Sobre a Crueldade das Crianças

"Existe crueldade intrínseca nas crianças? Maldade inata? Pode ser inevitável? Entender o contexto de criação vai ajudar a entender a melhor forma de ajudar."
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Há alguns dias atrás, eu recebi um link por mensagem privada de uma amiga no Facebook. O texto chama-se “Sim, elas podem ser cruéis“, escrito por Martha Mendonça para o blog da Época, então fui correndo lê-lo. É um texto antigo, de quatro anos atrás, mas devo admitir que fiquei assustado, muito assustado e, ao contrário do que a maioria que já leu esse texto, eu me assustei com outra coisa: com a maneira que a ideia foi vendida.

O artigo descreve o caso de uma criança de 7 anos, chamada T. Um caso assustador de uma criança maquiavélica que fez com que os pais demitissem algumas empregadas domésticas, alegando que elas batiam nele. Com câmeras de segurança, depois, os pais descobriram que era o contrário: a criança batia nas funcionárias e mentia para os pais. Muito depois, após os pais terem se separado, a criança passou a furtar dinheiro da carteira de seus pais alternadamente, dizendo sempre que era mesada ou do pai ou da mãe.

E é basicamente isso. Essa criança é considerada um pequeno monstro por pais, leigos e especialistas. Um demônio que deve ser exorcizado. Um criminoso que merece ir para a cadeia.

Por isso eu senti essa necessidade de escrever um post sobre o assunto. Eu comecei a refletir sobre tudo o que estava ali e, apesar de não ser um especialista da área, comecei a pensar e rever tudo o que eu já tinha visto, lido e aprendido. Eu não posso afirmar que não exista nenhuma patologia que faça com que uma criança apresente um comportamento de mentira e agressão patológica. Faz sentido existir, porque da mesma maneira que existem outras patologias, existem patologias mentais. Mas será que é algo assim, impossível de controlar? Algo inato à criança? Algo inevitável? Algo que não tem nenhuma relação com os pais? Eu ainda duvido disso, e acho que a questão vai além do diagnóstico de uma doença.

Sabe por que eu duvido disso? Porque o cérebro humano pode e é formado de acordo com as suas relações de cuidado e o ambiente à sua volta, principalmente durante os três primeiros anos de vida. Isso é um fato já cientificamente comprovado. Os bebês nascem com apenas 25% do tamanho de um cérebro normal, e atinge 90% do seu tamanho total durante os primeiros cinco anos de vida. Além disso, apesar de eles nascerem com uma quantidade enorme de neurônios – 200 milhões, aproximadamente – existem pouquíssimas interligações entre eles, interligações essas que são criadas, também, de acordo com o que esse bebê recebe em termos de cuidados e com as situações às quais esse bebê é exposto.

Mas assumir que o problema é todo da criança é muito cômodo, não é?

– Ah, eu não tenho culpa! Tentei de tudo, mas essa criança tem uma maldade dentro dela!

Fácil, muito fácil colocar todo o problema em cima da criança. É muito mais amigável para a nossa própria consciência colocar toda a responsabilidade sobre o que a criança se tornou em cima dela mesma.

No próprio texto, um especialista ainda disse:

– Essas crianças não têm empatia, isto é, não se importam com os sentimentos dos outros e não apresentam sofrimento psíquico pelo que fazem.

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Essas crianças não têm empatia“. De fato, crianças não nascem sabendo o que é empatia e como se faz para sentir empatia. Não há maturidade cerebral para isso até que o cérebro tenha se desenvolvido bastante, por volta dos 3 ou 5 anos. Porém, também sabemos que  empatia é algo que se aprende através das relações do bebê com seus pais. Se o bebê nunca foi cuidado com empatia e sensibilidade, como é que ele vai saber o que é isso? Se nunca foram empáticos com ele, como ser empático com o mundo?

Existem, inclusive, algumas referências que afirmam que células do cérebro que controlam certas habilidades, como linguagem e visão se não forem estimuladas dentro de uma janela de tempo – nesse caso até os 6 anos, a criança perde essa janela de tempo e dificilmente ela conseguirá desenvolver essas habilidade na fase adulta. Empatia é uma dessas habilidades.

O que eu quero dizer? Que é impossível admitir maldade intrínseca nessa criança citada no texto, pelo comportamento demonstrado. Não é possível admitir que essa criança tenha nascido com uma maldade sobre-humana. Eu acredito, sim, que nós culpamos a crianças porque falta empatia em nós mesmos. Irônico dizer que essa criança não tem empatia quando nós mesmos não temos empatias por ela.

Não é uma questão de maldade ou crueldade, mas sim uma questão de contexto. Entender qual o contexto de criação dessa criança vai ajudar muito mais a compreender qual a melhor forma de ajudá-la. Sim, ajudar a criança, porque ela não precisa de rótulos, culpa ou cadeia. Ela precisa de ajuda.

Sobre o contexto, então, que tipos de perguntas poderíamos fazer? Bom, eu tenho algumas:


  • Como essa criança foi cuidada durante seus primeiros anos de vida?
  • Essa criança era deixada a chorar sozinha para dormir?
  • Essa criança recebeu disciplina punitiva como forma padrão de disciplina?
  • Palmadas e outras formas de agressões físicas foram aplicadas regularmente?
  • Como é o vínculo dessa criança com seus pais?
  • Qual a disponibilidade de cuidado essa criança teve e tem dos seus pais?
  • E qual é a qualidade desse cuidado?
  • Como essa criança lidou com a separação dos pais?
  • O que essa criança queria dizer quando agredia as empregadas domésticas e fazia com que elas fossem todas demitidas?
  • Qual a motivação dela para demitir todas essas funcionárias?
  • Será que ela não está em um grito de socorro para ser cuidada pelos pais, e não por terceiros?

Você está vendo que até um caso desses, descrito da maneira sensacionalista como está no texto, pode cair por terra se você faz as perguntas certas? Não podemos assumir a maldade nessa criança só pelo comportamento dela, sem conhecer a sua história. Não temos esse direito.

E, por último, sabe por que eu duvido disso?

Porque acreditar na maldade intrínseca das crianças é perder a fé na humanidade.

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Comentários

  • Mariana Green da Fontoura disse:

    Thiago, descobri seu blog há pouco tempo (in e felizmente!) e, mesmo sem saber q existia algo denominado criação com apego, sempre busquei alternativas à punição e tudo aquilo q nós entregam como regra ao nos tornamos pais.
    Obrigada por sua dedicação, por me apresentar oficialmente a este novo mundo e me apresentar um ser humano com foco de criança, que se preocupa com os porquês e não somente com as ações, que as vê como pessoas, como iguais e não como inferiores. Obrigada por tamanha empatia e por me mostrar que, apesar de ouvir que minhas escolhas como mãe apegada de um menino lindo, saudável e feliz irão prejudicá-lo, meus instintos de criá-lo com amor, diálogo e respeito desde o ventre são boas e genuínas escolhas.
    Gostaria muito de ter uma unidade API por perto 😉
    Que Deus continue a derramar Suas bênçãos sobre você e sua família.
    Sinceramente feliz,
    Mariana

  • Thiago Queiroz

    Thiago Queiroz

    Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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