Sono Infantil e Treinamento de Sono, o Dossiê que Você Precisa Ler

"Esse é o dossiê mais completo que você lerá sobre o sono do bebê, com informações verdadeiras sobre treinamento de sono e consultorias de sono de bebês."
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Por Thiago Queiroz e Mari Rios.

“Seu filho nasceu, tudo é muito lindo durante o dia, mas quando a noite chega, parece um filme de terror?”

“Seu bebê tem dificuldades para dormir?”

“Ele não dorme as 8 horas necessárias para o seu desenvolvimento saudável?”

“Seu bebê acorda muitas vezes à noite, precisando mamar ou ser embalado para dormir?”

“Ele não tem uma noite de sono consistente, e só tira sonecas curtas em horários não convencionais?”

“Seu filho chora muito, briga com o sono e só dorme na sua presença?”

“O sono do seu filho tem deixado você exausta? Saiba que se você estiver descansada e feliz, conseguirá ser uma mãe melhor. Confira nosso método de sono respeitoso.”

“Nós sabemos como a privação de sono pode afetar a saúde da família como um todo. E nós podemos ajudar!”

Se você navegar pelos sites de pessoas que oferecem consultoria de sono, encontrará perguntas e afirmações muito parecidas com essas. Esses sites estão se multiplicando rapidamente, oferecendo uma solução mágica para um “problema” que aterroriza todas as mães e pais (principalmente de primeira viagem): o sono do bebê.

Os anúncios costumam seguir essa linha de propagandas de TV dos anos 1990:

“Cansada da sua meia que rasga nos piores momentos?”

“Você gostaria de passar um garfo na sua meia-calça e não conseguir rasgá-la?”

“Não aguenta mais seu gato destruindo sua meia?”

“Seus problemas acabaram, compre agora as indestrutíveis meias Vivarina!”

Para além dos sites, também há cada vez mais perfis de consultorias de sono no Instagram. E, mais atualmente, muitos perfis começam a dizer que suas técnicas de treinamento de sono estão completamente alinhadas com a criação com apego.

Eventualmente, eu e a pediatra Mari Rios postamos em nossos perfis do Instagram (@paizinhovirgulaoficial e @umamaepediatra) informações sobre isso, desmentindo o que muitas consultorias alegam. E, cada vez que postávamos sobre isso, recebíamos dezenas de mensagens privadas no Instagram de mães e pais agradecendo, porque estavam prestes a pagar por um serviço desses e desistiram. Porém, infelizmente, recebíamos tantas outras mensagens de pessoas lamentando que haviam contratado os serviços e acabavam desistindo de seguir com o processo, porque simplesmente não conseguiam fazer o que as orientavam a fazer com os seus bebês. Tantas outras mensagens ainda relatavam sobre a paranoia com tabelas, horas de sono e o transtorno de ansiedade gerado na família.

Por isso, eu e a Mari decidimos que era hora de publicarmos um dossiê sobre o que acontece por trás desse mercado de treinamento de sono no Brasil. Esse é o resultado de um longo trabalho, feito a quatro mãos, e esperamos que ajude você a tomar uma decisão informada sobre o sono do seu filho e, principalmente, a não ser enganado com propagandas como as que estão no início desse post.

Por que o treinamento de sono é tão popular?

Pais e mães sempre tiveram dificuldades de lidar com o sono de seus bebês, principalmente porque os padrões de sono de um bebê são tão diferentes dos padrões de um adulto. Some isso à exaustão que cuidar de um bebê integralmente provoca e pronto, temos o mercado perfeito.

Esse mercado perfeito é composto por pais e mães exaustos que fariam qualquer coisa para conseguir dormir um pouco mais. E buscam soluções imediatas para resolver um “problema” de sono infantil, mesmo que esse “problema” seja apenas a fisiologia natural de um bebê.

Em outras palavras, nós tendemos a enxergar o sono de um bebê como um problema em si quando que, na realidade, o problema está na sobrecarga (geralmente das mães) por cuidar de um bebê sem uma rede de apoio por perto e sem um pai que participe ativamente das suas obrigações de pai. Atualmente, a nossa sociedade está configurada de uma forma que nos afasta das nossas famílias, que seriam as nossas redes de apoio primárias. Além disso, para sobreviver na cidade, é exigido que trabalhemos cada vez mais e, por isso, que as nossas noites de sono são tão preciosas.

