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Não, Palmada Não é Aceitável

"Precisamos falar sobre a palmada, porque agredir filhos ainda é algo amplamente aceito na sociedade. A naturalização da violência é algo que assombra."
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Sim, ainda precisamos falar sobre a palmada. Para você, que me acompanha há algum tempo, pode pensar que não precisamos mais falar sobre isso, que é um tema meio óbvio. Afinal, todo mundo sabe que palmada não funciona e ainda traz impactos muitos negativos, né? Não, infelizmente não. Pode até ser que isso seja óbvio nas nossas micro-bolhas mas, fora dessas bolhas, a palmadinha ainda é um recurso amplamente utilizado e aceitável.

Por isso que precisamos continuar falando sobre palmada, torcendo para que a mensagem chegue em cada vez mais pessoas. Sabe aquela palmadinha educativa? Isso, aquela palmada inofensiva, que é só para ensinar o que é certo e errado para os filhos. Aquela que muitas pessoas acham que não machuca, ou melhor, é a palmada que dói mais no agressor que no agredido.

Pois então, precisamos, sim, falar sobre isso, porque muitas crianças ainda apanham. Elas apanham escondido em casa, e também em público, adicionando o fator humilhação à agressão.

A minha vontade de escrever sobre esse tema veio com esse estudo científico, que mostra os efeitos negativos da palmada. Na verdade, a minha vontade veio mesmo com os comentários nesse texto. Pois é, eu quebrei a regra de que não devemos ler comentários na internet:

— Gostaria de saber que fim teria o mundo se não houve uma boa palmada aquele que não fosse advertido uma vez.

— Um tapa na bunda como último recurso, quando todas as demais tentativas falharam às vezes é necessário.

— Apanhei, quando criança. Não palmadas e, sim, sovas bem dadas. Nem por isso sou uma dessas estatísticas negativas.

— Levei muita palmada e lapada dos meus pais. Hoje sou homem digno na sociedade, palmada não machuca.

— As crianças funcionam como cachorros. Em últimos recursos é necessário sim algum contato físico para educar, mas não “espancar” todo dia.

— Palmada é bem diferente de espancamento. Palmada tem momento certo, idade certa e medida certa.

Não existe essa de “eu apanhei e está tudo bem”. Essa frase já é a prova de que não está tudo bem, porque ela demonstra como a violência se naturalizou dentro do agredido, perpetuando o ciclo de violência através das gerações.

Ninguém merece apanhar, ninguém merece ser agredido, ainda mais uma criança. Uma coisa é fazer as pazes com o passado e entender que nossos pais fizeram o melhor que podiam com o que tinham, mesmo que eles nos tenham agredido. Outra coisa, inteiramente diferente, é internalizar esse conceito de que você mereceu apanhar. Não, ninguém merece apanhar, nem eu, nem você, nem nossos filhos.

E crianças não funcionam como cachorros, porque são seres humanos. Seres humanos. Como eu e como você. Sabe, pensar sobre disciplina positiva, criação com apego e todos esses conceitos que envolvem uma criação sem violência se baseiam naquela noção radical de que crianças são seres humanos. Se ninguém me deixa bater em um adulto, por que está liberado bater em crianças? Isso sem contar que nem cachorro merece levar surra, vamos combinar.

Por isso que é tão importante o trabalho de tanta gente que promove a disciplina positiva e não violência, como a página Crescer Sem Violência. Ainda temos que falar muito — e muito e muito — até chegar nas pessoas que estão dentro do ciclo de violência, e desconstruir a ideia de que a violência é um recurso aceitável. Precisamos, também, construir a noção de que crianças são seres humanos dignos do nosso respeito.

Por outro lado, existe a esperança que nos alimenta. São relatos como esse, de uma mãe que conseguiu quebrar o ciclo da violência, que conseguiu perceber a incoerência da palmada e resolveu seguir seus instintos. Fique com as palavras tocantes da Luciana Xavier:

Não sei o que é pior, o que humilha em público ou o que simula respeito em público mas agride escondido. Estes últimos costumam ser os mais atrapalhados para conduzir uma crise da criança em público. Houve uma época em que eu era assim, olhava minha filha não como sujeito de direitos, mas como minha propriedade, porque aprendi que se fazia assim na minha época de criança. Mudei quase que por instinto porque me sentia muito mal em agredi-la. Violência é um ciclo: o agressor aprendeu a ser assim.

Eu sempre procurei seguir meu instinto e isso “melhorou” depois que virei mãe. Não cabia na minha cabeça tanto amor por uma criança e combinar isso com castigos, gritos e palmadinhas. Vinha na nossa lembrança quando éramos pequenos e apanhávamos a mesma sensação. Nem outros filhos eu queria mais. Ele (o pai) se sentia pior, porque era espancado pelos pais e não achava certo repetir isso. Coincidiu com o início do tratamento dele (depressão e ansiedade), e bastou uma conversa para decidirmos não bater mais. Corri atrás de informações feito uma louca e encontrei rica literatura, artigos e páginas sobre o assunto.

Quando assisti uma palestra do Thiago Queiroz minha sensação foi “ufa, não estamos sós, tem uns ‘doidos’ que pensam como nós”, e essa sensação é revigorante. Estou estudando o livro da Jane Nelsen, “Disciplina Positiva” e estudando, porque não dá para decorar todos os princípios rapidamente, então faço uma leitura cuidadosa.

Finalmente, vivemos um dia de cada vez, errando, nos desculpando e buscando melhorar, como todo ser humano.

