Se você já acompanha o meu trabalho, você já imagina que eu desencorajo o uso de castigos para disciplinar filhos. Eu tenho alguns textos que falam bastante sobre os problemas do castigo, como Cantinho do Pensamento, por que é uma Porcaria? Nesses textos, eu sempre abordo por que castigos são ineficazes a longo prazo, ou por que eles passam a ideia errada para os nossos filhos, e como que eles focam no mau comportamento em si, ao invés de realmente ajudar os nossos filhos.

E, bem, a resposta a esses textos é sempre a mesma:

— Criticar o cantinho do pensamento é fácil, quero ver fazer diferente! Quero alternativas!

Por isso, estou escrevendo esse texto, que é uma coletânea do conteúdo que eu já produzi, oferecendo alternativas ao castigo mas também com muitas outras soluções novas para desafios do dia-a-dia.

O primeiro é o texto 12 Alternativas para o Castigo, e também existe um vídeo com alternativas:

Mesmo assim, eu pensava em todas as pessoas que possuem dificuldades de abraçar a disciplina positiva, porque simplesmente não sentem que ela resolveria seus problemas do dia-a-dia com filhos tão bem quanto um castigo ou punição.

Por outro lado, se pensarmos dessa maneira, que nada resolve um problema tão bem quanto um castigo, você só precisaria colocar seu filho de castigo uma vez na vida. E o que mais vemos em diversos relatos são histórias de filhos que não se importam mais quando são colocados no cantinho do pensamento. Histórias de filhos que, inclusive, zombam do castigo.

Isso significa que as crianças são maquiavélicas? De jeito nenhum. Significa que o castigo está brando demais e precisa ser intensificado? De jeito nenhum. Tudo isso é apenas mais um indicativo de que castigos são ineficazes.

Mas eu ainda precisava entender quais são os problemas tão insolúveis que fizessem com que algumas pessoas só pensassem no cantinho do pensamento como única solução possível. Então, resolvi ir à minha página do Facebook e perguntar para as pessoas, pedindo exemplos desses momentos desafiadores.

Sempre que o meu texto sobre os problemas do castigo é repostado, ele é recebido ou com muito amor, ou com muita indigna…

Posted by Paizinho, Vírgula on Wednesday, August 9, 2017

 

Pronto! Agora eu tenho material suficiente para trabalhar e oferecer mais alternativas para pais e mães, certo? Hmmm, não exatamente. Eu notei alguns padrões nas respostas e quero dividir isso com você, porque talvez esses padrões sejam o que nos impede de aplicar a disciplina positiva com os nossos filhos.

Cadê os exemplos?

Curiosamente, grande parte dos comentários no post eram reflexões de pais e mães sobre a necessidade do castigo. As pessoas escreviam sobre como é importante dar limite para os nossos filhos, para criarmos uma geração de adultos responsáveis e, por isso, era importante castigar os filhos.

É nesse momento que precisamos falar que limites existem, sim, na disciplina positiva. Os meus filhos, por exemplo, não podem fazer o que eles quiserem, não podem dormir a hora que desejarem, não podem comer apenas o que gostam, nem assistir TV o dia todo. Há regras e limites na disciplina positiva, mas elas são empregadas com empatia e respeito.

Ainda sobre limites, você pode encontrar mais informações nos textos Disciplina Positiva para Iniciantes — Estabelecendo Limites e Sobre Disciplina Positiva, Limites e Outras Alegrias. Tenho até um vídeo falando sobre limites!

De toda forma, não encontrei muitos exemplos reais sobre desafios com os filhos. Por isso, reforço o pedido: deixem aqui, nos comentários desse post, os problemas que você enfrenta na educação dos seus filhos. Podemos conversar por aqui e encontrar alternativas respeitosas!

Idade faz TODA a diferença

Outra coisa que percebi foi a ausência de um dado fundamental: a idade da criança. Você pode achar que isso é irrelevante, mas a idade é fundamental para entendermos o estágio de desenvolvimento dos nossos filhos. E conhecendo mais sobre os comportamentos esperados para cada idade de uma criança, é mais fácil modelar as nossas expectativas de acordo com o que os nossos filhos têm capacidade para nos oferecer.

