O Fim da Cama Compartilhada?

"A cama compartilhada é cercada de mitos e preconceitos. Até que idade pode dormir com os pais? Como é a transição para o quarto da criança? Esse é o meu relato de como o Dante fez a transição para o quarto dele, quando eu menos esperava."

Se existe uma coisa que é cheia de mitos e preconceitos, essa coisa é a cama compartilhada. Tanto que eu já fiz até um post e um vídeo para falar sobre esses mitos. Além disso, existe uma pergunta que assombra todos os pais e mães que praticam a cama compartilhada:

— Até quando o meu filho pode dormir na cama comigo? Qual a idade máxima aceitável?

A resposta a essa pergunta, para desespero de todos nós, é simples: não existe uma idade máxima. E sabe por que? Porque sair da cama dos pais está muito mais relacionado a um sentimento de segurança do que a uma idade específica. A criança só vai tomar a decisão, ou dar os sinais de que talvez esteja pronta para dormir no próprio quarto, quando sentir-se segura para isso.

Mas de onde vem essa segurança? Vem do vínculo, do apego seguro. Não de uma técnica mirabolante, mas de uma confiança de um filho que sabe que poderá contar com seus pais, pois foi atendido em suas necessidades de segurança, afeto e vínculo desde os primeiros dias de vida.

É exatamente por isso que falamos de cama compartilhada e quarto compartilhado dentro da criação com apego, porque precisamos entender que nossos filhos têm necessidades, mesmo depois que o sol se põe. E que essas necessidades precisam ser atendidas mesmo à noite, pelo pai e pela mãe. Quando aquela criança tem essas necessidades suficientemente atendidas, ela passa a sentir a segurança para dormir sozinha. É como se existisse um medidor de segurança para cada filho, só que os níveis variam de uma criança para outra.

Se você estiver pensando que tudo isso é muito vago, bem… É vago mesmo. Não é possível determinar um valor padrão para todas as crianças, a partir do qual elas podem dormir sozinhas. Isso muda não só por causa da personalidade da criança, mas também por causa do contexto familiar e pelo vínculo que ela possui com seus pais e cuidadores.

Eu sei que isso pode ser um pouco desesperador, porque nós sempre precisamos de metas, prazos e limites. Isso nos deixa seguros. Saber que nossos filhos podem dormir até X anos conosco de forma saudável nos deixa em um lugar confortável. Mas a vida não é assim, pelo menos não quando estamos falando de seres humanos. Foi por isso que eu comecei a procurar por relatos e histórias que contassem como foi essa transição natural do quarto dos pais para o quarto da própria criança, para tentar entender como esse processo acontecia.

Esses relatos me deram um pouco mais de segurança para continuar praticando a cama compartilhada sem ter medo de estragar meus filhos para a vida toda. E esses relatos são tão importantes que vou fazer o meu agora sobre a transição do Dante para o próprio quarto.


O Dante sempre dormiu conosco, na nossa cama. Sempre. Mas quando a Anne engravidou do Gael, começamos a pensar na parte prática da coisa, que se resumia a, basicamente, espaço. No caso, falta de espaço.

Nós tínhamos um colchão padrão de casal, que ficava em cima de um estradinho de madeira bem baixo, e isso facilitava bastante a vida do Dante de subir e descer da cama. Apesar disso, ainda era uma cama de casal padrão, e nos apertávamos lá: eu, Dante e Anne barriguda.

Na época, chegamos a pensar sobre a transição do Dante para o próprio quarto, mas antes mesmo de tentar descobrir como poderíamos incentivá-lo a isso, desistimos da ideia. Afinal de contas, em breve, o irmãozinho dele chagaria ao mundo e tudo mudaria nas nossas vidas.

E falando em mudanças, já imaginávamos que o mundinho dele ficaria muito diferente e até mais chato, porque ele teria que dividir nossa atenção e cuidado com um bebê recém-nascido que, naturalmente, vai demandar a atenção e disposição de todo mundo ao seu redor.

Então, estava decidido: adiaríamos iniciar esse processo de transição do Dante para o próprio quarto. E para que ninguém caísse para os lados da cama, de tão apertada que ficaria, compramos um colchão de solteiro e colocamos do lado da cama, fazendo uma bela cama da família.

Nós imaginávamos que o Dante provavelmente iria para o próprio quarto junto do irmão, porque já lemos alguns relatos assim, de como dois irmãos saem do quarto dos pais e passam a dormir juntos, mas no quarto deles. Era com essa hipótese que estávamos trabalhando até então, mas o Dante resolveu que seria diferente.

Desde quando eu comecei a colocar o Dante para dormir (leia esse relato aqui), ele tem dormido comigo de duas maneiras: seja na cama contando história, ou passeando na rua indo até a padaria, mesmo que ele nunca chegue acordado na padaria.

Mesmo aos 3 anos e 3 meses, ele ainda reclamava para dormir, e eu entendo muito isso. Afinal, é muito chato quando o dia acaba e precisamos dormir. Tem tanta coisa divertida para fazer por aí e, de repente, você tem que parar tudo para dormir.

Foi então que, num desses protestos do Dante contra o sono, eu perguntei se ele preferia ir à padaria, ou se preferia ouvir uma história na quarto grande — era assim que chamávamos o nosso quarto. Ele, meio emburrado, acabou respondendo:

— Quero ouvir história na minha cama.

Eu e Anne olhamos um para o outro, com cara de quem não entendia nada. Nós pensávamos que este seria um processo super demorado e cheio de pequenos avanços, mas nada! Dante já dava sinais de que precisava do próprio espaço.

Fui com ele até a caminha dele, contei algumas histórias e ele dormiu a noite toda no quarto dele. E dormiu lá no dia seguinte, e no outro dia, e sempre. Desculpe se eu frustrei você com o meu relato, caso a sua expectativa fosse de uma história cheia de avanços e retrocessos, cheia de drama e confusão. Na verdade, ainda hoje, escrevendo esse relato, fico espantado com a simplicidade de tudo.

Nesse início, quando eu e ele levantávamos, ele costumava olhar para o quarto dele e falr pra mim:

— Papai, eu dormi a noite toda no meu quarto.

E eu respondia:

— É filho, você dormiu direto né? Você gostou de dormir na sua cama?

— Sim!

E se você estiver se perguntando, claro que, alguns dias, ele acaba indo de madrugada para nossa cama e se aninha conosco, mas não vemos problema nenhum nisso. Outros dias, ele dorme direto na cama dele, chegando na nossa cama só para me acordar e irmos para escola, ou para brincar, quando é fim de semana. Também tem dias que ele pede para deitar e dormir no nosso quarto, e não vemos nada de errado com isso, porque dá para ver que a segurança de dormir sozinho ele já tem, mas que talvez, naquele dia, ele esteja precisando de mais contato conosco, mais aconchego, mais carinho.

Nós pensamos que não, que esse dia nunca vai chegar, mas eles crescem mesmo e vão procurar o lugar deles no mundo.

E quem fica se sentindo abandonado somos nós.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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