Só que, na verdade, o bebê não sabe disso. Ele só está vivendo a vida normal dele e se desenvolvendo como bebês sempre se desenvolveram. Não é difícil perceber que com todo este contexto e em meio ao caos da abstinência de sono, vender estas consultorias é como vender água no deserto para pessoas sedentas: uma molezinha.

E onde existe um mercado perfeito, com uma necessidade imensa de consumir serviços e produtos que solucionem seus problemas imediatamente, há o crescimento da oferta. É exatamente por isso que cresce cada vez mais páginas e perfis de Instagram oferecendo esses serviços.

Os serviços variam de cursos online até consultorias presenciais e vão, em média, de R$400, podendo ultrapassar os R$1.000,00 facilmente. E o ganho dessas pessoas que se intitulam consultorias de sono está na escala, pois a maior parte das vendas é de cursos online, que já estão prontos e disponíveis para quem quiser pagar e assistir.

Essa é uma das mensagens de um dos sites de uma consultoria de sono “de sucesso”. Vamos, então, ter uma noção de quanto isso representa em ganhos financeiros: considerando que todas essas 9 mil famílias tenham apenas optado pelo pacote mais básico de R$400,00, isso soma uma quantia de 3,6 milhões de reais.

Vendo dessa forma, nós temos até vontade de abrirmos uma consultoria de sono! É uma atividade extremamente rentável e todo mundo ganha, né?

A consultoria de sono ganha.

A mãe ganha.

O pai ganha.

Mas o bebê não ganha.

E é por isso que estamos escrevendo esse dossiê. Percebemos que precisávamos alertar aos pais aquilo que os bebês não podem falar. Pois, nesta história, todos já foram atendidos em seus objetivos: a consultoria já vendeu seu serviço; pai e mãe acreditam que vão dormir melhor. Mas e o bebê? Alguém perguntou o que ele pensa e como se sente sobre tudo isso? Ele realmente tem tido suas necessidades atendidas?

Sobre o sono infantil: os padrões de sono do bebê

Apesar de querermos que os bebês fechem seus olhinhos, durmam e depois os abram pela manhã, num movimento linear, o padrão de sono deles não é bem assim.

Assim como os adultos, as crianças possuem ciclos de sono. Isso significa que todos nós vamos apresentar fases de sono que irão se repetir durante toda a madrugada. Em alguns momentos vamos dormir de forma mais pesada, em outros vamos ter o sono mais leve e em breves outros momentos vamos ter pequenos despertares.

Mas então, o que muda entre o adulto e a criança? O que faz com que eles durmam de formas tão diferentes?

Resumidamente, podemos simplificar que o sono dos bebês é composto pelo sono REM (uma fase mais ativa do sono em que o bebê se mexe, resmunga, choraminga ou muda de lado) e pelo sono NÃO REM (uma fase de sono mais calmo). E, para passar de um ritmo de sono para outro, os bebês apresentam o que chamamos de SONO DE TRANSIÇÃO. Deste modo, durante toda a noite há uma alternância entre estes tipos e sono.

Cada ciclo de sono (REM – TRANSIÇÃO – NÃO REM) pode durar de 90 a 110 minutos e quanto menor a idade, mais curto o ciclo. Em alguns momentos destes ciclos a criança vai ter microdespertares, abrir os olhos e solicitar os pais.

 Conseguir voltar a dormir sozinho após um microdespertar é o ponto chave dos treinamentos de sono e que explicaremos melhor em breve. Antes vamos entender mais um pouco sobre ciclos de sono.

Ao nascer a proporção entre sono REM E NÃO REM é de meio a meio. A medida que o bebê cresce o sono NÃO REM irá se subdividir em fases N1, N2 e N3 (cada qual com sua função que não iremos nos ater aqui) e a duração do sono REM irá diminuir. Os ciclos também ficarão mais longos.

Numa tradução bem simples isso tudo significa que os bebês possuem ciclos de sono mais curtos e possuem também mais tempo de sono agitado e leve se os compararmos com adultos. À medida que crescem, as ondas de sono ficam mais maduras, complexas, os ciclos de sono mais longos e o tempo de duração do sono leve e agitado, diminui.

Outro ponto importante para citarmos é que, ao nascer, o bebê dorme muito durante o dia e muito à noite. Com o tempo, o sono vai se tornando predominantemente noturno com o desaparecimento gradual das sonecas diurnas.

E como as consultorias prometem te ajudar?

