Parto, Amor e Sucrilhos, Um Relato de Pai

"Essa é uma pequena parte da história de um casal de amigos nossos. Eles já têm uma filha linda, amiga de aventuras do Dante, que nasceu em casa também. Eles engravidaram e, como se pode esperar de alguém que já pariu em casa uma vez, o segundo parto foi em casa também. Este é o relato de parto pélvico, pelo ponto de vista do pai."

Parto, amor e sucrilhos… Ficou confuso com este título? Fique tranquilo que, ao final, tudo fará sentido! Cada relato de parto é especial à sua maneira e este foi especial em muitos aspectos.

O que você vai ler abaixo é o relato de parto de um pai e amigo, Gustavo. Só que não é um relato na íntegra, e sim um relato adaptado, porque é um relato de Whatsapp. Ficou mais confuso ainda? Calma, eu explico! Em tempos de modernidade e acesso fácil à tecnologia, quem está longe parece que está perto e quem está perto parece que está do lado, pertinho. Nós acompanhamos esse parto pelo que a família ia nos dizendo no Whatsapp, e depois o Gustavo fez o relato por lá mesmo.

Essa é uma pequena parte da história de um casal de amigos nossos, na verdade, uma família de amigos com direito a duas irmãs, dois maridos, uma mãe e uma criança. Grandes, grandes amigos. Eles já têm uma filha linda, Olga, de 1 ano e 10 meses. Ela a amiga de aventuras do Dante e também nasceu em casa. Então, Juliana engravidou e, como se pode esperar de alguém que já pariu em casa uma vez, o segundo parto seria em casa também. Dificilmente você encontrará uma mulher que já pariu em casa escolher parir em um hospital por conta própria. Na verdade, isso é bem interessante porque a primeira vez que a mulher anuncia um parto domiciliar planejado, a reação comum é a de comoção:

– Nossa, mas como assim? Você é doida? Vai ter bebê em casa???

Essa mesma mulher, anunciando a segunda gestação, mesmo que ela nem mencione o tipo de parto que ela deseja, deve ouvir algo como:

– Ah, e você vai tentar fazer aquela coisa de parto em casa, né? Ah, tá bom…

Voltando a essa família amiga, o parto em casa foi totalmente planejado, com acompanhamento pela equipe de parto e equipe de referência. Gestação normal, sem nenhuma complicação. Só que, lá pelas últimas semanas de gestação, o bebê ficou em posição pélvica. Se você não sabe o que isso significa, o bebê em posição pélvica é um bebê que fica de cabeça para baixo. Na verdade, cabeça para cima. Explicando melhor, enquanto que a posição cefálica é a normal e desejada, onde a cabeça do bebê fica encaixada no ventre da mãe, na posição pélvica, o bebê fica com o bumbum virado para o ventre da mãe.

Não pretendo me aprofundar muito na discussão sobre o parto pélvico, pois esse é um relato de parto da visão do pai. Então, vou apenas dizer que uma gestação com apresentação pélvica não é indicação para cesárea. O problema é que, se os médicos hoje não têm preparo suficiente para assistir um parto normal com apresentação cefálica, eles não possuem nenhum preparo para assistir um parto pélvico. Portanto, o parto pélvico só pode ser acompanhado por equipe experiente e se esta for a decisão da gestante (para maiores informações, leia este post do GAMA e este outro da Dra. Melania Amorim).

Pois bem, a Juliana decidiu seguir com o parto domiciliar pélvico. Lis nasceu no dia do meu aniversário, em um trabalho de parto que durou 6 horas. Essa vida que não cansa de nos dar belos presentes, né?

Eis o relato do que o pai presenciou em uma experiência repleta de apreensão, amor e… Sucrilhos.

O Relato do Pai

Estávamos eu, Juliana, a fotógrafa, a parteira, sua assistente e a doula no banheiro. Eu e a fotógrafa estávamos na frente e o resto estava atrás da Juliana. Aquele banheiro apertado nunca pareceu tão acolhedor, com tanta gente ao mesmo tempo!

Eu cheguei lá praticamente no finalzinho. Entre eu entrar e a Lis nascer, deve ter dado uns 15 ou 20 minutos, suponho. Mas não sei se viajei na noção de tempo enquanto estive lá dentro também. Quando cheguei, ela estava no chuveiro, sentada na bola de pilates. Esperei a contração terminar e ela pediu para abrir a porta do chuveiro. Fiquei esperando o que ela iria pedir.

Ela pediu sucrilhos.

Depois fui saber que ela tinha pedido sucrilhos mais cedo, outras vezes, para a doula. Ela disse que sentia como se estivesse em um presídio, porque a Juliana ficava no box sozinha e trancada mas, de vez em quando, abria a porta pegar sucrilhos com a doula, e então fechava a porta novamente.

Aí ficava nessa. Abre uma frestinha, dá sucrilhos, fecha, espera.

