Sono Infantil, Peitos e o Papel do Pai

"Esse é o nosso relato de como tem sido as nossas noites com o Dante até hoje. As fases difíceis vêm e vão, os desafios mudam, mas máxima permanece: vai passar."

Eu sei, esse título pode parecer um tanto esquisito, mas prometo que você vai entender a conexão entre as palavras que estão escritas ali. Na verdade, não consegui encontrar título melhor que pudesse descrever a odisseia que tem sido colocar o Dante para dormir ao longo do último ano.

Colocar o Dante para dormir sempre foi uma tarefa exclusiva da Anne. Ele não era o tipo de bebê que deixava ser ninado até dormir, que ouvia histórias ou que gostava de canções de ninar. O lance dele era o peito mesmo. Em raríssimas ocasiões, eu conseguia fazê-lo dormir, mas isso acontecia sempre quando eu estava andando com ele na kepina — não sabe o que é uma kepina? Dê uma lida em Babywearing 101 para entender melhor!

Muitos pais (homens) até costumam pensar nisso como uma situação cômoda, porque, afinal de contas, eles não podem fazer nada se o filho só dorme no peito. Coitados de nós, não temos peitos, então ficamos aqui tranquilos curtindo a vida enquanto o bebê vai dormir. Só que, na realidade, aquilo sempre me incomodou muito, porque eu lembro como me sentia frustrado e impotente por não conseguir colocar meu próprio filho para dormir. Mas ok, considerávamos que o Dante era muito pequeno e eu acabava sempre tentando engolir meu orgulho de pai que não sabe colocar filho para dormir.

Os desafios de colocar para dormir

Dante sempre foi um bebê que demandava muito de nós, fisicamente falando. Muito provavelmente, ele demandava tanto quanto qualquer outro bebê demandaria, mas pelo menos compensava com o sono bem tranquilo. Ele dormia facilmente (no peito) e dormia durante a noite inteira. Claro, ele dava aquelas acordadinhas para mamar mas, com a cama compartilhada, nem ele e nem a Anne chegavam a despertar de verdade ao longo da noite.

O tempo foi passando e colocar o Dante para dormir, mesmo para a Anne, começou a ser desafiador. Desligar o Dante não era nenhum passeio no parque, e com Dante aos 1 ano e 4 meses, a coisa seguia um certo padrão: lutava, lutava, lutava e, enfim, dormia. Dormia no peito, mas dormia. Hoje, a gente percebe que ele já estava dando sinais de que aquilo não funcionava mais, ele já estava nos dizendo que precisava de outro tipo de ajuda para dormir, mas nós não queríamos ouvir. Estávamos realmente acomodados com aquela situação, por mais estressante que pudesse ser.

A coisa começou a ficar ainda mais esquisita quando ele estava lá com os seus 1 ano e 7 meses. Lembro que a nossa sensação era de um sono muito desregulado, muita luta, muito cansaço e nada que tentássemos fazer parecia funcionar. Tentamos tudo, exceto, claro, cry it out ou o “famoso” nana nenê, porque, né?

Foi mais ou menos nessa época que duas coisas aconteceram: a primeira foi o fim da nossa creche parental, que ajudava bastante na rotina diária do Dante, e também era uma ótima maneira de canalizar a energia dele. E a segunda coisa foi que a Anne engravidou e, muito provavelmente, essa mudança brusca de sono esteja ligada ao início da gestação, porque os filhos percebem essas mudanças, mesmo que sutis.

Lá pelo quinto mês de gestação, a Anne começou a conduzir um desmame noturno, porque já não estava mais sendo bom para ela amamentar de madrugada. Na verdade, o Dante já tinha começado a dormir direto sem mamar durante as madrugadas e ela só decidiu oficializar isso, então, nas noites que ele acabava pedindo, ela não dava peito e ele era consolado de outras maneiras. Foi difícil, ele chorou e brigou por algumas madrugadas, mas sendo acolhido com todo o carinho e gentileza que poderíamos oferecer, ele parou de mamar durante a madrugada.

Isso, por si só, já foi uma grande vitória, mas não significava que colocar ele para dormir de noite fosse tranquilo. Percebemos que, talvez, estivéssemos colocando ele para dormir muito tarde e, então, ele estivesse muito cansado para adormecer facilmente, como se tivesse “passado do ponto”. Passamos a fazer uma rotina de sono, um pouco mais cedo, que também envolvia tomar banho, escovar os dentes, ler histórias e dormir. Mas isso ainda não estava funcionando bem, porque o processo todo demorava muito e ele ficava mamando eternamente para dormir.

Então, quando ele finalmente dormia, ou nós acabávamos dormindo em seguida, ou não tínhamos mais nenhuma energia para fazer o que gostaríamos de fazer à noite. Pelo menos, ele dormia direto e acabava acordando relativamente tarde, então a Anne conseguia descansar um pouco mais, enquanto eu já estava no trabalho.

Assumindo responsabilidades e confiando

Para aumentar nossa preocupação, Gael estava crescendo na barriga da Anne e cada dia mais próximo de estar conosco, aqui do lado de fora. Ficávamos pensando em como seria para colocar os dois para dormir, e víamos uma família de amigos, que também têm filhos com idade bem próxima. As duas filhas ainda só dormiam com a mãe, no peito, e nós acompanhávamos a dificuldade que era para gerenciar isso tudo à noite. Não preciso dizer que ficávamos apavorados com essa possibilidade, né?

