O Que a Palmada Ensina? Por Que as Pessoas Defendem Tanto a Palmada?

"A palmada ensina muita coisa sim, mas provavelmente não é o que você imagina. Como interromper o ciclo de violência, e será que palmada é violência mesmo?"
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Se você cometer o mesmo erro que eu e ler alguns comentários na internet em qualquer postagem sobre palmada, você vai se deparar com falas assim:

— Gostaria de saber que fim teria o mundo se não houve uma boa palmada aquele que não fosse advertido uma vez.

— Um tapa na bunda como último recurso, quando todas as demais tentativas falharam às vezes é necessário.

— Levei muita palmada e lapada dos meus pais. Hoje sou homem digno na sociedade, palmada não machuca.

— As crianças funcionam como cachorros. Em últimos recursos é necessário sim algum contato físico para educar, mas não “espancar” todo dia.

— Palmada é bem diferente de espancamento. Palmada tem momento certo, idade certa e medida certa.

Não existe essa de “eu apanhei e está tudo bem”. Essa frase já é a prova de que não está tudo bem, porque ela demonstra como a violência se naturalizou dentro do agredido, perpetuando o ciclo de violência através das gerações.

Ninguém merece apanhar, ninguém merece ser agredido, ainda mais uma criança. Mas vamos à pergunta central:

O que a palmada ensina?

Sim, ela ensina 4 coisas quena criança vai levar para o resto da vida, inclusive sua vida adulta.

  1. ela ensina que, em uma discussão, o mais forte ganha.
  2. ensina também que, em uma disputa, é aceitável usar da violência.
  3. ensina, por consequência, que se a mesma mão que oferece amor também oferece dor, que a violência é uma forma de expressar o amor.
  4. por fim, ela ensina a naturalizar a violência.

Agora, pegue esses quatro ensinamentos que são aplicados diariamente em tantas crianças, e transfira isso para o mundo adulto. Por que você acha que a violência é tão naturalizada hoje em dia?

É nosso papel lutar para que a infância esteja cada vez mais afastada da violência e, por isso, precisamos ter um papel ativo contra qualquer tipo de conteúdo que veicule violência contra crianças.

Entendendo os defensores de palmadas

É curioso como uma parte das pessoas sempre defende com unhas e dentes a palmada, quando esta é a pauta da discussão.

Por isso, eu gostaria de conversar com você sobre o que leva uma pessoa a defender com tanto empenho a palmada, utilizando argumentos como:

— Palmada é palmada, é leve e não é nem violência. Não é como se estivéssemos espancando a criança.

— Eu apanhei e tô aqui, vivo e muito bem.

— Se não apanhar em casa, vai apanhar no mundo e será bem mais grave.

Eu entendo que é muito difícil para as pessoas reconhecerem que palmada é violência, e esse é um dos pontos mais difíceis do processo de quebra do ciclo de violência.

Entender isso pode ser dolorido, porque leva uma pessoa que apanhou a vida inteira à conclusão inevitável e precipitada: que seus pais não os amavam.

Os pais que não amavam seus filhos

Claro, não somos uma legião de filhos cujos pais nos odiavam (não a princípio), mas entender a palmada como algo danoso também passa por entender que os nossos pais fizeram o melhor que podiam, com a informação que tinham, e no contexto social-histórico em que estavam inseridos.

Não é questão de perdoar ou não, isso requer muita terapia, mas de criar consciência sobre o que ocorreu com você. E quando você entende isso, está mais perto de quebrar o ciclo de violência.

Além disso, claro, existem as pessoas que já batem em seus filhos, e se deparar com essas informações também é dolorido, porque coloca em cheque o seu amor pelos seus próprios filhos. E nós amamos os nossos filhos, não?

Sim, claro. E justamente porque você ama o seu filho que você deveria se comprometer a empregar os seus esforços para quebrar esse ciclo, buscando mais informações, ajuda profissional, criando novos combinados.

É difícil à beça, eu reconheço, e requer um trabalho diário para que se mude um contexto de violência, mas se existe uma coisa que devemos concordar aqui é isso: nossas crianças merecem e valem esse esforço da nossa parte.