Por exemplo, é de se esperar que um bebê de 1 ano de idade, que acabou de aprender a andar, dê muito trabalho explorando a casa. Ele vai mexer em tudo, mesmo que você diga “não”. Isso significa que ele é mal-criado? De jeito nenhum. Por isso, que redirecionar a atenção deles e mudar alguns objetos de lugar na casa talvez sejam as alternativas mais indicadas.

Os famosos dois anos

E já que falamos em idades, não podemos deixar de fora os famosos (ou terríveis) dois anos. Aquela idade que já tem fama de ser desafiadora por si só. E por que isso? Bem, porque normalmente é uma fase caracterizada por muitas crises de choro, muitos nãos vindos dos filhos e muita, mas muita resistência.

Minha pequena de 2 anos é super autoritária, birrenta, quer jogar tudo no chão.

Esse foi um dos comentários, e é algo que é bem comum nessa fase, mesmo. Não significa que todas as crianças de 2 anos se comportarão dessa maneira, mas se fizerem isso, é algo de se esperar. Elas ainda não tem a estrutura emocional para lidar com grandes sentimentos negativos e, por isso, podem frequentemente explodir em ataques de raiva e choro.

Isso significa que sua filha é super autoritária? Não necessariamente.

Já coloquei ela de castigo mesmo, sentada sem fazer nada porque ela quebrou um prato e quase se cortou por isto. Tudo porque jogou o prato longe. Ela faz isto quando tá triste, feliz, parece grego.

Uma das sensações mais comuns que nós, pais, temos é a de estarmos perdidos. E se nós, adultos, que temos mais consciência sobre os nossos corpos e sentimentos, ficamos frequentemente perdidos, imagine uma criança de dois anos. É difícil para nós, mas muito mais para eles.

De toda forma, vamos à questão levantada: um prato foi lançado e quebrou. O que fazer? Só porque é um momento difícil para a criança de dois anos, devemos deixá-la fazer qualquer coisa? Não, mas isso não significa que a única saída é o castigo.

A minha reação, normalmente, é de demonstrar o que eu sinto, mas acolher e envolver na resolução do problema também, quando dá.

— Filho! Que isso, quebrou o prato! Olha, eu sei que você está bravo, mas agora tá tudo sujo e quebrado. Se você estiver com raiva, pode bater na mesa — ou qualquer outra alternativa que você tiver em mente.

Como o prato quebrou, não dá para envolver a criança na limpeza, mas sempre que meus filhos jogam comida no chão, eles precisam limpar porque essa é a consequência natural das ações. E, claro, isso quando estou em um dia normal. Quando estou num péssimo dia, minha reação será diferente porque, né? Sou humano.

Essa semana ela saiu com a seguinte frase: “eu gosto”. Ou seja, ele faz porque acha bom, mesmo sabendo que não é certo. Como em alguns momentos isso se repete, uma sequência interminável de malcriações, recorremos ao “vai ficar sentando na cadeira para pensar se o que você fez estava certo.”

Olha, eu entendo muito bem que depois de um dia super cheio, quando estamos cansados, ou quando estamos mesmo perdidos, é muito difícil não cair na armadilha e achar que nossos filhos têm realmente más intenções. E, diversas vezes, levamos nossos filhos muito literalmente, ainda mais quando eles têm apenas 2 anos de idade.

Até os 3 anos, as crianças não conseguem controlar em nada os seus impulsos, então isso significa que, mesmo que elas saibam que algo não é correto, elas não conseguirão controlar o impulso de ir lá e fazer aquilo. É grande demais para elas. E, olhando por esse lado, faz muito sentido o comentário acima.

Por isso, colocar uma criança de 2 anos de castigo por esse motivo não ajuda tanto, porque ela não vai pensar sobre nada. Ela só tem 2 anos. Nessa idade, precisaremos mesmo de muita paciência e repetição, orientando os nossos filhos sobre o que é certo e errado, e mostrando o que eles podem fazer, ao invés de gastar tanta energia dizendo só o que eles não podem fazer.

Se você tiver interesse, também tenho um vídeo sobre os terrible two:

A agressividade que ninguém sabe lidar

A agressividade dos nossos filhos é uma coisa que nos assusta.

Quando a criança bate em você quando contrariada. Já tentei conversar de todas as formas. Nunca batemos ou colocamos de castigo. Nunca assiste e nem ouve nada que tenha violência.

