Por algum motivo muito estranho e desconhecido para mim, existe um protocolo de convívio social para bebês. Não é nada publicado (não que eu saiba), oficializado em algum livro ou lei mas, ainda assim, todos os adultos conhecem de cor e salteado. Você chega em qualquer lugar, e os adultos já sabem (ou têm essa expectativa) do que o seu bebê deve fazer. Algumas pessoas chamam isso apenas de boas maneiras, mas eu gosto de chamar de O Curioso Protocolo Social dos Bebês.

Se você vai visitar a sua tia, ou se você vai para um almoço de família, ou se você simplesmente vai tomar um café na casa da sua avó, não importa: todos esperam que o seu bebê irá se comportar conforme o Protocolo. Ele tem que ser muito bem-educado, muito bonzinho, e fazer coisas como dar beijos, ir no colo de todo mundo, e por aí vai.

Além disso, à medida que o seu bebê cresce, ele começa a habitar pracinhas. Algumas mães e pais levam seus bebês desde bem pequenos em seus slings para passear na pracinha, mas não é sobre esse momento que eu gostaria de falar. Até porque, para um bebê de colo, ir à pracinha é um passeio ao ar livre como qualquer outro. Mas quando nossos filhos começam a brincar em pracinhas ou parques, existe todo um conjunto de pressões sociais que demandam do seu filho um determinado comportamento.

Esse é um assunto sobre o qual eu já queria escrever há algum tempo, porque se tem algo que me irrita profundamente e constrange é esse Protocolo Social. Deixe-me explicar melhor esses dois sentimentos: eu fico extremamente irritado quando as pessoas esperam que o meu filho siga esse protocolo e, por outro lado, fico extremamente constrangido quando vejo outra criança sendo obrigada ou coagida a seguir esse protocolo por causa do meu filho.

Nesse post, vou falar das três regras do protocolo que mais me incomodam. Se você achar que faltou algo que incomode você também, diga aí nos comentários! Quem sabe não escrevemos uma segunda parte do Protocolo, com novas regras sem sentido?

Para início de conversa, precisamos ter em mente que bebês não têm necessidade real de socializar até pelo menos 2 anos de idade. Eles sequer têm desenvolvimento cerebral para isso. Ou seja, eles até podem gostar de brincar próximo, mas não brincar junto.

Dar Beijo

– Vamos, dê um beijo na tia!

Não me entendam mal, mas eu não consigo entender qual é a obrigação de um bebê dar beijo em todo mundo. Eu certamente não beijo todo mundo e realmente não gostaria que meu filho beijasse. Não é nenhuma preocupação com germes ou ciúme desmedido que eu possa ter em relação ao meu filho, mas eu prefiro que ele beije quem ele quiser, quando ele quiser.

Para piorar, algumas pessoas costumam cobrar e ficar chateadas quando um bebê nega um beijo. Eu mesmo já perdi as contas de quantas vezes o Dante me negou um beijo. Eu, que sou pai! O que eu tenho a dizer é que a vida é assim, e devemos ter essa consciência para quando um bebê resolver nos agraciar com um ato de carinho tão grande como o beijo. Da próxima vez que você ganhar um, saberá o quão especial aquele beijo foi. Ou você prefere receber um beijo mecânico e condicionado de um bebê?

Mas algumas pessoas ainda vão além, pois elas subornam o bebê ou a criança para ganhar um beijo. Que tipo de mensagem elas querem passar para esses bebês? Que afeto e carinho podem ser comprados? Se alguém oferecesse R$ 50,00 a essas pessoas, em troca de um beijo, elas se sentiriam ofendidas? Por que então elas fazem exatamente a mesma coisa com bebês?

Eu lembro de uma vez em que o Dante invadiu um salão de beleza. Quando estamos passeando com ele, ele gosta de entrar em lugares diferentes e ver o que tem lá dentro. Quando achamos pertinente, nós deixamos ele entrar um pouco, para satisfazer a curiosidade. Então ele entrou no salão de beleza, quando ainda estava aprendendo a andar, e uma vendedora pediu um beijo do Dante. Ele negou o beijo e, em resposta, ela disse:

– Bebê, eu só te dou esse pirulito se você me der um beijo.

