Você já deve ter se perguntado sobre o porquê do nome deste blog. Paizinho, Vírgula! não é um nome descolado, nem uma jogada de marketing. Paizinho, Vírgula! é o que parece mesmo: um grito. É um grito de chamada aos pais e mães para suas responsabilidades como pais e mães.

Pois bem, você já deve ter lido em De Quando Dante Nasceu – O Parto Domiciliar Visto Pelo Pai sobre como o meu pequeno Dante nasceu. Foi simplesmente lindo e transformador. Porém, nem tudo continuou lindo e perfeito depois que o Dante nasceu, mas hoje percebo a importância que os acontecimentos seguintes tiveram no nascimento da nossa família.

Na verdade, este post está sendo o mais difícil de todos para escrever. De tempos em tempos, venho aqui e escrevo um pouquinho, depois “esqueço” dele, daí venho de novo, escrevo mais um pouquinho. São questões muito delicadas que, até então, achei estarem resolvidas mas, voltando e pensando nelas, faz com que eu pense em tudo de novo. Coisas antigas que não queremos remexer, mas é hora de fechar esse assunto, para seguir em frente.

Esta é uma série de dois posts, que originalmente foi pensada em ser apenas um post, porém, à medida em que eu ia escrevendo, o post foi ficando gigantesco, a ponto de eu ter que dividi-lo para não ser algo muito longo para leitura. Mas pode deixar, não vou ficar fazendo muito suspense para postar a segunda parte!

Assim que o bebê é parido, a mulher entra em uma espécie de segundo trabalho de parto, menos intenso e mais breve, que culmina na saída da placenta. Normalmente não demora muito, às vezes demora um pouco, e raramente, de 1,5% a 2,7% (1), ela simplesmente fica retida. Anne entrou para esse grupo de raras ocorrências. A equipe, em contato com o médico ginecologista obstetra de backup, tentou todas as alternativas disponíveis para um ambiente domiciliar, para auxiliar no descolamento da placenta, mas ela continuava lá, apegada à Anne.

O destino nos roubou o brinde com champanhe. Nove horas depois, após todas as tentativas de remoção da placenta que poderiam ser feitas fora de um ambiente hospitalar, a Anne já estava bem fraca pela perda de sangue, até que o ultimato nos foi dado: a transferência para um hospital seria necessária, para a remoção da placenta. A enfermeira obstetra nos deu três opções, a escolher:

  • ir para o hospital particular mais próximo (Perinatal), que o nosso plano de saúde cobria. Lá, porém, como não existe alojamento conjunto, nosso bebê ficaria na UTI neonatal, e eu poderia ficar com a Anne no quarto;
  • ir para a Maternidade Maria Amélia, do SUS, com o Dante. Lá, existe alojamento conjunto, então o bebê não fica separado da mãe; ou
  • ir para a Maternidade Maria Amélia, sem o Dante. A Anne iria fazer o procedimento necessário e logo em seguida voltaria para casa, imaginamos.

Sem contar com o fato de que o Dante seria visto como um ET e seria espetado de todas as formas possíveis e imagináveis, por não ter nascido em um ambiente estéril, mas isso é aplicável a todas as opções acima.

Por mais que detestássemos todas as alternativas acima, tínhamos que escolher por uma; a menos traumática, pelo menos. A opção da maternidade particular foi descartada imediatamente, porque se o Dante não tinha problema algum, por que ficar internado em uma UTI neonatal? Cogitamos bastante de a Anne ir sozinha para o hospital, mas os prejuízos que isso traria à amamentação seriam muito grandes. Choramos e fomos todos juntos à Maternidade Maria Amélia.

O caminho foi bem difícil, porque a Anne estava, de fato, muito fraca. Chegando na maternidade, o médico de backup já estava lá, esperando por ela. Dante subiu logo em seguida e eu fiquei lá, atônito. Minha família foi tirada de mim, quando todos nós deveríamos estar em casa, rindo e curtindo nosso bebê.

Alguém me disse que eu tinha que fazer a ficha da Anne, na recepção. Fui em direção à recepcionista, que começou a perguntar coisas sobre nome, profissão, endereço, etc. Eu simplesmente não conseguia falar o endereço, as únicas coisas que saíam da minha boca eram soluços. E então, o primeiro sinal de que as coisas seriam difíceis:

– Qual a profissão dela?

– Ela é artista plástica.

– Ah, tá explicado…

O preconceito e a ignorância estão ainda muito enraizados na nossa sociedade e isso é muito triste, ainda mais quando isso acontece dentro de uma instituição que deveria estar lhe prestando assistência, não julgamento. Voltando do balcão, sentei numa cadeira ao lado da equipe do parto domiciliar, tentando não pensar na situação para não desabar novamente, pois tinha acabado de conseguir me controlar um pouco.