Quando Anne entrou no terceiro trimestre de gestação, decidimos que eu iria assumir o sono do Dante. Ele ainda só dormia no peito, e eu não podia participar dessa etapa, mas não podíamos correr o risco de ter dois filhos que só dormem no peito. Eu precisava encontrar com o Dante uma maneira de fazer isso funcionar.

E então comecei a levá-lo sozinho para o quarto, depois do banho e de escovar os dentes. Não foi fácil, porque ele já começava a chorar e chamar pela mãe assim que entrávamos sozinho no quarto. Foram dias muito desafiadores, mas dias de muito aprendizado. Anne precisava aprender a confiar em mim para fazer isso, eu precisava aprender que eu não era incapaz de colocar meu filho para dormir e Dante precisava aprender que ele era capaz de dormir fora do peito, de outras maneiras igualmente amorosas.

Então conversávamos, líamos histórias, brincávamos de sombra e, eventualmente, ele começou a dormir comigo sem chorar escandalosamente. Acreditamos no processo e, eventualmente, ele começou a funcionar. Insistindo, conseguimos fortalecer nossa própria relação e, nossa! Como eu me senti capaz!

Eu, que sempre dizia:

— Mas é nunca que eu vou conseguir vencer o peito e fazer o Dante dormir!

Eu, que pensava assim, acabei descobrindo que dava! E que podia ser legal também!

E Gael nasceu

Bem, Gael nasceu e tudo mudou, obviamente. Estávamos todos nos adaptando à nova dinâmica da família e Dante, principalmente, ainda sentia bastante a falta de disponibilidade da Anne. Por mais que eu tentasse assumir e compensar nessa parte, ele ainda sentia. E tudo bem sentir isso, afinal, faz parte da vida mesmo.

Isso também refletiu em como Dante era colocado para dormir. Ele voltou a pedir muito a presença da mãe e chorar muito, quando entrávamos só eu e ele no quarto. Foi então que percebemos  que não seria uma derrota completa dar uns passos para trás, para que ela voltasse a participar dessa rotina. A diferença era que agora ele não dormia mais no peito, e então ficávamos nos revezando em cuidar do Gael enquanto ela tentava fazer o Dante dormir.

As noites voltaram a ficar complicadas, até que decidimos todos deitarmos juntos novamente, como se todos fôssemos dormir juntos mesmo, e isso amenizou bastante o processo. De toda forma, o processo ainda era bastante longo e cansativo, mas pelo menos não envolvia uma choradeira sem fim.

Mais ou menos nessa época, resolvemos tirar radicalmente a TV da vida do Dante e, como num passe de mágica, colocá-lo para dormir começou a ficar mais fácil. Foi inacreditável a mudança, mas prefiro escrever essa história em outro post.

O poder do babywearing

Atualmente, Dante tem 2 anos e 8 meses, e, há quase 1 mês, ele não tem mais dormido de tarde. Na verdade, fazê-lo dormir a tarde passou a ser o grande desafio da Anne, até que ela simplesmente desistiu de fazer isso porque não valia mais a pena o esforço.

Isso dificultou um pouco mais as noites porque, obviamente, ele estava muito mais cansado à noite. Foi então que, num belo dia, resolvi pegar o Dante, colocá-lo no mei tai (para entender o que é isso, leia Babywearing 101) e andar de noite com ele até a padaria, para ver se todos nós dávamos uma esfriada na cabeça.

Andei só um pouquinho na rua, nem cheguei a andar um quarteirão inteiro, ele já tinha se aconchegado no meu peito e dormira! Ah, a euforia! Parecia que havíamos descoberto um novo mundo! Voltei para casa com Dante dormindo no mei tai e Anne mal acreditava que aquilo tinha acontecido! Coloquei-o na cama e puff! Dormiu até o dia seguinte!

E foi assim que tem sido, todas as noites. Chego em casa do trabalho, brincamos, conversamos e, lá pelas 19:00, coloco ele em um carregador e vamos na padaria, mas ele nunca consegue chegar acordado na padaria!

Continuo me sentindo ótimo e capaz de fazer meu filho dormir. A Anne, por sua vez, também aprendeu que nós éramos capazes de dar conta disso. E Dante, bem, ele conseguiu aprender a confiar em mim para uma função tão importante e delicada do dia dele, que é adormecer. Já o Gael é outra história, ele é um bebê diferente — não melhor ou pior — e nós também somos pais diferentes, então eu mesmo já consigo fazê-lo dormir com uma facilidade maior, pelo menos por enquanto!

Eu sempre quis escrever sobre o sono do Dante, mas eu sempre sentia que não tinha o que escrever, porque estávamos sempre passando por algum momento muito desafiador e que não valia a pena escrever sobre isso. Fui esperando, esperando, até que resolvi escrever sobre tudo de uma vez só.

Só agora eu pude perceber o quanto as situações mudaram e quantos desafios diferentes nós passamos ao longo desse ano. Talvez seja por isso que eu não tenha conseguido escrever antes, esperando que a coisa se estabilizasse de alguma maneira. Mas relendo o que eu escrevi, consigo perceber claramente como isso muda constantemente, assim como tudo na vida com os nossos filhos. Afinal, eles crescem, né? Eles mudam e nós mudamos junto.

Mas quando se trata de sono infantil, é difícil quebrar o mito de que as crianças têm que dormir do jeito e da maneira que nós achamos que elas devem dormir. E, por isso, muitas vezes, acabamos ficando presos em um conjunto de expectativas, que geram essa espiral de frustração, brigas e lutas. Que bom que, no fim das contas, são apenas fases.

Vejamos como serão as próximas fases!

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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