A grande maioria das consultorias que prometem longas horas de sono precisará fazer com que o bebê emende ciclos de sono sem a ajuda do adulto.

Entenda que a consultoria não muda as fases do ciclo de sono do seu filho. Ele continua acordando na madrugada, com pequenos despertares. A única coisa que ela faz é com que ele, o seu bebê, não solicite você à noite.

Ou seja: a proposta é ensinar maneiras para que, quando seu filho entrar no breve despertar, naqueles pequenos intervalos de consciência, ele consiga voltar ao sono REM sem incomodar os pais.

Por que o bebê solicita você?

Para adormecer, a criança precisa se sentir segura. E obviamente a segurança, em bebês, significa o colo, o peito, a presença dos pais.  Nem mesmo nós, adultos, conseguimos dormir normalmente em ambientes que consideramos inseguros como banco de praças ou pontos de ônibus. Imaginem querer que bebês se sintam bem, seguros e atendidos quando são obrigados a dormir em seus berços/camas sem o toque de seus pais, sem a sucção, sem o balanço ou sem tudo aquilo que sinaliza segurança para eles?

Quando o bebê adormece ao seio, por exemplo, é porque ele atingiu o relaxamento necessário e a sensação de segurança. Com o passar da noite, em alguns pequenos despertares, este bebê pode emitir um resmungo, talvez um chorinho e, antes que você chegue até ele, já poderá ter retornado ao sono sem sua ajuda. Entretanto, em outro breve despertar este bebê irá adquirir consciência maior e, portanto, solicitar a mesma sensação de segurança que tinha quando adormeceu pela primeira vez. Isso significa que ele irá solicitar o seio, o colo, o balanço, o toque e isso representa apenas a necessidade de certificação de um ambiente de segurança. É uma espécie de bengala do sono, absolutamente natural e inofensiva, que irá acompanhar a criança durante um período. Com o avançar da idade, o uso desta bengala se tornará menos frequente e logo mais o sono caminhará de forma regular, durante a noite toda, sem que sua ajuda seja necessária.

E quando isso acontece? Extremamente variável.  Nem mesmo o padrão de sono do adolescente é igual ao de um adulto. Em média, crianças amamentadas e atendidas quando solicitadas podem demorar 3 anos ou mais para dormirem uma noite sem interrupções. O que também não significa que as noites sejam extremamente iguais e tranquilas a partir daí. E, obviamente, muitas crianças amamentadas e atendidas podem dormir a noite toda naturalmente, muito antes deste tempo.  São variações da normalidade.

Assim como também é natural os bebês acordarem várias vezes numa mesma noite por uma semana e depois dormirem melhor em outra semana, de forma totalmente aleatória e sem regras. Não existe linearidade no sono da maioria dos bebês assim como no apetite ou no humor. Nem adultos dormem e comem igual todo dia.

Mas uma coisa é certa: para que o seu filho durma muitas horas seguidas, ele deverá adormecer com o mínimo de ajuda possível. Não há outra maneira que não seja esta diminuição da atenção ao bebê.  A grande parte das consultorias vai recomendar com clareza sobre não deixar dormir no peito, não embalar, não dormir no colo, e por aí vai. Outra parte vai dizer que “tudo bem colo e peito”, mas vai maquiar as necessidades da criança. Vão estimular que a mãe interprete as necessidades do bebê de forma racional, de modo a diminuir o número de vezes que oferece o seio ou dá colo. É a rasteira maquiada e um golpe na livre demanda que já sabemos ser muito mais do que só nutrição corporal.

Quando tudo começa a dar errado

Só quem tem filho sabe o desespero que dá quando, no meio da madrugada, onde ninguém está por perto para ajudar, você tem um bebê que simplesmente não dorme. Só quem já passou por isso sabe os efeitos da privação de sono e nós entendemos você. Nós já passamos por isso.

É exatamente por causa disso que estamos aqui fazendo esse trabalho de conscientização e acolhimento, porque se você já foi uma das pessoas que sucumbiu ao cansaço e fez alguma desses cursos ou consultorias de sono, nós entendemos perfeitamente os seus motivos. E você não está sozinho, como os depoimentos abaixo mostram.

Todas essas pessoas passaram pelo mesmo e precisaram de ajuda. Algumas iniciaram o treinamento de sono, mas isso era tão avesso aos seus instintos que elas desistiram. Outras fizeram tudo, mas se arrependem hoje.

