Eu tenho lido muitos livros ao longo do último ano. Na verdade, eu leio bastante, mas neste último ano, tenho focado muito em livros que falem mais em criação de filhos, bebês, apego, e todos esses assuntos deliciosos para um pai entusiasmado. Porém, o tempo que eu reservei para leitura é bastante reduzido: nos translados casa-trabalho e trabalho-casa. Isso porque, se estou em casa, eu prefiro ficar com a Anne e com o Dante, e se o Dante está dormindo, prefiro mil vezes fazer alguma coisa com a Anne, algo só nosso.

Não sei por que eu nunca pensei nisso antes, mas acho que vai ser uma boa ideia se eu começar também a comentar e recomendar os livros que venho lendo. Vou tentar fazer disso um hábito, para abrir um novo espaço aqui no blog falando de leituras boas. Afinal, todos nós sempre estamos sempre buscando por coisas boas para ler, não?

De todo modo, o livro que estou lendo no momento chama-se Hold On to Your Kids: Why Parents Need to Matter More Than Peers de Gordon Neufeld e Gabor Maté. Apesar de existir uma tradução do livro com o nome Pais Ocupados, Filhos Distantes, pela editora Melhoramentos, comprei a versão em inglês mesmo, então não posso comentar muito sobre a tradução em si.

O psicólogo Dr. Neufeld é o autor principal do livro, e tem muita experiência atendendo famílias que costumavam levar seus filhos agressivos, desrespeitosos, incontroláveis para seu consultório. O livro é tão denso e tão completo que seria uma ingenuidade minha fazer uma análise completa do livro, então vou tentar apenas me manter focado nos pontos que eu entendo serem principais.

Na nossa cultura, vem sendo cada vez mais fácil diagnosticar nossos filhos. Nós damos nomes, classificamos, diagnosticamos os problemas comportamentais dos nossos filhos. É quase como uma busca desesperada dos pais para encontrar os problemas dos seus filhos, e quando se “descobre” o problema, há até um certo alívio. Tira-se a responsabilidade dos pais, afinal, a culpa é dos nossos filhos. Sempre é.

Eu já escrevi sobre o problema com a responsabilidade aqui, mas o problema em assumir responsabilidades não está só na criação de filhos, está em todos os lugares. Vai desde não assumir responsabilidade sobre os nossos sentimentos até a terceirização da saúde, onde mulheres se colocam à disposição de obstetras antiéticos e pais colocam toda a responsabilidade da saúde (e até da criação) de seus filhos no pediatra.

Mas é difícil mesmo fazer isso. Assumir responsabilidade é assumir risco. E assumir riscos é estar vulnerável. Ninguém quer isso nos dias de hoje. E por isso que é mais fácil diagnosticar logo uma criança com algum transtorno do que investigar mais a fundo. Como o Gordon Neufeld escreve, os problemas estão além de uma mera questão comportamental, pois é necessário olhar as interações e vínculos que surgem nas famílias.

O livro todo se constrói em volta de uma ideia central: todos nós temos uma necessidade por vínculo, ou apego. Para bebês e crianças, então, o apego é questão de sobrevivência. É através deste vínculo que os bebês e crianças vão amadurecer e sentir-se seguras e amadas o suficiente para seguir em frente em seus próprios relacionamentos. Porém, segundo o Gordon Neufeld, se a criança não consegue estabelecer um vínculo de apego com os cuidadores principais, é como se criasse um “vácuo de apego” (attachment void, termo criado pelo autor). E uma vez nessa situação, a criança irá buscar atender suas necessidades de apego em outras relações, ou seja, fora de casa, com seus pares.

O autor cria dois termos que ajudam a explicar muito o que acontece em termos de comportamento com os nossos filhos: orientação parental e orientação por pares. A orientação parental é aquela que nós entendemos como a ideal, e a natural, se os pais conseguem estabelecer uma relação de apego seguro com seus filhos. Quando o vínculo é estabelecido com os próprios pais, há aceitação, entendimento e amor incondicional. A criança aprende que ela é amada pelo que ela é, que ela é aceita como ela é. A criança busca segurança e modelo em seus pais, que assumem a responsabilidade por seus filhos.

Por outro lado, quando isso não acontece, nossos filhos vão buscar saciar sua fome por apego com seus pares. O vínculo é estabelecido com um amigo, por exemplo, que obviamente não tem nem maturidade, nem interesse de assumir responsabilidade por aquela criança. O amor não é incondicional e a criança nunca atingirá o nível de segurança e aceitação que ela precisa para amadurecer saudavelmente. O apego criado é de natureza insegura, inevitavelmente.

Orientação parental e orientação por pares são dois conceitos que trabalham na natureza ambivalente do apego. Ou seja, uma criança que tem orientação parental vai tender a afastar vínculos prejudiciais com seus pares, enquanto que uma criança que é orientada por um par vai tender a afastar e não aceitar nenhum tipo de autoridade ou intimidade com seus próprios pais.

É o caso da criança que sequer conversa com os seus pais e que busca contato intermitente com seus pares. A criança, mesmo tendo passado boa parte do dia em companhia de colegas na escola, continua buscando contato e aceitação dos pares através de mensagens ou redes sociais. Por outro lado, rejeita qualquer contato com seus pais.

À medida em que eu lia o livro, ficava mais alarmado com a gravidade deste problema. É como se eu estivesse dando uma espiada no futuro, querendo saber como não deixar que isso aconteça com o meu próprio filho. Crianças que são orientadas por pares tendem a apresentar problemas sérios, como: baixa autoestima, agressividade, hostilidade, bullying e sexualização precoce.

A criança orientada por par não busca mais aceitação dos pais. Ela afasta os pais para se aproximar dos pares e, por isso, pode ser hostil e pouco receptiva aos seus pais. E sempre que esses pais levavam seus filhos para fazer uma consulta com o Dr. Neufeld, iam procurando saber o que tinha de errado com os filhos deles. Qual era o problema deles? Que distúrbio estava causando esses desvios comportamentais? A resposta não está necessariamente no comportamento em si, mas na relação que existe entre pais e filhos.

Como fazer que os nossos filhos nos busquem para as noções de certo e errado, valores morais e identidade, se eles estão sendo orientados por seus pares? A resposta é, como o próprio título do livro sugere: agarre seus filhos.

“Algo mudou. Dá para perceber isso, dá para sentir isso, só não dá para encontrar as palavras para explicar isso. As crianças não são exatamente o mesmo que lembramos ser. Elas parecem menos propensas a receber seus sinais de adultos, menos inclinadas a atender os responsáveis, com menos medo de se meter em encrencas. A criação de filhos, também, parece ter mudado. Os nossos pais pareciam mais confiantes, mais certos de si mesmos e com mais impactos em nós, seja para o melhor como para o pior. Para muitos, criação de filhos não parece ser natural. Os adultos através dos tempos têm reclamado sobre crianças sendo menos respeitosas com os mais velhos e mais difíceis de orientar do que gerações anteriores, mas será que dessa vez poderia ser para valer?”

“Something has changed. One can sense it, one can feel it, just not find the words for it. Children are not quite the same as we remember being. They seem less likely to take their cues from adults, less inclined to please those in charge, less afraid of getting into trouble. Parenting, too, seems to have changed. Our parents seemed more confident, more certain of themselves and had more impact on us, for better or for worse. For many, parenting does not feel natural. Adults through the ages have complained about children being less respectful of their elders and more difficult to manage than preceding generations, but could it be that this time it is for real?”