Eu iria fazer o relato de parto mas achei mais apropriado começar antes. Eu aprendi que o parto é construído e conquistado em algumas etapas e não acontece de uma hora pra outra. Não tivemos uma gestação planejada, não éramos tentantes, mas foi muito desejada, querida, curtida e compartilhada.

A minha esposa já me contava sobre o parto humanizado bem antes de engravidar e estávamos decididos que nosso filho viria ao mundo de forma normal e respeitosa, com o mínimo possível de intervenções.

Confesso que o meu maior medo era vê-la sofrer violência obstétrica e não poder fazer nada para impedir. Foi aí que começamos a procurar uma equipe: obstetra, Doula e Nutricionista. Começamos o acompanhamento e a gestação estava tranquila, consultas maravilhosas. Sério! Uma hora dedicada a nós três com toda a paciência e informação para nos esclarecer e orientar. Profissionais assim fazem toda a diferença.

As vezes ela ventilava que teríamos o parto em casa e em uma destas falas avulsas eu topei. A partir daí marcamos a consulta com as parteiras. Preparamos o lanche da tarde para recebê-las em casa. Sim, as consultas foram todas em casa, no local onde seria o parto. Foi amor à primeira vista, pelo menos pra mim. Elas chegaram de mansinho papo vai, papo vem… e começaram a me lotar de perguntas sobre o Parto Domiciliar (PD):

 

“Você está preparado? Sabe dos riscos? Da possibilidade de transferência? De sequelas? Intercorrências? Óbito? Do bebê? Da mãe? Da culpa? Possibilidade de bullying? A família sabe? Apoia? E o que você pensa agora que te fiz todas estas perguntas e te dei todas estas explicações?”

 

Estava decidido! Todo apoio que a minha companheira precisasse eu iria dar. Não tinha problemas em assumir e defender as minhas (nossas) decisões e depois daquele dia eu fiquei seguro de que com aquelas mulheres nós teríamos o parto em casa e que, se fosse necessário, elas nos conduziriam para o hospital.

As nossas doulas foram duas: Marri e Aline. Eu não as conhecia. Insisti que precisava conhecer, afinal, a doula é aquela mulher que te ajuda a conquistar o parto desejado e te mune de informações para encher o obstetra e as parteiras de perguntas. Um dia numa feira de bebê eis que surge a tal Marri. A Isa a chama e diz “Este é o Digo, meu marido!” e ela me estende a mão.. sim, um aperto de mãos. Pra cima de mim não, Marri! Eu gosto é de abraço, beijo e catei ela num abraço apertado, ela ficou desconcertada, mas foi ali que selamos a nossa conexão. A Aline… ela definitivamente não tinha tempo e conheci pessoalmente no dia do parto. Ela é a alegria em pessoa e fala gírias adolescentes tipo “arrazôôôô” e “miga sua loka”.

Saí de férias e com a Isa já a termo (37 semanas) fomos para Pedra Azul, uma cidade a mais ou menos uma hora da nossa casa em Vitória-ES, para curtir nossa última lua de mel antes do neném. Sim, uma gestante saudável pode continuar a vida normal, passear e namorar. E sim, meu caro, manter relações sexuais, desde que não haja nenhuma limitação física ou que a mulher sinta alguma dor, pode ser uma ajuda extra para acelerar o início do trabalho de parto e eu me apeguei nisto.

Depois de três dias com bastante contrações de treinamento voltamos para casa e terminamos de preparar a lista de pendências do Parto Domiciliar e dormimos.

Domingo de manhã eu acordo com a Isa dizendo “Amor, acho que o Samuel vai nascer hoje. Parece que minha bolsa estourou e estou começando a sentir umas contrações com dor”.

Aqui acho que vale uma observação: Havíamos decidido não falar com os nossos familiares que o trabalho de parto tinha iniciado para evitar receber telefonemas e mensagens no WhatsApp, que seriam uma preocupação natural e legítima, mas que poderia gerar alguma pressão e atrapalhar o andamento do trabalho de parto.

Acionamos a equipe e como tinha estudado o material que a Doula me mandou lembrei que o trabalho de parto pode demorar muitas horas, até mesmo dias, eu fui a feira fazer compras. Comprei abacate e banana, na barraca do lado, a água de coco, e voltei pra casa… tentei cronometrar as contrações pra ver se estavam de 15 em 15, de 20 em 20, de 10 em 10, mas não dava. Os intervalos eram curtos demais 3min, 5min, 2,5min e também não dava para identificar um ritmo ou tendência. Estava rápido, mas bagunçado. Ainda não poderia ser o trabalho de parto expulsivo ou o ativo, era muito cedo. As dores ainda não eram tão fortes. Ela foi para o banho, dizem que banho quente alivia as dores e ajuda a engrenar o trabalho de parto se for realmente a hora. Enquanto isto eu conversava com a Doula no whatsapp e tentava explicar como estavam as contrações. Mas permaneceu esta (não)cadência durante toda a manhã.

Pouco depois de 12h as doulas e a fotógrafa chegaram e partir deste momento eu coloquei os celulares no modo avião e nos desligamos do mundo fora de casa.

Agora eu estava por completo ali, disponível e participando do trabalho de parto.

As contrações começaram a ficar mais doloridas, mas sem ritmo.

A Aline assumiu o controle da casa e refogou uma canjiquinha que estava na geladeira – foi o almoço da Isa, eu não almocei e isso me fez falta na madrugada.