Nós lamentamos muito por isso, porque se esse texto já existisse naquela época, talvez essas pessoas e seus bebês não tivessem passado por isso. Muitas destas famílias adquiriram estes cursos por acreditarem que o sono dos seus filhos não era normal ou saudável. Outras acreditaram que, se os seus filhos não dormissem sem os despertares, iriam apresentar baixa estatura ou problemas de memória. Tantas outras não perceberam que o problema da dinâmica do sono estava na falta de apoio e, não propriamente no sono do bebê.

Os danos do treinamento de sono

Claro que, tanto para quem já treinou o sono do seu filho quanto para aqueles que chegaram até aqui porque pensaram nesta possibilidade em algum momento, entender as consequências dos treinamentos de sono é importante. Mesmo daqueles que não se nomeiam dessa forma.

Obviamente que não seria responsável dizer que todos ou a maioria dos bebês irão apresentar os problemas. Existem, sim, crianças que tiveram seu sono treinado e não apresentaram qualquer anormalidade.

Mas não há dúvidas de que, com a informação, fica mais fácil para todo mundo. O conhecimento destas possibilidades é legal para que você, que já treinou o sono do seu filho – assim como a própria Mari – possa analisar de forma crítica todo o processo e amenizá-lo.  E também é positivo para que você, que pensa em adquirir um curso desses, possa escolher verdadeiramente, de forma crítica, o que deseja. Sem trapaças.

Sabemos que pode ser doloroso olhar para estas consequências após ter aderido a algumas técnicas de sono. Mas a Dra. Márcia Tosin, do Instagram @criacao_neurocompativel, publicou recentemente uma citação muito interessante em seu perfil de Instagram, trazendo um pouco de conforto frente a situações como estas:

Compre o meu livro e ganhe uma dedicatória personalizada!

“Quanto mais relacionamentos saudáveis ​​a criança tiver, maior a probabilidade de se recuperar de um trauma e prosperar. Os relacionamentos são os agentes da mudança e a terapia mais poderosa é o amor humano.”

Dr. Perry

Se você não entendeu, podemos explicar que qualquer que tenha sido o efeito destes treinamentos no seu filho, o amor e a conexão emocional saudável são a chave da reversão.

Então, vamos conhecer os pontos negativos: a primeira grande questão é a amamentação. A Dra. Pamela Douglas, uma médica australiana, conseguiu provar em uma revisão sistemática que bebês submetidos a treinamento de sono, antes dos seis meses de idade, podem sofrer desmame precoce.

E não é difícil compreender este desfecho. O treinamento de sono leva a vários ciclos de sono sequenciados, sem solicitação dos pais. Consequentemente este bebê irá mamar menos vezes e o seio materno será estimulado muito menos na madrugada, e o segredo da produção de leite está na sucção. Quanto mais o bebê suga, mais leite é produzido. Quanto menos ele suga, menos leite haverá no dia seguinte.

 A isso se soma o fato de que, na madrugada, há o pico da prolactina, um hormônio envolvido na produção de leite.  Por isso a sucção ao seio, na madrugada, em conjunto com este pico hormonal, gera muito mais leite no dia seguinte. Logo, o bebê que dorme mais, de forma não natural, suga menos e não pega o pico da prolactina.

Para muitas mulheres, fartas em leite, a produção menor pode não fazer diferença na amamentação. O bebê continua mamando bem de dia e ganha peso satisfatoriamente. Para outras, infelizmente, a história tem um desfecho indesejado. A pouca estimulação leva a baixa produção de leite com inquietação do bebê durante as mamadas, choro e baixo ganho de peso. E, como uma bola de neve, os pais acabam fazendo uso da chupeta para acalentar o choro, a irritação, compram leites artificiais acreditando que a mãe não consegue produzir leite suficiente, ou o próprio pediatra prescreve, uma vez que o bebê não ganha peso. E nesta dança, entre mamadeiras e chupeta, o desmame acaba ocorrendo.

Outra questão é a de que leite materno noturno é rico em triptofano e melatonina. Estas substâncias são auxiliares no sono do bebê de forma a favorecê-lo. Logo, se o bebê ingere menos deste leite, pode ter um sono mais perturbado, apesar de todas as técnicas ensinadas.

Não é incomum também que as famílias procurem ajuda das consultorias de sono quando a licença maternidade se acaba. Entendemos que é mesmo muito difícil manter um dia produtivo depois de uma noite exaustiva e é por isso que as famílias buscam dormir melhor nesta fase e adquirem estes serviços. Acontece que a mãe habitualmente já ficará no mínimo 8 a 10 horas distante de seu filho, sem amamentá-lo. E o período noturno seria o único restante para que esta criança fosse amamentada. Quando o bebê é treinado a dormir mais ele também não mama à noite e obviamente o desmame acontece. Faz sentido?

