Bater educa? Quero começar de um ponto em que a gente já concorda: espancar criança não funciona, é abuso, e isso nem deveria estar em discussão. Mas eu sei que muita gente ainda pensa que um tapinha de vez em quando ajuda a criança a aprender que aquilo não pode.
Então vamos conversar sobre o que a tal palmada educativa realmente ensina. Porque ela ensina, sim, algumas coisas. Só que não são as que a gente imagina.
Medo não é respeito
O argumento mais usado a favor da palmada é que ela ajuda a criança a se comportar. Não ajuda. Bater só ensina a criança a ter medo de você. Medo, inclusive, de ser pega fazendo alguma coisa que você possa entender como mau comportamento.
E aqui eu preciso ser bem honesto: medo não é respeito. A gente confunde muito as duas coisas por causa das nossas próprias infâncias, em que isso vinha sempre misturado. “Eu respeito porque tenho medo.” Só que é possível construir uma relação de respeito sem medo nenhum envolvido.
Por que a criança mente na sua cara
Um jeito de entender isso é olhar a situação pelos olhos da criança. Tenta lembrar como você pensava quando era pequeno. Ninguém pensava “não vou fazer isso porque aprendi que é errado”. A gente pensava “não vou fazer porque dói” ou “se eu for pego, vou me dar mal”.
Nossos filhos pensam igual. E esse é o primeiro ensinamento da palmada: o importante é não ser pego, e não a coisa em si. A ideia deixa de ser fazer diferente e passa a ser esconder melhor e não assumir.
Sabe aquela cena? “Foi você que fez isso?” “Não, não fui eu.” E a criança já começa a chorar. É o medo da palmada, da surra que ela acha que vai levar. Ela não está mentindo para te provocar. Ela está mentindo porque está em pânico.
Se a gente quer que nossos filhos confiem na gente e contem tudo, a relação precisa ser segura para eles falarem também o que fizeram de errado. Eles não podem enxergar a gente como um juiz pronto para sentenciá-los à prisão perpétua. Criança com medo não conta.
Quando amor e violência andam juntos
Quem nunca ouviu “isso dói mais em mim do que em você”? Não dói. Quem está apanhando é quem sente a dor. Essa frase é um jeito do adulto tentar se solidarizar com uma dor que ele nem sabe qual é.
O problema mais grave está em outro lugar. Quando eu digo “eu te amo muito e por isso estou te batendo, para te educar”, estou ensinando que amor e violência caminham juntos. A criança cresce achando normal bater em quem a gente ama.
Pensa num menino que apanha e que vê o homem da casa bater em quem ama, às vezes na própria mãe dele. Ele aprende que é assim que as relações amorosas funcionam. Não é determinístico, ele não vai virar um agressor necessariamente. Mas o caminho fica bem pavimentado.
E esse ensinamento vale para os dois lados. A criança não aprende só a praticar violência lá na frente com alguém que ama. Aprende também a aceitar ser violentada por quem, a princípio, a ama.
O que eu vejo no consultório
Talvez você esteja pensando que eu estou forçando a barra. Não estou. Como psicanalista, eu atendo uma quantidade enorme de pacientes que ainda vivem ciclos de violência na vida adulta e não entendem por que repetem essas situações.
Quando a gente olha para a história dessas pessoas, encontra pais e mães que violentaram aquela criança. Isso fica marcado. A pessoa passa a achar que merece aquilo, que essa é a forma de se relacionar. Não é simplesmente uma escolha errada de parceiro. Está na constituição do que ela entende que merece receber.
Percebe quanto sofrimento na vida adulta a gente pode evitar só não batendo nessa criança? É isso que a palmada, de fato, ensina.
A palmada nunca é o último recurso
Aí você pode me perguntar: “mas então o que eu faço?”. Eu sei que colocar limites e disciplinar uma criança é muito difícil. Eu tenho quatro filhos, eu sei. Mas a violência nunca deveria ser uma opção.
Se você ama alguém, você quer ajudar essa pessoa. Você vai orientar, ser empático, se conectar e ensinar como atravessar aquela dificuldade. Criança nenhuma faz o que faz por pura maldade, porque isso não existe.
Muita gente acha que não tem outro jeito e que, portanto, a única saída é bater. Não é. A palmada nunca vai ser o único recurso, nem o último. Sempre existe uma solução baseada no vínculo, no diálogo e no entendimento do que a criança está passando.
Por isso, quero te fazer um desafio. Deixa nos comentários o problema mais difícil que você vive hoje com seu filho. Eu vou pensar em um conteúdo para te ajudar a repensar essa situação, com alternativas para esses momentos mais desafiadores.
Qual é a situação com seu filho em que você sente que só a palmada resolve?



