O Livro Que Mudou Tudo

"Essa é a história de como eu passei a enxergar o parto em casa com outros olhos. Uma mudança dessas requer que tudo seja sacudido dentro de você. Requer que você questione tudo o que você (pensa) que sabe."

Para quem não sabe, ontem foi o Dia Internacional do Parto em Casa, e não há dia melhor do que ontem para contar como nós migramos de um parto hospitalar humanizado para um parto domiciliar. Mas antes de qualquer coisa, parabéns a todas as mulheres que conseguiram parir em casa, e para todas as mulheres que estão planejando ter um parto domiciliar. A mulher tem que parir onde ela quiser!

Como já havia começado a falar no post anterior (leia A Pílula Vermelha e Saindo da Matrix), depois de todo o universo que se abriu diante dos meus olhos quando saí da Matrixapesar da gestação da Anne ter durado 9 meses,  o sentimento era de que ela rendeu uns 12 meses, pelo menos. A preparação para o parto é uma jornada de auto-conhecimento tão intensa, que não você só se dá conta de tudo que passou, quando vai refletir sobre tudo o que já aconteceu.

Logo depois que tivemos certeza de que a Dra. Fulaninha Safadeza (não entendeu? Dê uma lida aqui) estava longe de ser o que procurávamos em um ginecologista obstetra decente, a Anne começou a disparar e-mails de socorro para todo o mundo. Uma resposta veio: Ana Cris, obstetriz em São Paulo, nos deu a luz ( trocadilho infame, mas proposital). Em sua resposta, ela confirmava que Dra. Fulaninha Safadeza pertencia à infame espécie de médicos cesaristas, de acordo com os sintomas descritos, e nos passou uma lista de ginecologistas obstetras humanizados (até porque, para um médico querer empurrar uma cesárea a todo custo na mulher, esse cara só pode ser marciano, nunca humano), que ela confiava. Além disso, ela nos indicou buscar apoio no Ishtar do Rio, que é um grupo de apoio à gestante e ao parto ativo.

Foi então que conversamos com um dos médicos indicados e eu, particularmente, gostei bastante de ouvir um médico falando sobre a humanização do parto. Infelizmente, fomos culturalmente moldados para dar muito crédito ao que os médicos dizem, e aquela primeira consulta acalmou bastante os meus ânimos. Ao final da consulta, ele também sugeriu que procurássemos o grupo de apoio.

A Anne já havia encontrado coisas relacionadas ao Ishtar na internet, e estávamos tendo bastante dificuldade em acertarmos a logística familiar para ir aos encontros; ela sempre gostou muito de dormir, o que intensificou-se bastante na gestação, então acordar cedo em pleno domingo dificultava as coisas. Mas, depois de termos a consulta, conseguimos ir ao encontro pela primeira vez, e lembro como se tivesse sido ontem. Chegamos um pouco atrasados, mas ainda durante a rodada de apresentações, então o casal que estava logo antes de nós se apresentou com uma história bem parecida à nossa, e o pai concluiu sua apresentação dizendo:

– … E estamos aí para dar suporte na minha mulher sobre o parto. Só não rola parto em casa.

“Taí, gostei desse cara”, pensei com os meus botões. Anne se apresentou, contando brevemente a nossa caminhada até o momento, então quando chegou a minha vez de falar, não precisei dizer muita coisa, a não ser:

– Oi, meu nome é Thiago, marido da Anne, pai do Dante, e tô com o meu amigo aqui. Parto domiciliar, tá maluco!

Ah, a ironia da vida. Se a expressão “morder a língua” fosse literal, hoje não teria metade dela.

A Anne já havia lido alguns relatos e assistido a alguns vídeos de partos domiciliares. Ela sabia que isso era o que ela queria, principalmente pelo problema que ela tem com hospitais. Mas esse era um assunto dificílimo para mim, acho que eu ainda estava tentando digerir tudo o que me foi revelado, em relação ao parto. Eu, engenheiro, metódico e amante de números, não conseguia aceitar o parto em casa.

– Então, amor, você sabia que a maioria dos trabalhos de parto dão uma empacada quando a mulher chega no hospital?

– Como assim?

– Você sabe, todo aquele ambiente estéril e hostil do hospital. Muitas mulheres travam até se reacostumarem ao ambiente.

– Hmmm, verdade, faz sentido.

– E você sabe que eu tenho problemas com hospitais, e que o ideal mesmo seria ficar em casa mesmo.

– Como assim, tá maluca?

– Mas amor, sério, é a melhor possibilidade, imagina: o Dante nascendo em casa, no conforto do lar!

– Ah, claro. Daí a gente fica cantando “kum bay ya, my Lord, kum bay ya”, fuma uns baseados, sobe numa árvore e você pare o Dante? Tá maluca?

– Claro que não, né? Uma equipe acompanha a gente, e tudo ocorre naturalmente.

– E você sabe como eu tenho problemas com essas coisas de sangue… Eu nem consigo assistir Dr. Hollywood direito. Você quer um corpo estirado no meio da sala?

– Não é assim, não vou fazer uma lipo.

– E se der problema? Como faz? Não, não, tá doida.

– A gente poderia conversar com pessoas, sei lá.

