Eu gostaria de conversar sobre um tema que não é tão conhecido aqui no Brasil, mas que é uma das noções mais fortes de disciplina positiva que existe e, portanto, está dentro do que propõe a Criação com Apego: a Comunicação Não-Violenta.

Eu tive contato com a CNV (Comunicação Não-Violenta) pela primeira vez quando estava fazendo meu processo de certificação para líder API. Dentre todos os livros que eu precisaria ler, ele estava lá: Comunicação Não – Violenta – Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais de Marshall Rosenberg. Na verdade, eu li primeiro a versão em inglês, que tem o título de Nonviolent Communication: A Language of Life. Agora, vamos combinar que o título em inglês é infinitamente mais adequado do que o título traduzido. Chamar a CNV de “linguagem da vida” é a melhor definição que se pode dar, enquanto que, pelo menos para mim, “técnicas para aprimorar relacionamentos” certamente não seria algo que me faria comprar um livro, se eu esbarrasse com ele em alguma livraria antes de conhecê-lo.

E, enquanto lia, ficava cada vez mais fascinado com a proposta da CNV, que justamente extrapola o limite da comunicação. Entender e praticar a CNV é um convite para olhar para dentro e para o outro, mas com outros olhos. Olhos de empatia e compaixão.

Mas, infelizmente, CNV não é algo tão conhecido aqui no Brasil. E conhecer a CNV certamente me fez ser um pai melhor, marido melhor, líder de grupo de apoio melhor, enfim, um ser humano melhor. Por isso que sempre tive essa vontade imensa de escrever sobre CNV aqui no blog, mas nunca consegui porque sempre quis que fosse um post perfeito e completo, até me dar conta que eu não precisava disso e nunca ia conseguir fazer isso. Então, aqui você vai encontrar um pouco do que é a CNV, como ela pode ajudar no seu relacionamento com o seu filho e, principalmente, um convite para ler esse livro incrível.

Um Pouco De História

Eu sei, eu sei. Eu também não gosto de história e tenho péssima memória para guardar “fatos históricos interessantes”, mas acho muito importante falar brevemente do contexto do autor e da CNV. Prometo ser rápido!

Marshall Rosenberg é um psicólogo americano que reflete sobre o que nos leva a nos comportarmos de maneira violenta e, por outro lado, o que nos mantém conectados à nossa natureza compassiva. Essas questões começaram já na infância dele, quando sua família se mudou para Detroit e, logo depois, um conflito racial explodiu. Muitas pessoas foram mortas e, quando os conflitos diretos terminaram, ele percebeu que algo havia mudado. Ele sentiu a descriminação racial na pele por ser judeu: era jogado no chão e chutado, por causa do sobrenome que ele tinha.

Quando se tornou psicólogo, Marshall continuou estudando o papel da comunicação e qual o peso que as palavras tinham. Como uma abordagem para promover o respeito, atenção e empatia, ele criou a CNV que busca uma entrega mútua de coração entre as pessoas. Ao longo das décadas, Marshall utilizou a CNV para auxiliar comunidades de países que viviam situação de guerra ou conflitos religiosos e, conforme seus relatos no livro, a CNV sempre ajudou imensamente as pessoas dessas comunidades.

O Que É CNV?

Antes de entrarmos a fundo em o que sugere a CNV, é muito importante frisar aqui que não se trata de uma técnica de linguagem, nem um conjunto de técnicas para comunicação. A CNV vai muito além disso, pois abrange um estado de consciência em que a compaixão floresça entre as pessoas, através da comunicação.

Dito isto, a CNV se baseia em quatro componentes, que habitam um diálogo entre pessoas:

  • observação;
  • sentimento;
  • necessidades;
  • pedido.