Depois de dar sucrilhos para ela, aguardamos mais uma contração, e ela pediu para a doula nos deixar a sós. A doula saiu e ela disse que iria para o vaso. Peguei uma toalha, esperei mais uma contração, ela fechou o chuveiro, se cobriu com a toalha e fomos ao vaso, que fica ao lado do box.

Ficamos um tempinho ali e, quando vinha uma contração, ela ou segurava na minha mão, ou soltava e segurava atrás no vaso, ou me abraçava. Ficava alternando entre esses três cenários, mas ficamos um tempo sozinhos.

E então, a parteira entrou para ver como estavam as coisas. A fotógrafa entrou também e começaram a acontecer essas interações de contração no vaso. Eu na frente da Juliana, e a fotógrafa à minha direita, na parede. A parteira saiu, mas depois voltou perguntando para a Juliana se dava para ela fazer o combinado.

Não fazia a mínima ideia do que seria o “combinado”, daí fiquei só observando.

Foi daí que a equipe chegou com toalhas, colocaram-nas no chão, de frente para o vaso, e pediram para a Juliana ajoelhar de costas para elas. Eu e a fotógrafa ficamos no final do banheiro, entre a Juliana e a parede, de frente para ela. Ficaríamos nessas posições até o final.

Assim que veio a contração, Juliana me agarrou e ficamos abraçados. Ela estava como se fosse em 4 apoios, mas com o corpo jogado em mim, ao invés de se apoiar com as mãos no chão. Nesse momento, Olga (nossa filha mais velha) já tinha acordado e estava assustada com os gritos da Juliana, provavelmente cheia de preocupação. Mas alguém estava confortando ela: a família. Tios e avós estavam do lado de fora do banheiro, se encarregando de confortar a pequena Olga.

Em algum momento, a mãe da Juliana chega. Na verdade, ela apareceu na área de serviço (tem um passagem de ar entre o banheiro e área), falando toda chorosa:

– Gente, pelo amor de Deus, me deixa ver a minha filha.

Nesse momento, todos desesperamos.

Juliana respondeu:

– Fica aí, mãe.

Mas ela é muito emotiva e impulsiva. Logo depois, ela abriu a porta do banheiro e disse:

– Tô aqui, meu leãozinho!

E fechou a porta. Acho que foi o suficiente para dar um alívio de ver a Juliana, pelo menos. Ficou mais calma e foi com a família lá fora.

Voltando à programação normal, mais contrações, cada vez mais fortes. Juliana urrava, Olga lá fora chorava e a vizinha que berrava sempre com os filhos se calou. Eu estava ligado só na Juliana, e como estava com o corpo jogado em mim, ficou com as mãos livres. Por isso, não percebi quando Lis já estava saindo.

Só ouvi a parteira falando para a Juliana:

– Tira a mão! Não puxa!

E Juliana disse:

– Mas tá doendo para caralho!

Toda a equipe, mais a doula, falavam em coro para a Juliana tirar a mão. A parteira impediu que ela puxasse, tirando as mãos dela de tocar a Lis. Acontece que, em um parto pélvico, é proibido tocar no bebê até que ele tenha saído totalmente da mãe, devido ao reflexo que todos os bebês têm de levantar os braços, o que pode complicar muito toda a coisa.

Foi aí que eu vi: bumbum, xixi caindo na toalha e as costas de um bebê pendurado.

Meio minuto depois ela saiu de vez. Não sei a ordem em que os membros saíram, porque vi de costas e com parte do corpo da Juliana na minha frente. Eu fiquei me inclinando pra tentar ver, mas com medo de não conseguir mais dar apoio para a Juliana.

Quando saiu, Juliana gritou:

– Aaaai meu Deeeeus!

Aí ouvi gente lá fora gritarem:

– Ih! Nasceu!!!

Chorei, todas chora.

Juliana pegou ela, colocou no colo. Parteira e doula deram fraldas e uma manta com aquecedor. Foi engraçado entrar na perspectiva de quem estava de fora acompanhando pelos sons. Ri, feliz que notaram.

Depois de coberta, ela abriu para ver. Eu nem tinha parado pra pensar nisso na hora, mas nós não sabíamos o sexo do bebê ainda, e era menina! Ela viu, olhou para mim e disse:

– Haha, eu sabia.

Ela levou uns 5 segundos para começar a chorar.

Depois alguém trouxe a Olga. Viu, chorou, ficou irritada. Queria meu colo. E então, a frase mais falada a partir desse momento por ela foi:

– Não petchidja choláá. (Não precisa chorar, em Olguês)

Mas chorando, claro. Depois eu acalmei-a:

– Olga, fala o que você quer.

Ela apontou para a pia e falou:

– Tchuquilho. (Sucrilho, em Olguês)

O pote estava ali. Coloquei ela no colo, ela chorou um pouco, mas se acalmou comendo sucrilhos.

 

E se você já se emocionou com o relato, pode agora ver também o vídeo do parto:

 

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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