Já faz um tempo que eu desejava escrever sobre a TV, e principalmente sobre como nós lidamos com ela em casa. Mas eu sempre pensava que esse texto deveria ser para um certo tipo de pais e mães.

Existem pessoas que já conhecem todos os estudos sobre a televisão e seus malefícios para as crianças. Essas pessoas, talvez, tenham decidido por cortar o acesso de seus filhos à TV. Também há pessoas que sequer têm uma TV em casa, por opção pessoal baseada em seus valores.

Porém, esse texto é para você que, assim como eu e minha esposa, sabe dos problemas da TV, que já leu sobre como a exposição de crianças à tela aumenta os níveis de serotonina, e conhece tantos textos sobre os problemas da exposição prolongada, mas que… Simplesmente achava que não tinha outra solução.

Esse texto é para você que também acha que não dá para competir com a TV, e pensa que ela é mais forte do que nós. Digo isso no sentido de que precisamos recorrer a ela para “entreter” os nossos filhos de algum jeito. Isso porque — veja só — nós somos humanos e não aguentamos entreter uma criança 24 horas por dia.

É, esse foi o nosso maior engano.

Você, como nós, provavelmente também foi criado na frente de uma TV. Então, parte da sua história pode ser parte da nossa também: aquele programa infantil característico, aqueles desenhos nostálgicos, aquele show com apresentadoras infantis, o seriado japonês e tudo mais.

A diferença é que, na nossa época, crianças só tinham acesso — de fato — à TV durante o período da manhã, ou da tarde, dependendo do turno em que você estudasse. Portanto, à noite, não havia programação infantil na TV. Hoje, com a tecnologia e o milagre do streaming, podemos assistir qualquer coisa sob demanda na Netflix e no Youtube, por exemplo. E os nossos filhos também podem.

Consequentemente, as crianças podem passar muito mais tempo expostas à TV do que naquela época. Se existe uma coisa que eu me lembre muito bem da minha infância, era que a TV, durante a noite, era uma coisa muito chata porque era sempre jornal, novela, ou filmes que não faziam o menor sentido para mim.

Hoje, uma criança pode assistir Dora Aventureira às 23:00 da noite.

Eu sei.

O Dante já assistiu.

A coisa toda começou bem devagar, quando o Dante tinha seus 2 anos de idade. Começamos deixando-o ver um pouquinho de TV, mas a cada dia que passava, o tempo em que ele passava com os desenhos aumentava mais. Esse movimento foi bem gradual, e “coincidentemente” em uma fase em que eu e a Anne estávamos bem esgotados pelas demandas da vida.

A TV entra nas nossas vidas de uma maneira bem sedutora, porque nos dá um respiro maravilhoso dos nossos filhos. Por alguns minutos, podemos respirar, pensar em outra coisa e mergulhar no celular. Só que nem tudo no mundo é perfeito, né?

Com o tempo, o nosso filho foi ficando cada vez mais irritadiço, mais impaciente, mais choroso. Tudo era motivo para grande resistência e longas sessões de choro agudo. Buscávamos forças para sermos empáticos com as dificuldades que ele apresentava. E, na medida do possível, procurávamos possíveis explicações para todos aqueles desafios que estávamos enfrentando com o Dante.

— Deve ser a chegada do irmão…

— Ah, é o resfriado…

— Hmmm, devem ser os molares nascendo…

Mas não era nada disso, era a TV.

Dante, que antes assistia TV por uma hora quando acordava, já assistia desenho durante manhã, tarde, noite e… de madrugada. Não de maneira ininterrupta, claro, mas em sessões bem longas.

E, enquanto batíamos as nossas cabeças, tentando descobrir como resolveríamos aquele problema, tivemos uma ideia radical: cortaríamos a TV no melhor estilo detox. Apesar de certos quanto à nossa decisão, éramos só medo por dentro:

— Mas o que nos resta fazer?

— E se ele pedir para assistir, o que fazemos?

— Será que ele vai ficar entediado?

— Mas e se ele não quiser brincar com a gente?

Bem, talvez tenha sido sorte nossa, mas logo no primeiro dia, a mudança foi radical. O primeiro dia de detox seria um sábado, e eu estava morrendo de medo do que aconteceria quando ele pedisse para assistir a televisão.

E a resposta mais radical foi a dele, que nem pediu seu desenho matinal, mas ficou brincando comigo das coisas que costumávamos brincar, antes de sermos sugados pela TV.

Ah, sim, não pense você que foi tudo lindo e maravilhoso. Afinal, como em qualquer desintoxicação, eventualmente ele pedia e insistia para ver algum desenho, mas o que fazíamos era reconhecer essa necessidade dele, de maneira bem empática:

— Poxa, filho, você queria ver muito Dora?

— Sim…

— Eu sei filho, sei que você está triste. Mas a TV está com problema.

Normalmente, isso funcionava bem, mas às vezes havia protesto! Só que, a cada dia, os protestos ficavam cada vez menores e aquela criança linda, serena, pacífica e que dormia às 19:00 (algo que acontecia há tanto tempo) retornou para nós. E que retorno maravilhoso!

A TV foi o que nos afastou durante esse tempo, mas abandoná-la fez um processo curativo tão lindo em nossos vínculos que eu ouso dizer que sou grato por termos fraquejado um dia e flertado tão perigosamente com ela.

Bem, esse texto é para vocês, que vivem de alguma maneira o que nós vivemos. É possível viver sem TV. Mais ainda: é possível viver bem melhor sem TV, acredite. Sei quantos links de estudos e quantas matérias sobre os malefícios vocês devem ter lido, nós também. Mas o importante é que vocês saibam que é possível.

E isso não significa que vocês precisarão ficar 24h de novo em função deles. Ah, mas eles não vão ficar entediados? Sim! Dante fica todo dia entediado, em algum momento! E isso não é uma coisa ruim, o tédio é uma coisa maravilhosa para viver, porque é através dele que novas coisas são criadas, que novas e incríveis brincadeiras são inventadas, que novas bagunças são planejadas. E eu vejo isso todos os dias, com um baita sorriso no rosto.

É possível!


Hoje em dia, claro, não estamos tão restritivos assim. Dentro da nossa rotina, temos um período em que a TV é permitida, e normalmente é para assistir a algum filme infantil. Depois disso, nada de televisão, a não ser que seja um dia daqueles, né?