É assim mesmo, ficamos chocados! Se nós não somos agressivos com eles, se eles não assistem desenhos violentos, como é que pode isso? Como assim? Será que os nossos filhos têm um problema de desvio de caráter?

A resposta é não. Mas o que acontece então? Acontece que agressividade é algo natural do ser humano, mas algo que é visto muito negativamente pela sociedade. Desde pequenos somos ensinados a abafar a nossa agressividade, porque ela é “errada”. Mas como que algo natural do ser humano pode ser tão errado?

Por isso que frequentemente ficamos perdidos com os comportamentos agressivos dos nossos filhos, tentando encontrar a origem dela, sendo que a origem está na nossa própria essência. Mas isso não significa que devemos deixar a agressividade rolar solta.

Ela tem o péssimo hábito de bater em mim quando está insatisfeita com as regras ou o combinado. Já conversei e o pai também. Já colocamos ela de castigo por isto também.

Quando uma criança está frustrada com algo, e ela ainda não tem estrutura emocional para elaborar isso, ela tende a ser física e agressiva. O que podemos fazer é ajudar os nossos filhos a guiar essa agressividade, para que ela seja extravasada de uma forma saudável para eles e todos nós.

Não sei como agir quando conversar não resolve: ontem trocando ela depois do banho, ela deitada começou a me chutar, machucando. Expliquei que doía, pedi para parar. Fez diversas vezes, eu falei que ia chorar, ela sorria e continuava fazendo, o que fazer nessa situação?

Isso é algo bem comum também, quando tentamos falar como algo nos deixa triste, e até fingimos chorar em alguns casos, para tentar comover os nossos filhos. E quando a resposta é um sorriso dos filhos, aí sim temos um problema! Todo mundo conclui que a criança é maligna e está tentando provocar os pais quando que, na verdade, ela sorri para tentar fazer com que seus pais sorriam junto. Afinal de contas, desde o primeiro dia de vida, eles aprendem que todas as vezes que sorriem para os seus pais, recebem um sorriso de volta.

Nessas horas de conflito, eu tento falar algo nesse sentido:

— Que isso, filho? Você me bateu, olha, machucou! Eu sei que você está bravo, mas a nossa regra mais importante é não bater. Se você quiser, podemos respirar juntos para você se acalmar — ou qualquer outra alternativa para que a criança consiga se acalmar.

Também tenho um vídeo sobre agressividade e filhos que batem:

Brigas entre irmãos

Esse, sim, é um tema tenso! Pessoalmente, é o momento mais desafiador que enfrento hoje em dia, com dois filhos que têm 2 anos de diferença entre si. Às vezes, eu acordo às 6 da manhã já tendo que apartar briga em cima de mim na cama. É duro, é desgastante, já me fez gritar muito, mas existem maneiras de resolver isso.

O único momento que ponho de castigo é quando um bate/chuta/empurra o outro com força, machucando de fato. Realmente sobre isso não sei que alternativa teria, porque quero que eles saibam que bater, especialmente no irmão, não é certo. Reforço que devem usar as palavras, especialmente pro mais velho, mas ainda assim é bem difícil.

A vida entre irmãos é de muito amor, mas também de muita briga e disputa, porque eles disputam por tudo mesmo. Disputam por atenção, por amor e até para saber quem está certo e errado em uma disputa.

O que eu percebi é que, às vezes, nós acabamos contribuindo para isso, principalmente quando nós assumimos o papel de juízes nas brigas deles. Isso porque sempre vai ter o certo e o errado, a vítima e o agressor, e isso só reforça os papeis em que eles estão inseridos.

Foi assim que eu descobri que eu deveria dar poder a eles para resolver seus próprios problemas, mas apenas quando fossem disputas tranquilas, que não envolvessem perigos físicos para ninguém.

— Ah, é? Hmmm, vocês têm um problema então. Como vão resolver esse problema?

E observe mais do que julgue.

O meu filho de 7 anos está sempre a dizer asneiras e a chamar nomes às irmãs. Eu tento ignorar, desviar o assunto, já conversei com ele e expliquei que isso não se diz, e que ficamos tristes quando o ouvimos falar assim. Mas nada, ele não muda esta atitude.