A Telemi – parteira – chegou e foi auscultar o neném (ouvir o coração dele). Tudo ok com ele e como o trabalho de parto ainda estava latente (na fase inicial) ela se despediu “Vou ali abrir a roda de conversa sobre parto domiciliar e daqui a pouco eu volto”.

Na fase latente não há mesmo a necessidade de ter uma equipe completa nos observando. Eu não me desesperei, fui fazer aquilo que a Doula tinha me orientado “Fique junto dela! Ela precisa sentir você, saber que você está com ela e por ela.”

As contrações foram ficando mais intensas. Eu tentei fazer massagem, pressão na lombar.. alguma coisa que pudesse aliviar as dores, mas todo toque era rejeitado. Eu já imaginava que a Isa iria rejeitar, ela sempre rejeita toques ou carinhos quando está com dor, não seria agora que iria funcionar.

Neste momento as doulas perceberam que a Isa estava racionalizando e prestando atenção em tudo. Ela precisava se liberar, libertar a mulherão que existe dentro dela, deixar a natureza agir e foi aí que ofereceram uma venda. Colocaram a venda nela em cima da cama com uma bola de pilates e ali se foi quase uma hora em cima da cama rodando pra lá e pra cá, vocalizando. Já era o trabalho de parto ativo. Neste momento as parteiras estavam a caminho de volta para a nossa casa. Eu não falei antes, mas o Samuel estava cefálico dorso a direita que é uma posição que não impede em nada o parto, mas, teoricamente, isto faria o trabalho de parto ser mais demorado. Teoricamente, pois evoluiu muito rápido e logo as vocalizações e alguns gritos foram ficando mais intensos. Enquanto isto eu estava vigilante e enchendo a piscina com água quente para ela poder entrar.

Ela desceu da cama preocupada e me chamou

-Amor, eu não vou conseguir! Está doendo muito. Se isto ainda não é “de verdade” eu não consigo.

-Você vai conseguir sim! Nos preparamos tanto para este dia. Confia. Estamos todos aqui, eu estou aqui com você. Vai dar tudo certo. Vamos pra a piscina?

A piscina já estava meio cheia e eu sugeri que fossemos pra lá. A água quente relaxou um pouco e provavelmente foi ali na piscina que a bolsa rompeu.

-Quer que eu entre com você? – Eu já tirando a roupa, estava de sunga por baixo da bermuda.

-Não! Só eu.

-Beleza, estou aqui do lado. – Mas no próximo eu vou entrar!

Ela entrou na piscina e pouco tempo depois já estava com contrações bem fortes. Começamos a controlar a respiração enquanto as parteiras chegavam.

-Digo, respira com ela. Assim oh. Puxa….Sopra… – Marri

-Ok, vamos lá. Puxa bastante com o nariz, sopra com a boca. Isso, novamente.

-Tá doendo. O que eu faço? – Isa

-Faz o que seu corpo mandar. – Marri

-Ele tá mandando eu fazer força!

-Então respira, segura. – Marri

-Comigo, amor. Puuuxa…- Eu

A Uiara, parteira, chegou e com ela uma paz e uma segurança enorme. Me deu um abraço apertado na porta do quarto e disse que estava tudo bem. Foi auscultar o bebê.

Enquanto colocava o sonar na barriga e perguntava como a Isa estava veio a frase da Isa:

-Está ardendo!

A Uiara terminou de auscultar e disse

– Isa, tenta fazer o toque pra ver onde ele está.

– Está aqui! Estou sentindo o cabelinho!

Neste momento vieram as minhas primeiras lágrimas. Elas literalmente saltaram dos meus olhos. Acho que ninguém viu.

A Telemi chegou em seguida, conversou com a Uiara e decidiram que seria necessário sair da piscina e ir para a banqueta. O Samuel já estava lá, na beira, a Isa teve alguma dificuldade de locomoção. Ela se sentou, entreguei o celular para filmar o nascimento e me posicionei na frente dela para receber o meu filho. Me entregavam saquinhos de mel e assim que chegava na minha mão eu colocava na boca da Isa, pra ela ganhar força.

Mais uma contração e eu já via a cabecinha ensaiando sair, é fantástico ver o bebê coroando.

-Digo, é agora. Preparado? – Telemi

– Sim! Pode vir, meu filho.

-Vem, Samuel. Pode vir! Mamãe tá aqui te esperando.

E assim, de uma vez, veio. Direto nas minhas mãos e quase que imediatamente conduzido ao colo da mãe.

Neste momento voltei às lágrimas, uma alegria sem tamanho. O milagre da vida diante dos meus olhos, nas minhas mãos, dentro do meu quarto. Com amor, com respeito, com assistência e em família. Abracei a minha família sob as bênçãos de cinco guerreiras. Agradeci a Deus e aos amigos espirituais que certamente estavam por ali maravilhados nos amparando.

Fomos para a nossa cama para curtir e re-conhecer nosso bebê enquanto ele nos re-conhecia e aguardamos o nascimento da placenta que veio em uns 10 ou 15 minutos. Esperamos o cordão terminar de pulsar tudo o que ainda tinha para oferecer ao Samuel e depois eu mesmo cortei.

O meu filho nasceu às 16:03, do dia 11/6/17, no nosso quarto.

Você que vai ser pai, se eu puder te fazer um conselho, mergulhe neste universo da gestação e do parto. Foi transformador para mim.

Grande abraço,

Digo