Algumas etapas na vida de pais e bebês são caracterizadas pela neurose, principalmente para os pais de primeira viagem. Eu tenho que admitir, nós ficamos meio neuróticos na época da introdução aos sólidos.

Todo mundo sabe que, quando o bebê fizer 6 meses de idade, os pais precisam começar a introduzir sólidos na alimentação dele. Mas como assim? Como faz? É exatamente aos 6 meses? Tipo, exatamente no dia do aniversário de 6 meses? Como funciona isso? Esse tipo de pergunta acaba gerando uma ansiedade desnecessária em muitos pais de primeira viagem.

Para início de conversa, é bom ter dois pontos bem definidos na mente:

  • a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde recomendam aleitamento materno exclusivo por 6 meses e complementado até 2 anos ou mais (1); e
  • até 1 ano de idade, o leite materno deve continuar sendo a principal fonte nutricional do bebê.

Por causa disso, por algum tempo, chegamos a cogitar a amamentação exclusiva estendida. Ou seja, assim como a Mayim Bialik fez, o Dante seria amamentado exclusivamente até o primeiro ano de idade. De alguma forma, imaginávamos que estaríamos protegendo ele de uma provável exposição desnecessária a certos alimentos, principalmente pelo fato de ele ter alergia à proteína de leite de vaca (APLV). Essa condição já faz com que a dieta da Anne seja bastante restrita, devido à amamentação, e faria com que a dieta do Dante fosse igualmente restrita.

Mas isso também gerou uma série de outros questionamentos em nós mesmos, afinal de contas, como poderíamos impor uma decisão dessas para o nosso bebê? E se ele realmente quiser experimentar outros alimentos, além do leite materno? Por que nós não respeitaríamos os sinais e necessidades do Dante nesse quesito? E, de novo, qual é a dessa história de introduzir sólidos aos 6 meses?

Praticando a criação com apego, sempre buscamos a visão de entender e atender as necessidades do nosso filho. Então, para a introdução aos sólidos não poderia ser diferente. Foi então que buscamos mais informações e descobrimos que é recomendado que os pais observem os sinais de que o bebê está pronto, não que nos baseemos em datas ou prazos (2). Quando nos demos conta disso, a nossa paranoia começou a diminuir e percebemos que deveríamos aguardar alguns sinais do Dante, como:

  •  conseguir sentar sem nenhum suporte;
  • perder o reflexo de sucção da língua, não mais empurrando o sólido para fora da boca com a língua;
  • demonstrar vontade de mastigar;
  • desenvolver o movimento de pinça, conseguindo pegar comida e objetos com o polegar e o indicador; e
  • demonstrar vontade de participar das refeições e tentar agarrar a comida para por em sua boca.

É importante deixar claro que o seu bebê não precisa atender a todos os itens acima, afinal de contas, nada na vida é um checklist. Mas eles servem como um bom indicador do desenvolvimento do seu bebê para a introdução de sólidos. Além disso, servem para acalmar você (e todos os pitaqueiros de plantão) caso o seu bebê não comece a se alimentar de sólidos assim que fizer 6 meses.

Em paralelo, começamos a nos informar sobre uma prática chamada Baby Led Weaning (BLW), o que, traduzindo, seria algo parecido com Desmame Orientado pelo Bebê. Desmame pode parecer uma palavra forte, mas é bem apropriada, porque é considerado que o desmame inicia assim que os sólidos são introduzidos. Apesar de o BLW não ser uma recomendação direta da criação com apego, é uma prática muito interessante, pois promove o respeito ao bebê no que diz respeito à comida e quantidade ingerida.

Ainda escreverei um post sobre BLW, mas por agora, basta dizer que nessa prática incentivamos o bebê a comer com suas próprias mãos os alimentos inteiros, ou em pedaços bem grandes. Nada de papinhas ou comidas processadas. Além disso, ele come aquilo que quer, na quantidade que precisa. Sem neuras, respeitando o bebê como respeitamos em tantos outros aspectos.

Todo esse estudo e preparação ocorreu antes dos fatídicos 6 meses do Dante. Queríamos saber de tudo e estar preparados para essa mudança na alimentação dele. Queríamos poder oferecer as melhores condições possíveis para que essa transição começasse da maneira mais gentil e respeitosa possível. Dante tinha 5 meses e meio, portanto estávamos bem próximos do tal marco e, por mais informação que tivéssemos, ainda restava aquela pontinha de ansiedade. Aquele nervoso na barriga do desconhecido, do que não se pode parametrizar. Como administrar tudo isso?

Era uma bela manhã de sábado, dia de Encontro com Apego, um encontro sobre criação com apego para pais e mães que promovemos regularmente no Rio. Esses encontros representam uma excelente oportunidade de dar um belo passeio, além de encontrar com outros pais que compartilham tantas coisas com a gente, seja em forma de pensar como até perrengues.

O encontro estava ótimo, como sempre: pais trocando experiências, bebês brincando nos tapetes. A conversa estava muito boa e o Dante estava ali no tapete, perto de nós, mas o papo engrenou e nos desligamos um pouco. Ele, que na época sabia virar e se arrastar, já conseguia ir de um lugar a outro com certa facilidade. Parecia uma lagartixa (ou taruíra, como a Anne diria), mas já tinha bastante mobilidade.

Foi então que, de repente, olhamos para o lado e ele estava se atracando com uma goiaba. Correção: ele estava se atracando com meia goiaba, porque a outra metade ele já havia comido. Ele havia se arrastado até a cesta de frutas, virado tudo no tapete, agarrado a goiaba e estava ali, devorando a fruta, com a cara toda suja. Mas feliz que só.

E foi assim que o Dante se introduziu aos sólidos. Sozinho, sem neuras, no tempo dele. Se nós soubéssemos disso antes, não teríamos ficado tão ansiosos. Às vezes, esquecemos que nossos bebês têm plena capacidade de saber o que querem.

 

Referências:

(1) SAÚDE DA CRIANÇA: Nutrição Infantil – Aleitamento Materno e Alimentação Complementar, Ministério da Saúde, 2009

(2) The Eight Principles of Attachment Parenting – Attachment Parenting International