Medo de Vacina: Dicas para Ajudar os Nossos Filhos

"Como podemos ajudar os nossos filhos a enfrentar o medo e a dor de tomar vacina? Aqui, eu ofereço algumas dicas para encorajar os nossos pequenos."

Poucas coisas são mais difíceis de explicar para os nossos filhos do que vacinas, não é? Para nós, adultos, é fácil entender a necessidade disso e, tirando algumas exceções de adultos que têm pavor de agulhas, conseguimos lidar relativamente bem com a agulha.

Mas, para os nossos filhos, é bem diferente. Pense comigo: é algo que dói, que é esquisito, que é assustador, mas que os nossos pequenos precisam fazer para o próprio bem deles. Como algo tão pavoroso pode, ao mesmo tempo, ser tão bom e importante para eles?

Diante desse dilema, nós, os adultos, já tentamos de tudo para ajudar os nossos filhos nessas horas. Porém, infelizmente,  boa vontade não é o suficiente para, de fato, ajudar as crianças. Existe um repertório que normalmente utilizamos ao longo da vida:

  • falar que “não é nada”
  • falar que é só uma “picadinha de mosquito”
  • após a vacina, falar que “passou, passou, passou”
  • mandar “engolir o choro”, normalmente através de alguma ameaça
  • distrair a criança com algum brinquedo
  • oferecer alguma recompensa caso a criança pare de chorar
  • racionalizar e explicar toda a história da imunização mundial, e a importância biológica disso

Eu entendo que muitas dessas medidas são feitas por pais desesperados, porque não estamos normalmente preparados para lidar com um choro tão profundo dos nossos filhos. E, nesse desespero, nessa ansiedade de “salvar” os nossos filhos das dores do mundo, recorremos a todas as ferramentas que temos à mão para “tentar resolver o problema”.

Mas o problema real é que todas as alternativas acima ignoram, diminuem ou tentam silenciar o que os nossos filhos estão sentindo e, nesse processo, geramos uma confusão grande na cabeça deles. Imagine que, assim que o seu filho tomasse uma injeção e começasse a chorar, você dissesse que “não foi nada, foi só uma picadinha de mosquito”.

Assim, desse jeito, não parece algo muito estranho a se dizer, mas se tentarmos enxergar a mesma situação do ponto de vista dos nossos filhos, as coisas mudam bastante: “como assim não foi nada, se eu estou sentindo dor, medo e tenho essa vontade incontrolável de chorar? Será que estou errado? Meu pai disse que não foi nada, mas estou sentindo algo bem grande aqui”.

A boa notícia é que existem outras maneiras de lidar com essas situações! Foi por isso que achei importante compartilhar aqui com você uma história recente, para ilustrar o que eu faço para ajudar os meus filhos na hora de tomar vacina, e oferecer a você algumas ferramentas para lidar com essas situações de uma forma diferente do que é dito como convencional.

Para você ter uma ideia, tanto o Dante como o Gael já começam a chorar no momento que ouvem a palavra vacina. Nós sempre deixamos para avisar perto do momento da vacinação, logo antes de sairmos de casa, porque senão o sofrimento e choro vai ser muito, mas muito longo.

Nessa hora, eu já começo a ajudar os meus filhos reconhecendo o que eles estão sentindo. No caso, medo:

— Puxa, filho, eu vejo que você está chorando e você nem tomou vacina ainda. Eu acho que você está com muito medo, né?

— Sim, pai!

— Olha, eu entendo. Você está com muito medo, dá para perceber! Eu também tinha muito medo quando era pequeno, mas hoje sei o quanto isso é importante para a nossa saúde. É normal sentir medo, tá, filho?

O choro não acaba na hora, mas se acolhermos suficientemente os sentimentos dos nossos filhos, eles se acalmam bastante.

Nesse mesmo dia, levei o Dante para tomar vacina. Ele já estava meio choroso no táxi, e eu tentava acolhê-lo da melhor forma possível, reconhecendo o medo que ele estava sentindo. Chegando no posto de saúde, ele já estava mais calmo, e ficamos batendo papo enquanto aguardávamos na fila.

A agente de saúde pegou a caderneta de vacinação dele, fez as marcações que precisava fazer, devolveu tudo para mim e nos encaminhou para a sala de vacinação. Nesse momento, o Dante já começava a chorar e a tremer de novo.

— Filho, você tem medo da agulha, né?

— Sim, papai. Eu não gosto de ouvir nem o nome dela.

— Hmmm, e se a gente mudasse o nome dela? Podemos chamar de espetuda!

— Hahaha boa, papai! Espetuda!

— Sim, filho! Olha, nós vamos entrar agora, mas eu vou estar sempre do seu lado e ajudando, tá?

Entramos na salinha e o Dante estava ainda mais nervoso. Perguntei se ele queria um pouco de colo, e ele aceitou. Aproveitei para falar baixinho no ouvido dele:

— Filho, eu sei que é difícil para você, mas você sabe que isso é muito importante. Vamos passar por isso juntos, e vamos ter coragem juntos.

Quando sentei com ele no meu colo, e enquanto a outra agente de saúde preparava a injeção, Dante já chorava bastante e se debatia também. Eu repetia as mesmas palavras para ele, e comecei a dizer que seguraria o rosto dele para o outro lado, porque se ele não visse a espetuda, ele sentiria menos medo (e dor).

Segurei o corpinho dele, e coloquei a cabeça dele contra o meu peito. Ele, que já estava chorando, mal sentiu a espetuda e, quando acabou a aplicação, eu disse:

— Pronto, filho, acabou a vacina. Sentiu muita dor? Como você está?

— Já? Caramba, eu nem senti nada!

— É, filho, esse tipo de vacina não dói muito, mas às vezes, quando temos muito medo, ficamos nervosos e sentimos mais dor. Por isso que eu estou aqui, para ajudar você.

Com o rosto ainda molhado de lágrimas, ele deu um sorriso, e começou a se acalmar. Fizemos um lanche na padaria mais próxima e chamamos um táxi para voltarmos para casa. E foi dentro desse táxi que aconteceu a coisa mais surpreendente de toda a história, numa conversa entre o Dante e o taxista.

— Eita, rapaz, você tomou vacina, é?

— Sim, eu tomei e chorei muito.

— Ahhh, mas não precisava, né? Você é forte e corajoso!

Rapidamente, fiz um comentário direcionado ao Dante, porque sei que mesmo com boas intenções, as pessoas não estão muito acostumadas a acolher sentimentos.

— Mas tudo bem chorar, também, né? Chorar é normal, filho.

— Sim, eu estava com medo e chorei, mas o papai me deu coragem.

“O papai me deu coragem”.

Isso ainda ecoa pela minha cabeça, como um lembrete de que estou no caminho certo com os meus filhos. É isso que acontece quando encorajamos os nossos filhos, ao invés de silenciá-los.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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