Não podemos esquecer que a amamentação é protetora da morte súbita. Bebês que mamam em seio materno morrem menos de forma abrupta e inexplicada durante o sono.  Por isso, ao elevar índice de desmame os treinamentos elevam também risco de morte súbita.

Outro grande ponto é o de que bebês não sabem diferenciar grandes de pequenas ameaças. O corpo deles reage de forma aguda e intensamente a qualquer estímulo contrário ao seu hábito, conforto e segurança. Todos sabemos que dormir no berço, sozinho, numa casa segura, não oferece riscos imediatos a um bebê. Mas o bebê não sabe disso. Ele não possui amadurecimento neurológico suficiente para entender que deve realmente chorar muito apenas se o seu berço começar a pegar fogo, mas que não precisa chorar tanto se a mamãe se afastar por um metro para tomar um copo de água. Não há capacidade para esta estratificação de riscos. E, por isso, um “simples” treinamento que visa abandono no berço ou choro controlado pode levar a um estado de hiperativação do corpo da criança, com liberação de hormônios de estresse, como aqueles liberados em fugas animais ( cortisol e norepinefrina).

Eles elevam a frequência cardíaca, dilatam a pupila, elevam a respiração, causam suor. O corpo da criança entende que está sob ameaça. E, para que tudo isso cesse, as vezes os vômitos acontecem. A criança não vomita no berço para chamar a sua atenção e para fazer você desistir de treiná-la. Ela vomita porque o corpo não aguenta mais tanto estresse. O ato de vomitar ativa o sistema vagal, responsável por abaixar esta frequência cardíaca e por ajudar a acalmar toda esta explosão hormonal. Ela vomita para não colapsar, para ser salva. E, obviamente, quanto mais vezes este estresse acontece, mais o cérebro delas fica inundado de “hormônios” fortes e mais sequelas ela pode ter ao longo da vida. Sim, estes hormônios quando em excesso são responsáveis por mudar a arquitetura cerebral, por diminuir a capacidade dos neurônios se conectarem, diminuir o volume cerebral e predispor a várias doenças na vida adulta. Estresses intensos, de forma sequenciada, podem causar danos a curto, médio e longo prazo.

Além, é claro, da quebra da figura de apego. Sabemos que um apego seguro é construído com respostas efetivas às necessidades das crianças. Nossos filhos precisam saber que possuem pais responsivos e ativos nas soluções de suas angústias. Só assim conseguem estabelecer vínculos de forma segura para se desenvolverem e crescerem. Quando a criança não é atendida, é parcialmente atendida ou tem a resposta à sua demanda atrasada para tentar prolongar o sono, a figura de apego seguro é desconstruída.

As consultorias que se vendem como respeitosas, gentis ou baseadas no apego insistem em dizer que atendem ao bebê, que não deixam chorar. Mas, no fundo, estimulam pais a racionalizar o instinto, especialmente mães que amamentam.

A tentativa é de fazer a mãe pensar sobre o porquê de um bebê estar chorando antes de oferecer o peito, e insistir que nem todo choro noturno é fome. E acredite: nós concordamos com isso. Nem todo choro é fome. Mas, ao estimular, a mãe neste pensamento, menos peito é ofertado, menos relação de sucção e sono se estabelece, e mais os bebês dormem.

Acontece que peito não é só leite. É segurança, conforto, relaxamento, analgesia e muito mais. Então, porque o peito não pode ser oferecido instintivamente na madrugada, em meio ao sono? Por que expor a mãe a um estado de racionalização, quando deveria estar amamentando e dormindo ao mesmo tempo?

E, por último, dentre estas consequências, não podemos nos esquecer do estado ansioso familiar, principalmente materno. Infelizmente, tanto as tabelas apresentadas quanto as regras sobre tempo de sono e número de sonecas, além das inúmeras recomendações que racionalizam o que deveria ser instintivo, levam famílias a um estado de paranoia.

Não é incomum recebermos em nossos perfis o relato de mulheres que se dizem surtadas por seus filhos não dormirem no tempo recomendado, não fazerem sonecas de uma a duas horas, não dormirem antes das 19:00, não conseguirem dormir 8 horas seguidas e tantos outros parâmetros – muitas vezes inalcançáveis para um determinado bebê.