Foi quando a mão da nossa doula, Ingrid, pousou sobre o meu ombro. Meu mundo caiu, chorava inconsolavelmente, sem saber o que ia acontecer com a família que acabara de ganhar. As pessoas tentavam me consolar, mas sinceramente, não lembro de uma palavra sequer. Não foi a primeira, nem a última vez que a nossa doula foi meu porto seguro, que me deu força para enfrentar a realidade.

Algumas horas se passaram, acho que já passava da meia-noite, quando uma enfermeira veio me chamar para dizer que o procedimento de curetagem já havia sido realizado com sucesso, e que eu poderia subir para vê-los. No elevador, recebo uma mensagem via Whatsapp da parteira, dizendo que conversou com o médico, e que eu poderia ficar junto dela durante a noite! Uma alegria tímida correu pelo meu corpo, mas como eu já estava acostumada com informações enganadas dentro de instituições desse tipo, perguntei:

– Tem certeza? Acho que isso ainda vai dar problema.

Ainda assim, estava confiante! Vesti a roupa para entrar no centro cirúrgico e, no caminho, fui abordado por outra enfermeira que me deu o sinal de que as coisas realmente começariam a ficar ruins. Disse-me que já haviam dado a vacina de hepatite e também vitamina K injetável, sendo que já havíamos dado a primeira dose de vitamina K via oral para ele, em casa. Assim, sem perguntar, seguindo protocolo, espetaram meu filho. Essa enfermeira era bastante solícita e lamentou pelas intervenções, pois sabendo que tratava-se de uma transferência de parto domiciliar, a última coisa que pais iriam desejar era que o filho fosse espetado.

– Desculpa, eu tentei falar para a pediatra, mas ela não me ouviu – e assim começou meu caso de amor com pediatras.

Eu e Dante entramos na sala onde a Anne estava, pálida que só. A mesma enfermeira ajudou Anne a amamentar o Dante, e ficamos agradecidos. Disse à Anne que poderíamos ficar juntos e nossa, como vibramos! Logo após, pediram que eu esperasse do lado de fora, para que preparassem mãe e bebê, antes de descer para a enfermaria. Fiquei algumas horas naquele corredor gelado esperando, não sei por que.

Primeiro chegou o Dante, depois a Anne. Descemos juntos e chegamos no alojamento conjunto. Lá, cada alojamento comporta quatro mulheres, com lugar para colocar seus bebês ao lado de suas camas. Justamente por ser um alojamento com várias mulheres, era regra dos hospital que nenhum homem poderia ficar lá após as 22:00. Já deviam ser umas 2 da madrugada, mas estávamos confiantes que uma exceção havia sido feita para nós!

Ledo engano. Uma enfermeira truculenta surge, ordenando que eu saísse e, independente do que eu dissesse, ela continua dizendo que eu não poderia ficar lá. Ao mesmo tempo, as outras mulheres do alojamento começaram a se revoltar, e reclamar que eu não poderia estar lá. Estávamos encurralados, sufocados.

Foi um abraço de despedida longo, doído, silencioso. O momento mais triste da minha vida. Voltando à recepção, a equipe do parto havia ido embora, porque todas acreditavam que eu estaria com a Anne, e eu não sabia o que fazer. Não queria ir para casa sozinho, não tinha a mínima condição para isso. Perguntei aos seguranças se poderia  ficar por ali, e passei a noite na recepção. Com frio e incomunicável, pois a bateria do celular tinha acabado. Minha família estava a alguns metros de mim, e eu não podia ficar com eles.

As horas se estendiam mais do que era possível, e às 9:00 da manhã, pude reencontrar minha família. Que alívio! Conversamos e vi que a noite da Anne não tinha sido tão melhor que a minha: ela teve muita dificuldade com a amamentação, sem contar que ela ainda estava muito fraca pela perda de sangue. Foram três dias que ficamos lá, mas hoje, ainda tenho a sensação de que ficamos presos por um mês naquele lugar.

A cada dia que passava, era uma nova história que surgia impedindo a alta da Anne e do Dante, e isso sempre acontecia durante a ronda das pediatras, que era na hora do almoço. Uma técnica aparecia na porta e bradava:

– Todo mundo tirando a roupa dos bebês que a pediatra está vindo.

Acho que seríamos tratados com mais delicadeza em uma prisão. E a cada ronda, a cada dia, uma novidade: bebê apático, bebê com hipoglicemia e, num belo dia, ouvimos algo bem assim:

– Ihhhh, esse bebê tá muito amarelo.

 

Para ler o desfecho, vá em Morte do Paizinho, Nascimento da Vírgula!