Sabe quando você sempre tem certeza de uma coisa, quando você sempre pensa ter tudo resolvido e entendido dentro da cabeça até que acontece para valer? Acontece, te dá uma rasteira e te mostra que as coisas não estavam tão bem resolvidas assim.

Foi isso que aconteceu nesse último fim de semana. Dante costuma acordar cedo, por volta das 7 ou 8 horas da manhã, e eu sempre levanto com ele para curtir a manhã, enquanto que a gente deixa a Anne dar uma esticada no sono. Afinal, ela merece, né? Cuidando do nosso bebê a semana inteira sem parar, merece toda a folga que a gente puder dar, né?

Dante hoje tem uma mania divertida de se enfiar entre as coisas. Sabe aquele espacinho entre a rack da televisão e a parede? De repente ele está lá, rindo para você, todo serelepe. Espacinhos assim são a diversão para ele, talvez por não conseguir andar por conta própria, ficar nesses espaços deve dar uma boa sensação de quase andar.

E ele estava bem assim, só que entre uma mesinha baixa e a parede. Passava para lá e para cá, brincando comigo, até que ele escorregou pelo espacinho. Foi descendo em câmera lenta, muito lenta, pela fresta entre mesa e parede. Enquanto ele descia, eu me projetava para segurá-lo, mas eu também me movia em câmera lenta. Meu braço também não esticou tanto quanto eu gostaria que ele pudesse esticar.

Em câmera lenta, vi o Dante batendo o queixo com força moderada na mesa. Durante a pancada, mordeu e cortou a língua. Lágrimas e gritos de dor vieram na mesma hora, a câmera agora não era mais lenta, mas acelerada. Era como se eu tivesse conseguido romper o feitiço que me fazia mover lentamente e agarrasse o Dante no meu colo, levantasse e começasse a consolá-lo. Tudo muito rápido.

Quase imediatamente, a Anne também já tinha acordado e estava ali, pronta para ajudar o Dante. Contei o ocorrido e Dante foi para o colo dela. Chorava muito, muito mesmo. Mas quem não choraria, né?

E eu chorei também. Chorei porque me senti culpado, porque não estava mais perto, porque não fui rápido o suficiente e porque meu braço não era elástico. Chorei porque não pude evitar que meu filho se machucasse de verdade. Não que o Dante nunca tivesse se machucado, mas essa foi a primeira vez que eu senti que eu poderia ter impedido isso.

O Dante ficava alternando colos entre eu e a Anne, mas eu comecei a perceber que eu estava muito abalado emocionalmente para conseguir acalmá-lo, e então achamos melhor deixar ele com a mãe. Mamou bastante, ah, essas tetas com poderes especiais que confortam e alimentam… Demoramos um pouco para consolá-lo, e além disso, a Anne teve que se desdobrar para consolar filho e marido. Os dois se debulhando em lágrimas. Que mulher, que mãe.

A cena ficava se repetindo na minha mente e dormi pensando nisso. Mas eu sei que eu preciso passar por isso, eu preciso vencer essa etapa para ajudar meu filho. Quando ele se machucar, vai precisar de um pai que o console e acalme. Isso não é possível se você esta desesperado e abalado. O engraçado é nós sempre achamos que eu seria a pessoa a manter a calma em situações como essa, enquanto que a Anne se desesperaria.

Eu sei que eu não vou conseguir proteger o Dante de tudo. Eu tenho plena consciência disso, e sei que isto é algo perfeitamente normal e saudável para o próprio desenvolvimento dele. Só que sentir isso na pele assim, pela primeira vez, sem nenhum aviso prévio, é duro. Tudo que eu li, aprendi, entendi já tratava dessas questões, mas na hora da verdade é que a coisa pega.

Essa coisa de viver a paternidade.

É duro quando a ficha cai, e você percebe que não é um super-herói.