Esta alta expectativa leva as famílias a pensarem que seus bebês são doentes, que possuem refluxo oculto, alergias alimentares, distúrbios graves de sono ou simplesmente que não são normais. Em outros casos, as mulheres ficam tão nervosas pela pouca resposta aos treinos que perdem a paciência e gritam ou balançam fortemente seus filhos que não seguem o que as tabelas ou o que as consultorias recomendam.

Enfim, são inúmeras as possibilidades. Assim como medicações têm indicações precisas, limitadas e que mesmo assim oferecem riscos ou efeitos indesejados, também os são as consultorias de sono. E é importante que tenhamos acesso a esta bula completa para que possamos escolher.

As reações adversas aos treinamentos existem e precisam ser ditas.

A evolução do treinamento de sono

“Ah, mas esse é diferente!”

“Eles dizem que não tem choro!”

A princípio, ler essas afirmações são reconfortantes, mas se você se aprofundar, verá que todas elas são aperfeiçoamentos de uma técnica antiga, bastante difundida graças ao trabalho de Gary Ezzo e Robert Bucknam, no livro “Nana Nenê”.

Foi nesse livro que o conceito de cry-it out foi mais difundido, onde submetemos o bebê a sessões de choro controlado. Esse método foi aperfeiçoado pelas autoras Tracy Hogg e Melinda Blau no livro best-seller “A Encantadora de Bebês”.

E a “evolução” não parou por aí, pois hoje muitas consultorias de sono já dizem que não fazem treinamento de sono. É consultoria de sono e não envolve deixar o bebê chorando.

A questão é que esse discurso permanece na superfície, e tudo se torna diferente quando as mesmas consultorias são questionadas nas redes sociais. Essa outra consultoria “de sucesso” respondeu dessa forma, quando questionada sobre o choro do bebê.

E mesmo que você não consiga perceber a sutil diferença no discurso, muitas pessoas, quando começam um processo de consultoria, acabam percebendo rapidamente, como essas mães e pais que nos reportaram suas histórias.

E quanto não poderíamos pensar em mais uma “evolução” no treinamento de sono, somos surpreendidos novamente. Hoje, já começam a aparecer consultorias de sono oferecendo serviços de treinamento de sono com enfoque em criação com apego.

Criação com apego e treinamento de sono: a falácia dos programas de treinamento que se dizem alinhados o apego seguro

A criação com apego, de forma bastante resumida (você pode ler mais sobre o assunto aqui) é um conjunto de ferramentas que ajudam pais e mães a desenvolver um vínculo de apego seguro com seus filhos. Esse vínculo de apego seguro se forma, basicamente, quando atendemos às necessidades de um bebê de uma forma consistente.

Essas necessidades são as mais variadas: fome, afeto, segurança, colo, contato físico e muitas outras. Portanto, se nós já sabemos que precisamos atender às necessidades de um bebê, e como também conhecemos o padrão de sono de um bebê, como seria possível aplicar um método que garanta que o bebê durma a noite toda e, ainda assim, atender às suas necessidades durante à noite?

Essa conta não fecha e nunca vai fechar.

No site da Attachment Parenting International, ONG que preza pela divulgação da criação com apego pelo mundo, tem a seguinte definição para treinamento de sono, que não é condizente com a criação com apego.

“Quando os bebês choram, os pais são ensinados a confortar a criança verbalmente ou com tapinhas nas costas.”

Site da Attachment Parenting International

Na criação com apego, quando um bebê chora à noite, o que se sugere é ele seja ninado, embalado, ou que vá para o peito, se esse é o caso. Por isso que um dos princípios da criação com apego sugere a prática de cama compartilhada ou quarto compartilhado para que as noites sejam menos cansativas.

Barbara Nicholson e Lysa Parker, fundadoras da API e autoras do livro “Attached At Heart” dedicaram um capítulo inteiro do livro para apontar todos os problemas do treinamento de sono sob a perspectiva do vínculo de apego seguro.

“Um bebê não é capaz neurologicamente de se acalmar para dormir de maneira saudável. A parte do cérebro que lhe permite começar o processo de aprender a regular suas próprias emoções, ou auto-acalmar, não está bem desenvolvida até os dois anos e meio a três anos de idade. Bebês e crianças pequenas dependem de seus pais para ajudá-los a se acalmar e aprender a regular seus sentimentos intensos – eles são os “reguladores emocionais” da criança.”

