Sobre Seres Humanos e Amor

"Esse texto é um relato de como, às vezes, só precisamos de uma ajuda para exercitar a empatia e desconstruir o machismo e homofobia que existe em todos nós. E essa desconstrução é diária."

Muitas pessoas poderão pensar que este texto não cabe no meu blog, porque não fala diretamente sobre criação de filhos, mas eu tenho esperança de que você, que decidiu ler até o final, perceba que o texto trata de seres humanos, no fim das contas, e de como os contextos familiares influenciam diretamente em nossas percepções sobre esses seres humanos.

Estava eu, no vestiário do meu trabalho, preparando-me para tomar uma ducha e ir trabalhar. Na verdade, existem dois vestiários e um deles costuma ficar bastante lotado, o que me faz usar este segundo vestiário que é menor, mas bem mais vazio.

Chegando lá, encontrei um colega com quem trabalhei há alguns anos atrás. Na época, conversávamos e nos ajudávamos bastante, principalmente no que dizia respeito a encontrar áreas que se enquadrassem melhor aos nossos perfis profissionais. Hoje, trabalhamos em áreas diferentes, mas sempre que nos esbarramos, acabamos batendo algum papo. Além desse colega, havia mais um funcionário que não conhecíamos.

Quando esse colega me viu, perguntou:

– Opa, você também está usando esse vestiário?

– Pois é, o outro fica muito cheio, cara!

– Ahhh, antes fosse só isso de problema…

O terceiro funcionário perguntou ao meu colega qual seria o problema e, enquanto eu entrava no chuveiro, ele respondeu:

– Aquele vestiário é uma viadagem que só!

Isso iniciou uma discussão extremamente homofóbica, onde o meu colega dizia-se muito incomodado com alguns funcionários gays que também frequentavam o vestiário. E a discussão, então, foi expandindo, criticando as ações de Jean Willis, aprovando algumas atitudes de Malafaia e Feliciano, enfim, toda aquela discussão padrão, carregada de ódio, acusando beneficiamento dos gays sobre os héteros, sempre trazendo reflexões incoerentes, como:

– Eu respeito eles, mas tenho nojo quando vejo dois homens se beijando.

Ou então:

– Eu tenho amigos gays, não tenho problemas com eles. Mas imagina as crianças achando que isso tudo é natural, hoje em dia?

E eu? Bem, eu já aprendi nessa vida a escolher batalhas. Eu escolho não entro mais em discussões que já estão emanando tanto ódio assim, porque será inútil. Eu, que prefiro falar no amor, não consigo entrar numa discussão de ódio, mas isso não significa que não estivesse me fazendo um mal danado ali, embaixo do chuveiro.

O meu colega, que conhece um pouco do que eu penso sobre esse tema, perguntou, antes de sair do vestiário:

– E aí, Thiago? Você ficou calado, cara? O que você tem a falar, você que é um cara tão pra frente e alternativo?

Eu, com grande tristeza no coração, falei de dentro do chuveiro:

– Pois é, eu prefiro me abster dessa vez.

Continuei a me arrumar com aquilo preso no peito. Queria poder conversar com o meu colega, de uma maneira mais leve, e tentar explicar o que eu pensava sobre tudo aquilo, mas em um contexto em que todos estivéssemos com menos ódio e mais abertos a ouvir. Por sorte, mais tarde, encontrei com ele no refeitório, almoçando sozinho. Perguntei se podia me sentar junto a ele, e ele concordou.

– Thiago, você é um cara que, bem ou mal, eu acompanho. Sempre leio o que você escreve, e sempre tento refletir sobre as coisas que você escreve. Então, eu queria saber de você o que você pensa sobre aquela conversa no vestiário.

Foi aí que eu comecei a falar com ele, e apesar de estar com medo do rumo que aquela conversa poderia tomar, eu decidi falar com o coração. Comecei explicando a ele por que eu não havia entrado naquela discussão no vestiário, já que eu realmente não consigo entrar em conversas que estejam tão carregadas de raiva. Expliquei a ele que, de uns tempos para cá, tenho me interessado falar e escrever sobre o amor, seja com relação a filhos, ou a qualquer outro ser humano. E por isso, eu não consegui entrar na discussão. Por pura limitação minha mesmo.

