Lidando com a Raiva e a Analogia do Vulcão

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Vamos combinar, um dos sentimentos mais difíceis de lidar é a raiva. Pense em como você fica quando está com raiva: dá vontade de quebrar tudo, bater nas pessoas, xingar aquela perfil de Instagram, e outros pensamentos ainda mais destrutivos. Acontece que, na maioria das vezes — e espero que para você seja realmente na maioria das vezes — nós conseguimos nos controlar e todas essas explosões de raiva ficam apenas no campo da imaginação.

E sabe por que conseguimos nos controlar? Porque nossos cérebros já estão maduros — coisa que só acontece lá pelos 25 anos de idae. Portanto, temos todas as ferramentas que nos auxiliam a lidar com sentimentos fortes, como a raiva, da melhor forma possível. E, mesmo assim, isso não garante que consigamos lidar com esses sentimentos de uma forma, digamos, socialmente aceitável, em todos os casos, certo?

Pois bem, mas e quanto aos nossos filhos? Nós cometemos o erro frequente de acharmos que os nossos filhos já são maduros o suficiente para lidar com determinadas situações, quando claramente ainda não são. Eu, por exemplo, preciso ficar muito atento ao Gael, com 5 anos, para não cobrar dele um controle emocional que ele terá quando atingir a maturidade de seu desenvolvimento cerebral, lá pelos 25 anos de idade.

Já que mencionei o Gael, preciso dizer que ele realmente está passando por uma fase em que a dificuldade de lidar com sentimentos mais fortes, como a raiva. Mesmo com 5 anos de idade, o que para muitos seria idade o suficiente para a criança ter controle total sobre suas ações, ele ainda perde o controle facilmente em explosões de raiva.

A criança falha em lidar com a raiva, os pais também

É nesse ponto que eu queria chegar: se uma criança falha miseravelmente em lidar com seus sentimentos fortes, ela já está em sofrimento por isso. Gritar, castigar, punir, retirar privilégio e ações como essa farão com que a criança apenas sofra em dobro por algo que, muitas vezes, ela nem entende como aconteceu, muito menos como ela chegou ali.

E a cereja do bolo: essas ações não ajudam em absolutamente nada com suas verdadeiras necessidades. Em outras palavras, gritar ou castigar farão apenas que a criança se sinta envergonhada, culpada ou com medo pelo que ela fez: perder o controle. Não ensina como manter o controle, como lidar com emoções fortes, apenas a ensina a temer que isso aconteça novamente. E acredite em mim: vai acontecer novamente. E novamente, e novamente, e mais algumas vezes.

O que fazer então? É claro que não estou dizendo que devemos deixar os nossos filhos quebrarem tudo, baterem em todo mundo, porque estão passando por um sentimento difícil demais para lidar, mas precisamos entender que, mesmo com crianças mais velhas, ainda devemos ser seus melhores ajudantes no quesito regulação emocional.

Por isso, diálogos como os seguintes são bastante frequentes aqui em casa:

— Dante, eu sei que você quer ler em paz, mas não posso deixar você gritar com o seu irmão por isso. Precisamos conversar para nos ajudar.

— Gael, você está muito bravo que a Maya rasgou seu desenho, eu sei. Mas não vou deixar você chutar todos os brinquedos. Eu ajudo você a passar por isso sem quebrar nada e sem machucar ninguém.

— Maya, você está brava! Vou segurar seu braço, porque bater machuca. Pronto, vem cá, papai dá abraço.

Lembrando que Dante tem 7 anos, Gael tem 5 anos e Maya tem apenas 1 ano. Sim, mesmo que um bebê de 1 ano não entenda toda a sua sentença, ele vai entender seus gestos, sua postura e o tom da sua voz. E isso ajuda na regulação emocional.

A Analogia do Vulcão

Você já leu tudo isso e deve estar se perguntando: onde está esse vulcão que aparece no título do texto? A espera acabou, e podemos falar sobre uma analogia que tem nos ajudado muito, desde a época em que o Dante era bem pequeno e tinha inúmeros acessos de raiva também.