Barbara Nicholson e Lysa Parker

O Dr. Jay Gordon, autor do livro “Good Nights: The Happy Parent’s Guide to a Good Night’s Sleep”, também fala sobre os problemas na intervenção do sono de bebês.

“Eu não recomendo nenhuma alteração forçada do sono durante o primeiro ano de vida. Provavelmente a única exceção a isso seria uma emergência envolvendo a saúde de uma mãe que amamenta. Há muitas sugestões em livros e revistas para forçar o bebê a “dormir a noite toda” durante os primeiros meses ou durante o primeiro ano. Eu não acho que essa é a melhor coisa a fazer, e tenho certeza de que o bebê que recebe essa “não resposta” dos pais, o mais provável é que ele se feche pelo menos um pouco.”

Dr. Jay Gordon

Para finalizar, o Dr. Sears, quem cunhou pela primeira vez o termo attachment parenting (criação com apego) e autor do livro “The Attachment Parenting Book”, também fala sobre o assunto:

“Se o despertar da noite é o resultado de uma necessidade ou de um hábito, isso é um julgamento, e dos mais difíceis. Os bebês diriam que eles precisam de conforto, mas os treinadores de sono afirmariam que é um hábito.”

Dr. William Sears

Quando bate o arrependimento

Por mais que as consultorias divulguem massivamente seus casos de sucesso, há uma quantidade imensa de casos de fracasso que, obviamente, não são divulgados. Fracassos esses do ponto de vista dos pais, porque para o bebê, nunca é um caso de sucesso.

São inúmeros os relatos de pais e mães que se arrependeram, que não viram melhora, ou que se sentiram violentando seus bebês e a si próprios. Para todas essas famílias, nós lamentamos profundamente e estamos fazendo o nosso melhor para evitar que mais famílias passem por isso, quando lerem esse texto e desistirem de contratar uma consultoria de sono.

Em resumo: o treinamento de sono de bebês é um ótimo negócio. Menos para o bebê.

A essa altura do texto, é bem provável que você tenha entendido por que há tantas consultorias de sono e por que esse negócio é tão rentável.

As consultorias ganham quantias expressivas por seus serviços e produtos, os pais e mães voltam finalmente a dormir tranquilos, como era quando eles não tinham filhos.

Mas e os bebês?

Os bebês conhecem apenas uma forma de pedir ajuda, que é através do choro. Mas o que acontece quando silenciam o choro desse bebê?

Dentro de todo esse negócio lucrativo, o elo mais fraco é esquecido.

Alternativas: o que fazer ao invés de treinamento de sono.

Nós sabemos que depois de ler tudo isso, de ter todas estas informações, você pode estar sentindo tristeza, apatia, frustração ou até depressão por não ver saída para sua fadiga e abstinência de sono.

Nós dizemos que há sim. Nenhuma destas saídas é uma fórmula milagrosa e nenhuma delas levará a 8 horas de sono ininterruptas, como prometido por aí. As soluções que propomos são positivas no aspecto de potencializar a capacidade natural do seu bebê em dormir, sem atrelamento aos danos. E, claro, visam apontar e solucionar o real problema que é a fadiga e a sobrecarga materna, e não o sono do bebê.

Vamos listar para você uma estratégia chamada higiene do sono. Ela nada mais é do que uma ajuda, não milagrosa, que pode melhorar a qualidade do sono do seu filho.

  • Deixe a casa clara de dia e o quarto o mais escuro possível à noite. Isso ajuda na regulação dos hormônios do despertar e do sono, que são estimulados pela luz ou pela ausência dela.
  • Não use telas (TV, celular, tablet) após as 18:00. Se a criança for menor de 2 anos, evite usar ao máximo em qualquer horário.
  • Respeite as sonecas do dia. Nada de deixar sem dormir durante o dia para dormir melhor à noite.
  •  Não faça brincadeiras muitos barulhentas ou espalhafatosas no final do dia. Deixe o ambiente calmo.
  • Faça rituais de sono, com pouca luz, banho, música relaxante e até uma massagem. Isso sinaliza para o bebê que a hora do soninho está chegando.
  • Aprenda a reconhecer os sinais de sono do seu bebê. Bocejou muito? Está choroso sem causa aparente? Coça os olhos ou ouvidos? Deita no seu ombro? Inicie o que for necessário para ajudá-lo a dormir. As bengalas do sono existem para isso.
  • Tente manter uma sequência no dia a dia. Nada engessado, mas de forma a deixar o bebê confortável ao saber as atividades em que estará envolvido. Chamamos isso de rotina maleável, previsibilidade.
  • Tente manter o horário do sono noturno o mais regular possível.
  • Não acenda muita luz, converse ou brinque com o bebê quando ele despertar na madrugada. Apenas o atenda de modo calmo e sereno.
  • Amamente! O leite materno da madrugada tem triptofano e melatonina que ajudam no sono. Além disso amamentar protege contra morte súbita.
  • Mantenha a criança em um local seguro durante seu sono, com roupa adequada e ambiente com temperatura agradável.
  • Use ruído branco (barulho semelhante a um chiado de rádio ou uma chuvinha, de forma contínua).
  • Se o bebê já se alimenta, não dê nada à base de cafeína. As mulheres que amamentam devem ficar atentas ao excesso de cafeína ingerido rotineiramente.