Expandindo esses componentes, podemos ter algo assim:

  • observamos o que está acontecendo de fato. Sem julgamentos e sem juízo de valores. Apenas uma declaração do que estamos observando que pode (ou não) ter nos agradado;
  • identificamos e nomeamos o que estamos sentindo em relação ao que observamos. Ou seja, falamos que estamos nos sentindo frustrados, alegres, magoados, irritados, dentre outros;
  • informamos as nossas necessidades, valores e desejos que estão conectados aos sentimentos que nomeamos anteriormente. Em outras palavras, quais são as necessidades que nos fizeram nos sentir daquela maneira;
  • pedimos que determinadas ações concretas sejam realizadas, de forma a atender nossas necessidades.

Lendo assim, pode até parecer fácil praticar a CNV. Mas acredite, não é. Para você conseguir atingir este nível de consciência na comunicação, é necessária muita dedicação, prática e, principalmente, vontade do coração.

Observação

Quando combinamos observação com avaliação, as pessoas tendem a receber isso como crítica. – Marshall Rosenberg

Um dos maiores desafios da CNV é a observação sem julgamento. Apesar de todos nós concordarmos que não devemos julgar uns aos outros, fazer isso na prática é muito difícil. Na maioria das vezes, nós não percebemos, mas nossos discursos sempre recebem injeções de julgamentos e avaliações, impedindo que um canal de comunicação compassivo e empático seja criado entre as pessoas.

Do outro lado, está a pessoa que está recebendo o julgamento e, sempre que uma pessoa sente a menor pitada de julgamento em relação a ela, a tendência é dessa pessoa se armar e ficar na defensiva, bloqueando a compaixão e empatia que estamos buscando.

A seguir, você pode encontrar alguns exemplos de declarações com julgamento e, em seguida, as mesmas declarações sem julgamento:

– Você é bagunceiro, olha a bagunça que sempre está no seu quarto.

– Você nunca ajuda em casa.

– Você é preguiçoso, tem um monte de dever de casa para fazer.

Quando você faz declarações como esta, você está atribuindo valores às pessoas. Se tentarmos reformular estas sentenças e remover o julgamento, elas poderiam ficar assim:

– Seu quarto está bagunçado.

– Você não ajudou a manter a casa limpa nem ontem, nem hoje.

 – Você não fez seu dever de casa.

Além do julgamento, comparações costumam ser igualmente prejudiciais a qualquer julgamento. E, se olharmos para os nossos filhos, comparar é o que mais fazemos com eles, mesmo quando eles ainda são bebês.

Sentimentos

Expressar nossa vulnerabilidade pode ajudar a resolver conflitos. – Marshall Rosenberg

Assim como observar sem julgar, identificar e nomear nossos sentimentos não são tarefas fáceis porque passa por lugares que a maioria de nós desejamos distância:

  • assumir responsabilidade pelos nossos sentimentos;
  • demonstrar vulnerabilidade.

Sobre a responsabilidade pelos nossos sentimentos, irei detalhar isso no próximo tópico. Mas e quanto a demonstrar vulnerabilidade? Por que isso é algo que devemos evitar ao máximo? Quando expomos nossos sentimentos, estamos sendo os mais sinceros possíveis em nossa comunicação. Por algumas pessoas, isso pode ser interpretado como vulnerabilidade, mas na verdade, são apenas os seus sentimentos.

Outra dificuldade muito grande dentro da CNV, que diz respeito aos nossos sentimentos, é que, muitas vezes, nós achamos que estamos falando como estamos nos sentindo, mas na verdade não estamos. Veja os exemplos:

– Eu sinto que o meu bebê é muito agitado.

– Eu sinto como se estivesse criando um filho sozinha.

– Sinto que tudo isto é inútil.

Todos os exemplos acima não dizem sobre o que as pessoas estão sentindo mas, na verdade, dizem sobre o que as pessoas pensam sobre elas ou sobre outras pessoas. O simples fato de ter a palavra “sentir” no meio da sentença não garante que você está falando de um sentimento. Na verdade, quando existe a palavra “sentir” na sentença, é bem provável que você não esteja falando de sentimentos reais.