Ele começou, então, perguntando a minha opinião sobre um projeto de lei em que, segundo ele, um menino poderia entrar no banheiro feminino só porque ele é gay. Continuou dizendo que ficaria preocupado se tivesse uma filha, porque qualquer menino poderia dizer que era gay só para entrar no banheiro.

Eu não conhecia nada sobre isso na ocasião, então disse que não poderia opinar em nada, além do fato de que eu achava aquilo muito esquisito para ser, de verdade, o que poderiam estar propondo. Conclui dizendo que iria investigar, mas que isso faria sentido se fosse uma menina transexual, por exemplo.

Para escrever este post, andei pesquisando e vi que trata-se da Resolução Número 12 do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CNCD/LGBT). Nesta resolução, o Conselho faz alguma recomendações e, dentre elas, que estudantes sejam chamados pelo nome social e utilizem banheiros de acordo com sua identidade de gênero.

O meu colega contou também um pouco da história dele, e eu fiquei ouvindo atentamente. Ele falou sobre como cresceu ouvindo tudo isso sobre homossexuais, que ele foi criado ouvindo o quanto tudo isso era errado e antinatural. Para ele, era muito difícil acreditar que ele pudesse mudar a maneira de pensar e melhorar a um ponto que conseguisse aceitar, de verdade, a homossexualidade. Foi aí que ele me perguntou:

– Como é possível conviver com isso? Achar que tudo isso é normal?

Eu respondi que eu entendia bem o que ele dizia. Eu vim também de um lar extremamente homofóbico e machista, cresci vendo minha mãe apontando e ridicularizando qualquer gay que aparecesse na TV e, infelizmente, eu acreditava naquilo. Era a minha mãe falando sobre aquilo tudo, afinal.

Era como se ela fizesse questão de apontar todas as “coisas ruins da humanidade” na esperança desesperada de que nem eu, nem meu irmão, criássemos algum tipo de interesse proibido sobre o assunto. E, ainda assim, hoje, eu tenho um pensamento completamente diferente. Eu vivo uma desconstrução diária, tanto da homofobia, como do machismo, e muito mais do machismo do que qualquer outra coisa.

Essas desconstruções intensas que eu havia vivido (e continuo vivendo), quebrando um tijolo da parede por dia, começou quando eu conheci a Anne, que me proporcionou tantas discussões transformadoras, através de toda a sua gentileza e serenidade. Só assim comecei a abrir meus olhos e coração para, digamos, as cosias da vida. E ser pai veio com o intuito de coroar essa sensibilidade de enxergar o amor, apenas o amor.

Continuei explicando a ele que foi através da empatia que eu consegui entender melhor o que poderia estar se passando pelo outro. Tentar me colocar no lugar do outro, primeiramente por causa dos meus filhos, passou a me ajudar a ter mais perspectiva sobre o que os outros estariam passando e, assim, desconstruir ainda mais a homofobia e o machismo.

Pedi para que ele tentasse imaginar como deveria ser para uma pessoa crescendo em um ambiente, sabendo que ela precisa ser algo que não é, apenas para ser aceita e amada naquela família. Que tentasse imaginar como deveria ser você crescer pensando que tem uma doença, um mal incurável? Imagine você crescer se odiando pelo que você é?

Ele parou e eu pude perceber a informação entrando, a ficha começando a cair.

Pedi para ele imaginar também como ele deveria se sentir, se soubesse que nunca poderia demonstrar afeto em público pela namorada dele, com medo de ser agredido, xingado ou de perceber que as pessoas estavam com nojo de vê-lo beijando a pessoa que ele ama.