Mas sabe o que é mais importante? A rede de apoio. E quando dissemos isso não estamos nos referindo apenas à ajuda de avós, amigas e familiares. Sabemos que muitas famílias não podem contar com este privilégio.

Rede de apoio é qualquer auxílio que fortaleça você para a parentalidade que você deseja. Por isso, este texto pode ser encarado como uma rede de apoio, um fortalecimento. Vários perfis em redes sociais podem inspirar você para superar seus limites. Grupos de encontros de puerpério ou parentalidade são ótimos para que vocês troquem experiências e entendam que os bebês que acordam na madrugada são normais e bastante comuns.


Conexão em rede social é muito bom, nós também amamos. Mas também sabemos que consome um tempo danado. Se você está passando por uma “bela” abstinência de sono, troque um pouco o tempo no celular por tempo de sono. Priorize. Não gaste tempo lustrando móveis ou mantendo a casa brilhando. Mantenha a casa no modo “funcionamento básico” e priorize o seu descanso. Converse com seu parceiro ou parceira, divida as tarefas.

E não se esqueça de se comunicar. Muitas vezes as pessoas não ajudam porque não sabem exatamente do que você precisa, mas estão dispostas. Se uma amiga ou amigo for lhe visitar, peça a ela de forma clara que lave as louças.  Diga à sua vizinha ou vizinho que, quando for à padaria, também traga pão para você. Comunique as suas necessidades de forma clara para que você aumente suas chances em ser atendida mais vezes e de melhor maneira. Assim sobra tempo para que você foque no seu bebê e respeite seu desenvolvimento natural.

E se, mesmo assim, com toda a informação, com as sugestões acima, você considera que seu limite foi atingido e que precisa de alguma intervenção real, sinta-se acolhida na sua decisão. O que nós queremos é que os treinamentos sejam desmistificados e vendidos com sua real tarja de risco. Que as pessoas saibam seu lado negativo e possam, de maneira lúcida, optar por aplicá-los ou não.

 Créditos e bibliografia.

  • O papel do pediatra na prevenção do estresse tóxico na infância , Nº 3, Junho de 2017 – SBP
  • NORO, G.; GON, M. C. C. Epigenética, Cuidados Maternais e Vulnerabilidade ao Estresse: Conceitos Básicos e Aplicabilidade. Psicol. Reflex. Crit. Porto Alegre, v. 28, n. 4, p. 829-839, Dez. 2015
  • DALBEM, J. X.; DELL’AGLIO, D. D. Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 57, n. 1, p. 12-24, 2005.
  • Privação afetiva e suas consequências na primeira infância: um estudo de caso. Inter Scientia. v. 6, n. 2, p. 91-111, 2018.
  • TRONICK, E. Still Face Experiment: Dr. Edward Tronick. Youtube, 30 nov. 2009.
  • US Experiment on infants withholding affection. St Paul’s Collegiate School Hamilton, 2013.
  • Behavioral Sleep Interventions in the First Six Months of Life Do not Improve Outcomes for Mothers or Infants: A Systematic Review – Pamela S. Douglas, MBBS, FRACGP, IBCLC, PhD,* Peter S. Hill, MBBS, DRACOG, PhD† – Vol. 34, No. 7, September 201
  • Dulces Suenos, cómo lograr que tu hijos duerman tranquilos – María Berrozpe 2017
  • La revolucion de la crianza – Vanina Schoijett 2017
  • Soluções para noites sem choro – Elizabeth Plantey  2002

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.

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