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Comentários

  • Junior Sousa disse:

    Cara, sou pai e pretendo nunca bater na minha filha.
    Contudo isso é uma zona cinza para mim, pois tudo o que você falou sobre o que a palmada ensina são coisas que vemos ao nosso redor e, gostando ou não, é assim que o mundo funciona. Os casos 1, 2 e 3 são verificáveis em praticamente todas as relações humanas e, para mim pelo menos, o motivo disso tudo é o 4: nós somos naturalmente violentos, violência não é algo que nós “naturalizamos”, para ser sincero eu não sei de onde partem da premissa de que nós somos alguma derivação da idéia do “bom selvagem” quando nascemos.
    Então se passamos a aceitar a violência como parte de nossa natureza, entendo que o nosso papel é aprender não apenas a controlá-la, mas principalmente como aplicá-la.
    Duvido que alguém vá realmente contestar isso, a não ser que queira usar o Jardim do Éden como exemplo.
    Quer dizer então que bater, palmada é algo certo? Não mesmo, mas também é algo que deve ser abolido? Também não acho que seja o caso, haja visto que não me faltam exemplos de pessoas que reconhecem a importância de terem apanhado como formação de seu caráter (novamente reforço que não estou fazendo juízo de valor, apenas reproduzindo o que ouvi), até mesmo como trauma que “ajudou” a ter mais prudência e coisas do tipo.
    Pessoalmente eu apanhei na minha infância, mas de uma forma muito diferente de como a maioria das pessoas me contaram. Minha mãe era quem batia e só depois de explicar o motivo e que essa era a punição que ela precisava tomar. Havia método (cinto e sempre batia nas pernas). Era quase uma audiência pública, tipo pelourinho, sei lá…
    Hoje entendo que muito das coisas que irritam os pais vem mais do medo do julgamento dos outros adultos que necessariamente da criança, assim como muitas vezes o sentimento de ser desafiado ou a frustração de perceber que não temos total controle sobre os atos dos nossos filhos são gatilhos para agressão muito mais fortes que necessariamente a ação da criança, por isso eu reitero a necessidade de auto conhecimento e controle da nossa violência natural. Jamais irei dizer que “basta usar o bom senso”, isso não existe.
    Assim como não acho que abolir a palmada seja necessariamente algo bom, pois certamente existirão casos onde a agressão servirá para a formação das pessoas, bem como defesa (afinal não são poucos casos de crianças que manifestam violência também).
    Acho que me prolonguei demais, mas fica aí minha impressão.
    Gosto de muita coisa do seu conteúdo, tenho as minhas ressalvas, essa é uma delas inclusive e é isso.
    Vlw

  • marcio edefonda disse:

    a discussão sobre a palmada e tão polemica, nos últimos a ciência desmoralizou a palmada, hoje por mais que exista milhares de defensores desse método de educação, a psicologia a neurociência derrubaram qualquer argumento a favor desse tipo de metodologia, a palmada causa problemas de aprendizagem, o pai que bate no filho achando que está fazendo uma coisa boa, porém traz maleficio ao filho pois estará prejudicando o desempenho escolar da criança, fazendo com que esta demore mais para aprender o conteúdo escolar do que a criança que nunca apanhou. outro estudo demostra que os castigos corporais deixam a criança vulnerável a violência sexual, ou seja essa forma de educação é um perigo para os pais, o que ajuda muitos pais a acreditar que da uma surra é uma forma de boa educação são as apologias feitas por religiosos, alguns avós aconselham a dar uma surra, foram as informações vinda de pessoas de fora a qual tentam se intrometer na forma de educação dos pais, dando conselhos inadequados como a palmada. para mudar essa cultura vai demorar anos, primeiro porque a mãe que faz o pré-natal não participa de palestra na qual é passado informações verdadeira sobre os malefícios da palmada, se todos as mães e pais soubesse dessa informação ficariam chocados em saber o quanto esse tipo de técnica e nociva, ficariam assustado com tudo que conheceria sobre o ato de dar uma surra como por exemplo; bater de cinto, dar chinelada, dá uma palmada, da um tapa, acabariam observando que essa formula não ensina nada, que o sujeito nunca aprende nada só fica com medo, e que na fase adulta atrapalha nas relações profissionais, pois desenvolve no adulto problemas de comunicação no trabalho, além de criar ciclo de violência, pode causa depressão nos adultos a tão famigerada palmada, fora que pode desenvolver comportamento antissocial, e causa problemas de saúde mental. a criança passa a acreditar que o mundo é um lugar de ameaça, ou seja esse segmento não serve para educar seres humanos.

  • Laís Pim disse:

    Que texto tão bom, pessoal! Parabéns pela abordagem do tema!

  • Thiago Queiroz

    Thiago Queiroz

    Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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