses.

De fato, é uma lenda pois a gestante precisa acompanhar a saúde da cavidade oral pois as implicações variam entre dor, perda do dente e até afetar o bebê! Vou explicar como isso pode ocorrer e como podemos evitar:

PARTE 1 – as causas.

Os hormônios femininos têm um importante papel na alteração da cavidade bucal durante a gestação. O aumento dos níveis de progesterona e estrógeno deixam os tecidos bucais mais suscetíveis a inflamação e influenciam na composição da microbiota da placa dental.

As mudanças que ocorrem na saúde oral da gestante em função da flutuação hormonal são resumidamente 4:

  1. Os sintomas clássicos de náusea e vômitos no início da gestação podem ocasionar uma condição bucal chamada perimólise. Quando a mulher vomita frequentemente acaba liberando substâncias químicas que dissolvem a estrutura mineralizada do dente, o esmalte, causando uma erosão, que tem como sintoma uma sensibilidade e perda da estrutura dental.
  2. A resposta imunológica da gestante fica um pouco mais lenta frente as agressões bacterianas, em função disso a inflamação gengival – gengivite – tem uma resposta exacerbada. É tão comum ao longo da gestação que recebe o nome de gengivite gravídica e se caracteriza por sangramento, vermelhidão e inchaço gengival.
  3. Existe evidência científica, embora com algumas ressalvas, na relação entre aumento de bactérias bucais e nascimento de bebês prematuros e com baixo peso. A relação dessa bacteremia também envolve o aborto. Um estudo de 1996, de Offenbaher et al. relata que as gestantes com doença periodontal (na gengiva e osso) tem sete vezes mais chance de desenvolver parto prematuro.
  4. O último fator relevante que é alterado na gestação é a respiração. Com o aumento de peso e a dificuldade para dormir a respiração acaba sendo bucal, ou seja, a grávida respira mais pela boca que pelo nariz, o que ocasiona uma diminuição na salivação, deixando a boca mais seca e propensa a mais lesão de cárie.

Levando em consideração que temos alterações físicas na cavidade bucal, a gestante deve realizar uma higiene MUITO MAIS eficiente do que ela está acostumada, assim dificilmente estará sujeita as complicações odontológicas.

PARTE 2 – do tratamento.

Num cenário ideal, a mulher tentante deve fazer um check up no dentista e resolver todas as situações que por ventura podem piorar durante a gestação, ou até mesmo procedimentos estéticos como clareamento.

Caso isso não aconteça, assim que descobrir a gestação, é importante fazer o pré-natal odontológico, disponível inclusive no SUS. Consultas trimestrais, dependendo a situação até mensais, são capazes de prevenir complicações e resolver alguma patologia no início.

Durante o pré-natal, a mamãe também recebe orientações odontológicas para cuidar dos dentinhos do bebê, antes mesmo do primeiro dente nascer.

O cirurgião-dentista é capaz de atender a gestante em consultas de urgência: sangramento de gengiva, tratamento de canal, extração de dente se considerar necessário, restaurações quebradas com alguma complicação associada. Alguns procedimentos não são indicados para a gestante, basicamente todos aqueles que podem esperar a gestação terminar, tais como clareamento, colocação de aparelho ortodôntico, harmonização facial, etc…

A gestante, em condições normais de saúde, pode ser submetida a anestesia.

Estudos comprovam que a inflamação local, os mediadores químicos da dor e até mesmo o estado de ansiedade e medo atrapalham o desenvolvimento fetal.

Outro mito que envolve o atendimento é sobre o raio-x, e a radiação que envolve o procedimento. Grávida pode e deve, se indicado, realizar uma radiografia no dentista. Utilizamos técnicas com baixa emissão de radiação, com tubo focado na direção do dente e com colete protetor de chumbo. Existe uma radiação secundária, que se espalha quando apertamos o sensor, que equivale a 1/50000 da dose original, que já é baixíssima (muito menor que atravessar a rua no sol do meio dia ou comer uma banana que tem radiação pelo potássio 40).

Tudo é dose-dependente!

Não podemos esquecer que após o nascimento, a mãe acaba esquecendo de ter o autocuidado, em função das demandas do bebê, demorando para retornar ao dentista e consequentemente prejudicando sua saúde bucal.

Lendas urbanas a parte, em maternidade vale a máxima da máscara de oxigênio de avião: primeiro cuide de você, aí sim tem capacidade de cuidar do outro, quando você estiver segura (e com todos os dentes na boca).

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Karoene Denardi Vanzela

Karoene Denardi Vanzela

Cirurgiã-dentista, com ênfase em Odontopediatria e atendimento para pacientes com necessidades especiais. Especialista e mestranda em tratamento de canal. Mãe da Isadora, da Gabriela e aprendiz em conciliar a teoria com a prática! Instagram: @karoene
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