Veja uma lista de algumas palavras que são sentimentos e que podem ser empregadas quando alguma necessidade sua não é atendida:

aflitodesapontado
angustiadoexausto
assustadofurioso
bravoimpaciente
cansadoincomodado
chateadoirritado
confusomagoado
culpadopreocupado
deprimidotriste

Tente se expressar usando alguns desses sentimentos, e você perceberá que todo o tom da conversa muda!

Necessidades

Quando expressamos nossas necessidades, temos mais chance de vê-las satisfeitas. – Marshall Rosenberg

Todos nós temos necessidades e valores que nos dizem como nós devemos encarar a vida e o que devemos esperar dela e das pessoas. Isso está intimamente ligado com os nossos sentimentos e, como mencionei no item anterior, precisamos assumir responsabilidade pelos nossos sentimentos.

Quando eu falo em assumir responsabilidade pelos nossos sentimentos, eu quero dizer que, muitas vezes, nós atribuímos os nossos sentimentos como sendo de responsabilidade de outras pessoas. Na realidade, nossos sentimentos existem em função das necessidades e valores que possuímos. As pessoas, por sua vez, podem (ou não) atender nossas necessidades e valores, desencadeando os nossos sentimentos.

Este é um tema bastante confuso, então vou usar alguns exemplos aqui para facilitar o entendimento:

– Você me desapontou ao não aparecer na noite passada.

Neste exemplo, uma pessoa diz que seu desapontamento é culpa da outra pessoa, que não apareceu. Compare agora com essa versão alterada da mesma pessoa desapontada, mas que agora assume a responsabilidade dos seus próprios sentimentos:

– Fiquei desapontado quando você não apareceu, porque eu queria conversar a respeito de algumas coisas que estavam me incomodando.

Agora, vamos para um exemplo que está mais dentro da nossa realidade de pais e mães:

– Fiquei muito irritado porque você bagunçou seu quarto.

Quem nunca disse ou pensou em dizer algo parecido? O problema deste discurso é que ele culpa o filho por estar sentindo-se irritado, e isso não é uma verdade. Perceba a diferença quando a sentença é alterada, para que o pai ou mãe assuma a responsabilidade por seu sentimento:

– Fiquei muito irritado quando vi o quarto bagunçado, porque eu preciso de um mínimo de organização e ordem na casa para me sentir confortável.

Essa mudança de foco pode parecer banal, mas não é. Quando nós assumimos os nossos sentimentos, passamos a refletir de maneira diferente sobre os nossos sentimentos e, principalmente, nossas necessidades. Desse modo, deixamos de culpar os outros (principalmente os nossos filhos) pelo que estamos sentindo. Este não é um processo nada fácil, mas extremamente reconfortante, quando atingido.

Pedido

 É comum não termos consciência do que estamos pedindo. – Marshall Rosenberg

Uma das maiores dificuldades de todos nós é fazer um pedido. Isso acontece porque, muitas vezes, nós sequer sabemos aquilo que desejamos pedir. E por que isso? Não deveria ser fácil nós sabermos o que queremos? Seria, se nós seguíssemos a linha de pensamento da CNV.

Se pensarmos que nós temos necessidades ou valores e o atendimento (ou não) dessas necessidades desencadeia sentimentos em nós, temos a oportunidade de fazer pedidos que tendem a enriquecer nossas vidas. Mas se nós não identificamos as nossas necessidades antes, só focamos em nossos sentimentos e no julgamento dos outros, então fica quase impossível identificar aquilo que realmente queremos pedir.

Além disso, existe uma grande diferença entre pedido e exigência. A diferença básica entre pedido e exigência é que na exigência, as pessoas percebem que serão culpadas ou punidas por não atenderem àquela demanda. E, obviamente, quando uma pessoa ouve uma exigência, as chances de que ela receba aquilo abertamente e atenda com o coração são remotas.