Quando o problema se torna muito grande, como esse, eu sempre penso na reunião de família. É um momento em que todos se reúnem para discutir e resolver um problema, focando nas soluções e não em quem está errado. Algo como:

— Hoje, eu queria falar sobre um problema que está acontecendo e que deixa todos incomodados. Filho, o que você sugere que possamos fazer para resolver esse problema de falar coisas que são desrespeitosas para suas irmãs?

Tenho um texto explicando passo a passo como funciona A Reunião de Família na Disciplina Positiva. É um recurso extremamente útil, principalmente quando se tem filhos mais velhos.

E, claro, não poderia faltar um vídeo sobre tretas entre irmãos, né?

Quando combinados não são respeitados

Quando fazemos um combinados com os nossos filhos, eles são convidados a pensar sobre os termos e decidir se concordam ou não. Então, quando eles fazem um combinado, as chances de que eles se atenham aos termos é maior.

Geralmente, acabamos caindo em algo parecido com castigo quando a conversa e o combinado não são respeitados.

Mas é isso, as chances são maiores. Isso não significa que vai funcionar sempre.

Ela combina e depois quer descombinar, por mais que eu e o pai não desfaçamos o combinado. Nós temos regras na casa e sempre deixamos elas bem claras, explicamos e conversamos, mas elas as ignora. Sempre conversamos, explicamos, acolhemos, distraímos, brincamos, damos atenção, carinho, mas ela continua assim.

Um combinado pode não funcionar, e nessas vezes, o melhor é conversar com os nossos filhos sobre o motivo pelo qual eles não querem seguir mais aquele combinado. Talvez essa seja uma oportunidade de firmar novos acordos, com novas condições, que sejam mais agradáveis para todas as partes.

E quando a conversa não resolve? Às vezes converso várias vezes, faço ele se comprometer em tentar mudar suas atitudes, mas não resolve. Aí não vejo outra alternativa a não ser tirar as coisas que ele gosta.

Se a conversa não resolve, definitivamente não vai resolver se você tirar as coisas que os seus filhos gostam. Fazer isso faz com que eles foquem em sentimentos de raiva, injustiça e vingança, ao invés de realmente focar em como pensar no coletivo. Casos assim podem ser ajudados por reuniões de família, e também é importante pensarmos em que atitudes são essas que desejamos que sejam alteradas, porque às vezes essas mudanças possam ser grandes demais para os nossos filhos, ou nós podemos alimentar expectativas grandes demais dentro de nós.

Às vezes, é mais sobre nós mesmos

E não, eu não falo sobre sermos culpados de tudo. Não é sobre culpa. É sobre ter consciência sobre nossos sentimentos e necessidades. É entender que, às vezes, somos nós que precisamos de ajuda e apoio.

Na verdade, minha maior dificuldade acontece nos momentos de muito cansaço.

Será que a carga não está pesada demais para você? Normalmente, a carga é sempre mais pesada para a mãe, nessa sociedade em que vivemos. Então você, pai que está lendo esse texto, como está essa coparticipação?

Nos dias atuais, é muito difícil termos redes de apoio consistentes, mas essas são as melhores maneiras de termos equilíbrio e ajuda para lidar com os desafios do dia-a-dia com os nossos filhos. Por isso, todos devem fazer a sua parte na criação dos filhos.

É difícil não notar a maioria esmagadora de mães comentando no post de Facebook que originou esse texto. Pouquíssimos pais comentaram, e isso também só reforça uma outra parte do problema, que é a sociedade machista que pensa que não é papel do pai se envolver na educação do filho. Ainda há muita estrada para percorrer!

Vou ser sincera. Quando estou irritada é que o bicho pega. Ou seja, EU preciso mudar. Acho que o que acontece é que essa mudança é mais difícil.

Realmente, tudo fica mais claro quando percebemos que somos nós que precisamos mudar a maneira que enxergamos os nossos filhos, e isso, muitas vezes, envolve processos de cura doloridos, com ajuda de profissionais.

Quando nos curamos, nossos filhos são curados também.


Agradecimentos

Obrigado à Raquel Petersen, do Jardim do Afeto, por me ajudar a revisar o texto e contribuir com riquíssimas reflexões!

E um imenso obrigado ao Nei Costa, que ilustrou esse post lindamente!