 – Tá maluca, parto em casa? Jamais, pode esquecer. Você acha que somos ‘hippies’?

Extremamente preconceituoso? Sem dúvida, mas normalmente preconceito e ignorância andam de mãos dadas. E desses dois crimes eu sou réu confesso. Poderia muito bem vir aqui, contar uma história bonita de como eu topei parto domiciliar logo de cara, e de como foi tudo lindo. Mas acho que a jornada de transformação à qual me submeti é muito mais linda.

Nós discutimos bastante sobre isso, e quase sempre eu ficava nervoso. Estava preso em um ciclo vicioso de medo e falta de conhecimento, que era praticamente impossível de sair. Ela havia entendido que tratava-se de um limite real, e que eu não conseguiria vencer aquilo, então dentre todos os cenários de parto existentes, um parto hospitalar humanizado não era de todo ruim. Ela deixou de falar sobre isso, mantendo tudo como um desejo dormente. Agora, você deve estar pensando sobre quão horrível foi a atitude da Anne, de mulher submissa, que não lutou pelo seu parto. Lamento, mas não vemos isso deste jeito, porque nosso relacionamento sempre foi (e é) baseado na parceria, onde os dois estão sempre juntos, decidindo juntos e respeitando os limites um do outro. De uma maneira geral, os dois precisam convergir em determinado momento. E acho que era esse o caso: estávamos em momentos diferentes.

Uma mudança dessas requer que tudo seja sacudido dentro de você. Requer que você questione tudo o que você (pensa) que sabe. Você precisa olhar para dentro e para trás, repensar tudo. Resolver conflitos e vencer medos. É engraçado ver que, culturalmente, como sempre tentamos nos preparar para tudo o que pode dar errado, muitas vezes esquecemos que as coisas podem simplesmente dar certo.

E é aí que um livro entra. O livro que mudou tudo.

Em um belo dia, tive que fazer uma viagem a trabalho para o Paraná. Era uma dessas viagens que você vai e volta no mesmo dia, e tratando-se do local, a viagem estaria repleta de voos cheios de escalas. Para aproveitar o tempo, decidi levar comigo o livro “Parto com Amor”, de Luciana Benatti e Marcelo Min, onde eles contam a trajetória de nove mulheres (incluindo a autora) para terem seus partos desejados. É um livro pequeno e cheio de fotos (quem não ama livros com fotos?), então seria bem fácil lê-lo durante a viagem.

E a cada relato, um soluço disfarçado para os colegas de trabalho não perceberem nada. A cada desfecho, a cada choro engolido, uma parede caía. A cada história, o coração amolecia. Mitos se desmistificavam, conflitos internos eram resolvidos. E a cada página, eu ia me segurando, dialogando comigo mesmo.

– Hmmm, parto hospitalar humanizado… Banheira, bacana… Mas sei lá.

– Parto em casa, legal… Mas também, né? Com uma banheira de hidromassagem dessas, parir em casa é mole!

– É, realmente, parto domiciliar é bacana. Acho que o próximo filho já pode rolar assim…

– Cara, eu também quero um parto domiciliar. Dante vai nascer em casa!

Poucas vezes na minha vida eu senti essa sensação tão libertadora. Eu queria me teletransportar de volta para casa, falar com a Anne. Eu queria sair correndo por aí, gritando. Mas só cheguei em casa às 23:00.

– Amor, precisamos conversar.

– O que foi?

– Então, eu li o livro. Eu também quero um parto domiciliar.

Acho que nada surpreendeu tanto a Anne quanto isso. Ela já tinha entendido a minha limitação e nunca esperava qualquer mudança. Quando ela soube, comemoramos, brincamos e começamos a planejar. Encontramos a equipe mais linda do mundo que poderia assistir o parto domiciliar da Anne, o ginecologista obstetra aceitou ser o médico de referência, no caso de emergências, e contratamos uma doula, porque era o que parecia ser o mais acertado, considerando o novo cenário de parto.

Hoje, eu sei que era apenas uma questão de tempos diferentes. A Anne, por causa da natureza agindo em seu corpo, tinha a sensação de urgência para resolver as questões de parto, então ela estudava incansavelmente e pensava bastante sobre o assunto. Eu, por outro lado, já tinha um duelo interno a vencer, sem grande senso de urgência, porque para mim as coisas se consolidavam mais devagar. Se você sente isso também, não fique mal. Pessoas têm tempos diferentes e isso é perfeitamente normal.

Mudanças como essas podem ser lentas e dolorosas, mas basta estar disposto a aprender e refletir, que as coisas virão naturalmente. Ou você esqueceu do que eu andava dizendo por aí?

– Tá maluca, parto em casa? Jamais, pode esquecer. Você acha que somos ‘hippies’?

Dante nasceu em 11 de dezembro de 2012. Em casa.


O autor deste blog é atualmente tido como procurado por diversas livrarias do Rio, por cometer o terrível delito de sempre deixar o livro “Parto com Amor” nas prateleiras de destaque, por cima de todos aqueles livros enfadonhos de encantadores de bebês, mãezinhas e adoradores de cesárea.

Se você algum dia falar sobre isso, desmentirei veementemente.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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