Estou falando de demonstrações simples de afeto, como um beijo, ou apenas andar de mãos dadas em um shopping. Como seria esconder isso da própria família? Como seria sair para se divertir à noite na rua, andando de mãos dadas com a sua namorada, receber uma cutucada no ombro e, ao virar, levar um soco na cara? Só porque você não deveria estar andando de mãos dadas com a sua namorada?

Eu também já pensei assim, mas estou em desconstrução. Falei com ele sobre a declaração no vestiário, de que ele respeitava, mas sentia vontade de vomitar ao ver dois homens se beijando. E o indicador é justamente esse, ou seja, temos que desconstruir isso até que nós consigamos enxergar isso como o que é de verdade: uma demonstração natural de amor entre dois seres humanos. É amor. São seres humanos. O que mais importa?

Durante a conversa, ele admitiu que entendia que isso também era machismo, porque não sentia nojo quando via duas meninas se beijando. Eu disse, esperançoso:

– Tá vendo? Você já deu um passo, admitindo e tendo consciência que também é machismo. Esse é o caminho da desconstrução.

E como precisamos falar também sobre o machismo, voltei ao exemplo que ele deu lá em cima, onde ele acreditava que haveria uma lei garantindo que meninos declarados gays teriam acesso ao banheiro feminino. Mesmo que essa não seja a verdade, o medo por trás disso precisa ser entendido. Por que ele não teria medo se ele tivesse um filho menino, e uma menina que se declarasse gay pudesse entrar no banheiro masculino? Por que isso não é um problema para ele? Esse é mais um grande tijolo de machismo para quebrar.

Ele resolveu falar também do desconforto dele no vestiário, que um homem ficou olhando para ele, quando os dois estavam nus, ou só com a roupa de baixo (eu já não me lembro exatamente). De toda forma, disse a ele que essa desconstrução passa muito também pela segurança de quem você é, a ponto de você entender que tudo bem existir pessoas que sentirão atração por você, independente do sexo delas, e que você não necessariamente será gay se você não se sentir publicamente revoltado por ter sido desejado por alguém do mesmo sexo.

Para mim, essas situações são as mais perfeitas para nos colocar do outro lado. São oportunidades muito boas para aproveitarmos e refletirmos sobre o pensamento machista do predador e da presa. Nós, homens heterossexuais, podemos nos sentir indignados quando um gay nos passa uma cantada, mas podemos olhar para as mulheres como simples pedaços de carne. São nessas ocasiões em que nós somos colocados no papel da presa e só então percebemos quão repugnante isso é, não por causa de ser um outro homem nos desejando, mas esse sentimento de estar completamente vulnerável ao olhar do outro é o que incomoda. Sentir-se um mero pedaço de carne incomoda.

No entanto, continuamos submetendo as mulheres a passar por essas situações degradantes todos os dias, achando que é natural, que é instinto humano. Quantas mulheres não sofrem isso todos os dias? Quantas mulheres não passam apressadas em frente a uma obra, para não ter que ouvir as cantadas ou com medo de serem estupradas?

Ao fim do almoço, ele parecia bastante tocado com o que conversamos. Disse que queria melhorar e repensar isso tudo, que parecia muito difícil, mas eu garanti a ele que era possível, porque nós dois viemos do mesmo lugar.

Se eu não tivesse vindo de um lar em que a homofobia e o machismo fossem valores ensinados, talvez eu não precisasse passar por tanta desconstrução hoje e nos últimos anos, por isso que é tão importante refletir sobre isso durante a minha paternidade. Porque a última coisa que eu quero é ver meus filhos crescendo em um lar que propague ódio ao ser humano.

Não sei se o meu colega, algum dia, lerá esse post, mas se você estiver lendo, gostaria de agradecer por essa conversa, por essa oportunidade, principalmente nesses últimos dias em que eu me vejo cercado por homens machistas e homofóbicos no trabalho. Sem saber, esse colega me deu um pouco mais de esperança de que o amor, enfim, vencerá.

 

PS: a imagem do post foi tirada pelo fotógrafo Mauricio Mar.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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