Se conseguirmos identificar nossas necessidades, ligando-as aos nossos sentimentos, é mais fácil fazer um pedido sincero e consciente. Porém, isso não é tudo, porque temos que fazer pedidos claros e objetivos às pessoas, principalmente aos nossos filhos. Por exemplo, pedidos realizados através de uma linguagem positiva são muito mais fáceis de entender do que pedidos realizados através de um discurso negativo. Em outras palavras, é bem mais simples entender o que uma pessoa quer que nós façamos, ao invés do que ela não quer que façamos.

A Escuta Empática

Empatia: esvaziar a mente e ouvir com todo o nosso ser. – Marshall Rosenberg

E como a comunicação tem duas vias, o nosso desafio é nos comunicar através destes componentes mas, também, ouvir de maneira empática através dos mesmos componentes. Essa é a chamada escuta empática.

Eu já falei muito sobre empatia aqui no blog, mas quando eu falo em escuta empática, eu falo em receber com empatia. Dentro da CNV, ouvir com empatia é fundamental para que o vinculo empático seja estabelecido pela comunicação. Empatia é a compreensão respeitosa do que os outros estão vivendo, é se colocar no lugar do outro. Mas, muitas vezes, nós acabamos nos preocupando mais em dar conselhos, encorajar, ensinar ou contar nossas próprias experiências quando que, na verdade, não se trata de nós. Na verdade, trata-se do outro.

Essa urgência de aconselhar e ensinar acaba se tornando ainda mais intensa quando são nossos filhos falando de seus sentimentos para nós. Não que nós tenhamos má intenção, mas talvez a falsa impressão de que nós sabemos de tudo aliada com o nosso maior inimigo de querer proteger nossos filhos de tudo é o que nos faz muitas vezes desligar a escuta empática com os nossos filhos.

Para receber com empatia, precisamos esvaziar a mente e estar ali pelo outro. Precisamos estar ali para ajudar o outro, tentando identificar suas necessidades e sentimentos, oferecendo compaixão e acolhimento. Não é fácil, mas quando duas pessoas conseguem se comunicar empaticamente, dando e recebendo com empatia, algo muda. É como se o tempo parasse, como se a atmosfera ficasse mais leve. É quase como se fosse uma experiência espiritual. Eu sei disso, porque já vivi alguns momentos desses com a minha esposa.

Em Resumo

A CNV não mostra apenas um método de comunicarmo-nos uns com os outros. É mais do que isso, é uma maneira de enxergar a vida e as nossas relações com outras pessoas, através da empatia e da compaixão. E isto é basicamente o que a Criação com Apego propõe que façamos com os nossos filhos, por isso que a CNV dentro de casa, com nossos filhos e parceiros(as) é tão fundamental.

Você pode ter achado esse post gigantesco (e com certeza é), mas garanto a você que ainda tem muito mais do que isso. Leia o livro de Marshall Rosenberg, procure por outros grupos que pratiquem a CNV, converse com seus parceiros(as) e pratiquem já com os seus filhos. Tenho certeza que as coisas irão mudar para melhor.

Se existe uma coisa que posso afirmar aqui é que viver a CNV não é fácil. Requer um exercício constante de avaliação de como estou me comunicando e me relacionando com as outras pessoas. É uma prática diária, mas que vale muito a pena. A CNV tem me ajudado muito não só enquanto pai e marido, mas também enquanto moderador dos grupos de Facebook que participo e, principalmente, como líder de grupo de apoio.

Mas a coisa não para por aí. Um dos maiores presentes que a CNV nos dá é a possibilidade de nos conectarmos com nós mesmos, compassivamente: a autocompaixão.

Quando conseguimos olhar para dentro e nos perdoar, em vez de nos julgar e criticar, temos a oportunidade única de avaliar nossos comportamentos em função das nossas próprias necessidades e dos sentimentos que vêm disso. Se passarmos a avaliar nossas ações com base nos nossos valores e necessidades, ao invés do “porque tenho que fazer” ou de sentimentos como culpa e vergonha, poderemos, então contribuir genuinamente para a melhoria do nosso bem-estar e dos outros também.

Quando escutamos a nós mesmos com empatia, percebemos o inevitável: somos humanos.