Que bom que ela mesma resolveu dois problemas de uma vez só: Dante não deu o beijo e nem ganhou um pirulito. Mas como comunicar gentilmente a essas pessoas que, muitas vezes sequer tem filhos, de que é muito ruim pedir ou barganhar o beijo de um bebê, tanto quanto de qualquer outro ser humano? Ainda não domino essa técnica, então costumo fazer cara de alface e responder gentilmente:

– Ele não costuma dar beijos em todo mundo.

Colo de Estranhos (ou Semi-Estranhos)

Outra regra bastante esquisita, que é bem parecida com a anterior, é a expectativa de que todos os bebês devem aceitar o colo de todas as pessoas. Sejam essas pessoas completamente estranhas ao bebê, ou até mesmo as semi-estranhas, com as quais o bebê não possua ainda um vínculo. Pior ainda: as pessoas costumam fazer juízo de valor dos bebês em função da capacidade deles aceitarem o colo de estranhos. Quem nunca ouviu um comentário desses?

– Ah, ele é muito bonzinho. Vai com todo mundo!

Desconsiderando o fato de que existem, sim, bebês que aceitam o colo de outras pessoas com uma maior facilidade, isso não os faz bonzinhos. Existem muitos fatores que podem influenciar nisso como, por exemplo, a fase de desenvolvimento em que o bebê se encontra. Até certa idade, bebês não estranham pessoas desconhecidas, mas isso tende a mudar à medida em que eles crescem. Mas ainda assim, o fator mais decisivo está na personalidade do bebê, coisa que costumamos não levar em consideração muitas vezes.

Então, se um bebê não quer aceitar o colo de qualquer pessoa, independente se essa pessoa é a bisavó de 105 anos, não devemos forçar a situação. Já vi alguns bebês se agarrando no pescoço de seus pais, lutando para não ir no colo de outra pessoa e, obviamente, chorando no colo dessa pessoa. Já ouvi, inclusive, durante esse processo dolorido, os pais chamando o bebê de manhoso ou chato. Como nós queremos ser respeitados pelos nossos filhos se não respeitamos seus pedidos mais básicos?

O melhor caminho, para mim, é respeitar os nossos filhos e explicar gentilmente que não vai dar para pegar no colo dessa vez. Quem sabe da próxima?

Pedir Desculpas (ou Por Favor)

Antes de começar a falar sobre esse tópico, preciso esclarecer que, assim como muitas das decisões que pais e mães tomam, exigir que os filhos peçam desculpas é uma delas. Conheço pessoas que entendem isso como algo inegociável, ou seja, se fez algo de errado, a criança deve pedir desculpas. Criar filhos é assim mesmo: fazemos tudo com base em nossos próprios valores e crenças. Por isso, gostaria de detalhar aqui os motivos pelos quais eu não obrigaria meu filho a pedir desculpas.

Não é raro presenciar uma cena dessas, onde a criança faz algo considerado errado pelo pai ou mãe que, por sua vez, obriga seu filho a pedir desculpas. Esse é um dos momentos em que eu me sinto constrangido, principalmente quando a criança está sendo coagida a pedir desculpas por algo que fez com o meu filho. E, muito frequentemente, por algo que a criança visivelmente fez sem nenhuma intenção de ferir ou magoar outra criança.

Por outro lado, já recebi muitos olhares tortos por não obrigar meu filho a pedir desculpas, principalmente em pracinhas. Se Dante esbarra em outra criança, ou se tenta tomar o brinquedo de outra criança, obviamente, converso com ele. Peço para ele tomar cuidado e olhar para onde está andando, ou então explico o motivo pelo qual tomar objetos dos outros não é legal. Tento sempre mostrar a ele quais os efeitos que as ações têm sobre o outro, dizendo que a outra criança ficou triste, por exemplo. Algumas vezes, ele vai até a criança e dá um abraço, ou devolve o brinquedo. Mas outras vezes, ele simplesmente não faz nada e eu sou fulminado por olhares indignados.