Quando você fica com muita raiva, dá até um calor no peito, certo? É a partir daí que começamos com a história do vulcão, e podemos iniciar um diálogo com os nossos filhos que seguiria mais ou menos assim:

— Sabe, filho, quando você fica com muita, muita raiva, você sente que fica tudo quente em você?

— Sim!

— Pois é, filho. Esse é o nosso vulcãozinho. Todas as vezes que sentimos algo muito forte, como a raiva, esse vulcão explode e faz tudo pegar fogo dentro da gente.

— Ahhhh!

— E se nós não conseguimos controlar bem as coisas, esse vulcão explode e o fogo dele começa a queimar tudo que está perto, brinquedos, amigos, pai, mãe, irmão.

— Verdade…

— Mas tudo bem, filho. É difícil mesmo controlar esse vulcão, e é para isso que o papai está aqui: para ajudar você a controlar isso e não deixar ele explodir sempre.

— Mas como?

— O primeiro passo é prestar atenção. Se acontecer alguma coisa e você sentir que o seu vulcãozinho vai começar a explodir, peça ajuda logo para mim! Aí eu vou ajudar você a “esfriar” esse vulcão sem que ninguém se machuque!

— Oba!

— Então, estamos combinados? Da próxima vez, peça ajuda para mim e vamos controlar esse vulcão juntos!

— Tá bom!

Detalhe importante: eu adaptei “lava” por “fogo”, mas se o seu filho souber o que é lava, fique à vontade!

Como “esfriar” o vulcão

Caso você não tenha percebido, essa analogia do vulcão é extremamente útil até para nós adultos. Se você sentir que o seu próprio vulcão está prestes a entrar em erupção, procure ajuda! Mas como controlar esse vulcão, então? Eu tenho algumas sugestões:

  • cantinho da calma: é o lugar onde a criança é convidada a ir para se acalmar. Lembre-se que não é para mandar a criança para o cantinho da calma, porque aí esse cantinho se transforma em castigo e perdemos a oportunidade de ajudar verdadeiramente a criança. Se você quiser ler mais sobre isso, pode ler o meu texto ou assistir o meu vídeo sobre esse assunto.
  • respirar e contar: exercícios de respiração aumentam a oxigenação do cérebro e ajuda a criança a retomar o controle da razão, bem como contar o máximo que a criança estiver apta a contar, seja de um a dez, ou um a cinco, o que importa é “forçar” a parte racional do cérebro a funcionar.
  • pote da calma (calming jar): é um recurso ótimo para focar a atenção da criança e ajudá-la a se acalmar. O pode da calma é inspirado no método Montessori e consiste em encher uma garrafa com um líquido e colocar glitter dentro. Depois de fechada, você pode sacudir a garrafa e a criança é convidada a observar a garrafa até o glitter voltar ao fundo da garrafa. É importante lembrar que isso precisa ser um convite, não obrigação, senão vira castigo.

Você tem mais sugestões para esfriar o vulcão? Já utiliza essa analogia em casa? Deixe aqui nos comentários a sua experiência!

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Comentários

  • Rodrigo disse:

    Que texto excelente, Thiago. Tenho duas filhas, Elisa, de 2a2m e a Melina, RN. A Elisa já começou a ter episódios de descontrole com suas frustrações e está cada vez mais difícil. Mas, estou estudando CNV e esse texto foi mais uma forma de lidar com essa fase. Também vou procurar materiais sobre a Disciplina Positiva. Obrigado pelo texto… um abraço.

  • Márcia disse:

    Falo com a minha filha de 6 anos, quando ela tem explosões de raiva, que o coração está ficando escuro e precisa ficar vermelho de novo… peço pra ela respirar algumas vezes e falo que está ficando vermelho…ai ela vai se acalmando a ponto de podermos conversar. Não sei se didaticamente está correto, mas ajuda rs

  • Márcia disse:

    Falo com a minha filha de 6 anos, quando ela tem explosões de raiva, que o coração está ficando escuro e precisa ficar vermelho de novo… peço pra ela respirar algumas vezes e falo que está ficando vermelho…ai ela vai se acalmando a ponto de podermos conversar.

  • Thiago Queiroz

    Thiago Queiroz

    Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante, Gael e Maya, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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