Mas o que me animou de verdade foi ver o quanto ela evoluiu em 15 dias, tanto na escola, como em casa. Era como se tivéssemos outra criança, a nossa menina estava… feliz! Largou as fraldas noturnas, reduziu o roer de unhas e melhorou muito na escola: parou de agredir os amiguinhos, ficou mais cooperativa e amorosa. Hoje, ela consegue nomear os sentimentos. Tipo, ao invés de chorar, diz que está com raiva ou entediada. Claro que tem as manhas da idade, claro que tenho meus momentos de ‘grito’, mas nos desculpamos, nos perdoamos (é lindo ouvir dela um ‘te perdoo’) e somos pais muito mais felizes.

Lindo, não? É emocionante ver como as peças começam a se encaixar quando quebramos o ciclo de violência! Juntos, vamos curando as feridas do passado, criando resiliência, quebrando ciclos de violência e construindo um futuro menos violento.

Por isso que precisamos tanto falar sobre a palmada! Porque ninguém merece apanhar. Ninguém. Nem seu filho, nem você quando era pequeno.

E se você tiver interesse, eu fiz um vídeo sobre palmadas, dando mais informações sobre ela e sobre como ela não é eficaz:

 

Além disso, quando estamos tentando nos livrar da cultura da palmada, podemos ficar meio perdidos, sem saber o que fazer. Por isso, também fiz esse vídeo sobre as alternativas à palmada, com exemplos bem práticos.

 

Vamos quebrar o ciclo da violência! Juntos!

Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou pai do Dante, Gael e Maya, e crio conteúdos para ajudar famílias a criarem seus filhos com afeto, empatia e sem violência. Sou líder certificado de grupo de apoio pela Attachment Parenting International, e também educador parental certificado pela Positive Discipline Association.

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Comentários

9 comentários em “Não, Palmada Não é Aceitável”

  1. Nossa! Foi pauta no ano novo aki! Luciana Xavier sua linda parabéns pelo comentário, somos seres plásticos podemos e devemos nos reavaliar, e mudar nossa prática.

  2. Ludmilla Resende de Oliveira P

    Ei, Thiago! Gostaria que, se possível for, falasse sobre o chamado “terríveis” dois anos! E alternativas e direcionamento através da DP, de como ela pode ajudar, de como os pais devem agir.

    1. Ludmila, tenho um menino que é energia pura, ele não pára, noutros tempos eu diria que ele era “danado”. Pois bem, até meu filho ter entre 2 e 3 anos eu adotava o “cantinho do pensamento”, castiguinhos de 1 ou 2 minutos, à moda Super Nani. A coisa piorava a cada dia, ele levava tantos desses castigos que já ia sozinho para o cantinho, nem se importava mais. E nada de melhorar o comportamento. Vi que estava tudo errado, pesquisei e encontrei o Tiago Queiroz e a disciplina positiva (estou devendo esses comentários há 3 anos, pois João já tem 6!). Li tudo a respeito com avidez, passei a praticar, a explicar a ele o que era raiva e frustração, que eu também sentia isso e era normal, mas que ele não podia fazer coisas erradas por sentir raiva, ensinei a respirar para se acalmar. Claro que ele ainda é o mesmo menino que não pára, mas amadureceu demais, é bem equilibrado, e, o mais importante, a relação de companheirismo e confiança que temos é deliciosa. Ele me fala das suas dificuldades e nunca mente, somos hoje muito conectados. Aprendi que gentileza gera gentileza e não educamos com grosseria, imposições e gritos. Amadurecer a criança e ensinar o que são e como lidar com os sentimentos dá muito melhor resultado. Foi com a gentileza aprendida no paizinho vírgula que venci a difícil fase dos 2 a 3 anos.
      Palmada e castigo é como dar o peixe pronto
      Conversa é dar a vara de pescar

  3. Camila Rodrigues

    Olá Thiago! Muito obrigada por passar essa informação tão preciosa! Te acompanho desde da minha gravidez, e acreditei nesse conceito e pratico com minha filha de 2 anos e 5 meses.
    Muito agradecida por isso!
    Passo pra te fazer um pedido, percebo muitas vezes que as pessoas não agridem fisicamente, mas verbalmente, fazem isso com muita facilidade, chamando a criança de burra, mal criada, mal educada, em fim, palavras q agridem tanto Qto fisicamente, meu pedido é… Seria possível fazer uma post e/ou um vídeo sobre esse assunto… Ou caso, já o tenha feito, me fala qual é, talvez tenha perdido em algum momento da correria rsrs

  4. Michele Santos

    Thiago, boa tarde.
    Resolvi acabar definitivamente com as palmadas e percebo meu filho melhor em casa. Mas ainda não na escola.
    Sei que isso não é uma ciência exata, mas em geral, quanto tempo leva para a criança se reconectar aos pais e começar a internalizar e externar o modo positivo que está sendo criada?
    Se tiver mais dicas sobre como se reconectar à criança, eu agradeço!
    Obrigada pelo seu rico trabalho! Me sinto leve ao ler seus textos. Um abração pra você.

    1. Thiago Queiroz

      Oi querida! Parabéns por essa decisão! É como você disse: não é uma ciência exata, e depende muito de como era a relação antes de vocês. O que eu gostaria de sugerir é para que você foque na relação entre vocês, no vínculo, exercite a empatia e sem buscar um objetivo, sem tentar resolver um problema. Viva essa nova realidade e, em breve, você perceberá as diferenças!

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