Mas por que eu devo obrigar meu filho a pedir desculpas? Sim, pedir desculpas é sempre algo bom, porque demonstra arrependimento. Mas só é bom quando vem do coração, não é? Ou não tem problema se não vier do coração?

Quando você obriga seu filho a pedir desculpas, mesmo que ele claramente não demonstre desejo de pedir desculpas, você está dizendo a ele que está tudo bem se nós pedirmos desculpas da boca para fora. Você torna o pedido de desculpas como algo compulsório, que já, desde a primeira infância, pode ser algo completamente vago e ausente de desejo real. Eu realmente não desejo isso para o Dante, e gostaria muito de ter certeza de que quando ele pedir desculpas, ele realmente queira pedir desculpas.

Outro dia, voltando para casa no metrô, eu vi uma mãe com duas filhas. A mãe estava em pé e as filhas sentadas no banco. O metrô estava lotado e só isso já seria estressante o suficiente para aquela mãe, mas as filhas brincavam, provocavam-se e brigavam. A minha ignorância sobre a realidade daquela família me impede de traçar qualquer observação sobre o que a mãe ou as filhas vivem e, por isso, vou ater-me apenas ao que assisti: em dado momento, uma menina bateu na irmã, e quem apanhou xingou em troca. Imediatamente, a mãe obrigou que a menina que apanhou pedisse desculpas à irmã.

Independente de quem deveria ou não pedir desculpas, ou do nível de estresse que aquela família pudesse passar dentro de um metrô lotado, a questão é que a menina não queria pedir desculpas e falava, em meio às lágrimas, que não queria pedir desculpas, pois foi agredida pela irmã. A mãe não estava interessada nisso e insistia no pedido de desculpas. Insistiu tanto que disse:

– Se você não pedir desculpas à sua irmã e der um abraço nela, vai ficar de castigo quando chegar em casa.

A menina resmungou um bocado ainda, mas disse secamente:

– Desculpa.

A mãe parecia satisfeita com o resultado e não se falou mais nisso. Só que eu não pude parar de pensar naquilo, e em que tipo de mensagem isso deveria passar para as crianças. Não vou nem falar sobre a ameaça de castigo em si, pois já falei bastante nesse tema aqui e aqui também, mas o que será que essas crianças aprendem dessa situação? Eu sei, porque eu já fui obrigado a dizer muito “desculpa” dessa maneira: as crianças aprendem que essa é a palavra mágica que vai evitar elas de se encrencarem com seus pais, e não uma palavra que demonstre um sentimento genuíno de arrependimento. Então, se todas as partes, pais e filhos, sabem que aquilo não é verdadeiro, porque insistir nessa história?

Dante, obviamente, nunca foi obrigado a pedir desculpas a quem quer que fosse, mas sempre confiamos muito no poder do modelo e do exemplo. Ou seja, mesmo lá em casa, eu e Anne pedimos desculpas um ao outro, sempre que é necessário. E, muitas vezes, o Dante estava por perto para ouvir isso. Mais ainda: nós pedimos desculpas para o Dante sempre que necessário. Pelo visto, de tanto vivenciar isto, ele começou a entender um pouco. Não preciso dizer a emoção que foi quando ele pediu desculpas para a Anne, pela primeira vez, depois de ter batido nela:

– Cucuuuupa (“desculpa”, em Dantenês)

E isso tem um valor tremendo para nós, porque sabemos que ele realmente quis dizer aquilo. Claro que no auge dos seus 1 ano e 9 meses, ele não tem capacidade para elaborar o significado de “desculpa” e aplicar, mas já conseguiu associar essa palavra a quando ele faz algo e acaba percebendo que não foi algo legal, como bater na gente.

Até hoje, Dante pediu desculpas só algumas vezes, mas em todas as ocasiões, os pedidos foram aceitos com muita verdade no coração.

É por isso que eu não obrigo meu filho a dar beijo, ir no colo nem pedir desculpas. Espero, sim, que ele faça isso tudo, mas de coração, com vontade intrínseca.


Quer ver mais? Eu fiz um vídeo sobre esse assunto lá no meu canal!