O Teste do Autocontrole – Ou Seria Teste do Autoritarismo?

"O teste do autocontrole ou teste do chocolate, é um desafio que viralizou. Mas será que mede autocontrole ou apenas o medo que a criança sente dos pais?"
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O teste do autocontrole, ou teste do chocolate, é um desafio que está por todas as partes nas redes sociais.

Basicamente, é um desafio onde o pai ou mãe da criança coloca um chocolate — ou doce qualquer — na frente dela e diz que vai sair, mas que a criança não pode comer aquele doce. As possíveis reações da criança podem ser diversas, como passar o dedo no doce e lamber o dedo, comer o chocolate, ou aguardar ansiosamente.

Esse “experiência” é gravada e, então, postada nas redes sociais para todo mundo assistir. A maioria esmagadora das pessoas acha isso tudo muito fofo, curte, comenta e já saí correndo para fazer com seus próprios filhos.

Eu devo admitir, eu não fazia a menor ideia do que era esse desafio, mas com a quantidade imensa de comentários e mensagens de pais e mães pedindo a minha opinião sobre esse teste, eu resolvi me aventurar nesse mundo.

E foi observando a reação das pessoas que eu gostaria de fazer uma pergunta que ninguém está fazendo.

Qual é a motivação disso?

Autocontrole da criança ou autoritarismo do adulto?

Para início de conversa, nós somos pais. Portanto, não deveríamos fazer experimentos por aí com os nossos filhos. Experimentos precisam ser conduzidos por pesquisadores e o simples fato de um pai ou mãe — alguém que, a princípio, tem um vínculo com a criança — realizar o experimento já invalida o resultado, porque não se mede autocontrole nenhum da criança.

Sabe o que esse teste mede? Na melhor das hipóteses, mede o nível de autoritarismo — ou medo, escolha a melhor palavra — que existe na sua relação com o seu filho.

Assistindo a alguns desses vídeos, eu percebi que ficavam muito ansiosas, diante do dilema de obter um prazer imediato — comer o doce — e do medo da consequência disso. Por consequência, entende-se punição. A criança que recebe uma disciplina autoritária, tradicional e punitiva, vai entrar em conflito por conta dos desdobramentos que seus pais empregarão, caso ela “sucumba” ao desejo.

Agora, pense comigo, se você fosse essa criança. Você deixaria de comer um doce porque tem autocontrole ou medo? Você e eu sabemos que a resposta é a última opção.

Vamos expandir, agora, a reflexão: se você fosse essa criança e soubesse onde tem mais desses doces, você talvez cogitasse comer o doce e colocar outro no lugar. Entretanto, você está sendo filmado, então essa opção não ajudaria muito.

Independente do que você faria no lugar da criança, nenhum desses casos mediria o seu autocontrole, só o tamanho do seu medo.

O experimento do marshmallow

Tudo indica que esse teste do autocontrole é uma variação extremamente esvaziada e sem propósito de um experimento famoso, conduzido no final dos anos 60 e início dos anos 70, e é conhecido como experimento do marshmallow.

Essa, na verdade, é uma série de estudos conduzida pelo psicólogo Walter Mischel, com o objetivo de entender a capacidade de crianças para adiar recompensas. Resumidamente, a criança era apresentada a um pequeno doce, como o marshmallow, ou um biscoito. O pesquisador diz à criança que ela pode comer o doce, mas se ela esperar o pesquisador voltar em 15 minutos, ela ganharia mais um doce.

Como resultado, algumas crianças conseguiam esperar, mas outras não. Os pesquisadores, então, acompanharam essas crianças ao longo dos anos e notaram que o desempenho escolar das crianças que conseguiram esperar era maior do que as que comeram logo o doce, fazendo uma associação entre autocontrole e performance das crianças.

Por outro lado, estudos mais recentes também questionaram esses resultados, como um realizado em 2012 na Universidade de Rochester, onde as crianças foram divididas em grupos em que a promessa do marshmallow adicional poderia ser falsa. Em resumo, entende-se que o fator “confiança” é crucial na decisão da criança, mas isso é assunto para outro post!

Se você quer ler mais sobre, deixe um comentário que eu aprofundo os desdobramentos do experimento do marshmallow.

E se você chegou até aqui, por favor, não faça mais desafios com os seus filhos. A não ser que você queira medir o tamanho da sua influência autoritária sobre seu próprio filho.

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Comentários

  • Ramon Saldanha disse:

    Ache muito válido sua análise. Acrescentaria alguns parâmetros que julgo serem relevantes ao se analisar a dinâmica em questão.
    Eu consideraria o nível de desenvolvimento cognitivo da criança, que pode já ter condições de ponderar se vale a pena ou não executar determinada ação.
    Também consideraria o tipo de relação que os responsáveis constroem junto a essa criança. Pode ser que o medo não seja o sentimento que emerge.
    Independente disso, sou contra este tipo de dinâmica.
    Parabéns pela postagem.

  • Elisa disse:

    Gostei da sua análise desse desafio que na verdade parece mais para a mãe (não vi nenhum pai fazendo o teste) exibir como sua criança é capaz de se conter. Sabe, a fala de muitas mães me preocupou por que parecia manipulação usando a figura de autoridade natural de um genitor.

  • Thiago Queiroz

    Thiago Queiroz

    Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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