Nunca É Tarde Para Mudar

"Muitas mães e pais acabam conhecendo a criação com apego quando os filhos já estão mais velhos. E alguns deles se lamentam por não terem conhecido antes, ou não terem pensado em praticar uma maternidade ou paternidade diferente na época, mas a questão é que nunca é tarde demais para mudar!"

A criação com apego entra na vida de uma família em ocasiões bastante diferentes. Em algumas famílias, entra já durante a gestação, quando a mãe e o pai buscam e conversam sobre maneiras respeitosas de criar filhos, mantendo um vínculo afetivo seguro. Algumas famílias já vivem uma criação baseada no respeito, mesmo sem conhecer a expressão “criação com apego”. Já outras famílias, principalmente quando a mãe tem um parto normal, quer que a criação de seus filhos seja tão respeitosa quanto o nascimento foi. Foi assim que a nossa família acabou encontrando a criação com apego, por exemplo.

Porém, algumas mães e pais se interessam pelos temas relacionados à criação com apego já com os filhos mais crescidos. Essas famílias podem, por exemplo, ter vivido um começo marcado por muitas agressões físicas e emocionais. São crianças que tiveram em sua infância o castigo, a punição e o grito como ferramentas de disciplina aplicadas pelos pais. Foram bebês que, talvez, não tiveram seus choros atendidos durante o dia, muito menos durante a noite.

Assim, muitos acabam tendo conhecimento do termo “criação com apego” quando os filhos já estão mais velhos. E alguns deles se lamentam por não terem conhecido antes, ou não terem pensado em praticar uma maternidade ou paternidade diferente na época. Bem, esse texto é para você que se sente desta maneira.

Pode até ser que você não tenha passado por tudo o que eu citei anteriormente. Mas, independente disso, é muito importante saber que nunca é tarde para mudar, para reavaliar nossos caminhos e escolher um rumo diferente. Só o fato de você estar lendo este texto já significa uma grande mudança, uma abertura para a percepção de um caminho diferente, uma sensibilidade para repensar valores. E esse já é um passo muito importante por si só, que normalmente nem damos tanto valor.

Seguindo este raciocínio, muitas pessoas acreditam que para criar com apego é necessário seguir toda uma sequência de eventos na criação de filhos (parto, amamentação, cama compartilhada, e por aí vai), seguindo uma “receita de bolo”, mas a questão é que, ao contrário do que a maioria pensa, a criação com apego não é um manual de regras para seguirmos de acordo com uma sequência pré-determinada. Muitas mães, por exemplo, podem concluir que não conseguirão ter os benefícios da criação com apego porque não tiveram um parto normal e porque não amamentaram. Outros pais podem pensar que não podem criar com apego porque não atenderam ao choro de seus filhos, nem deram a devida importância ao choro durante esse período. E ainda existirão as pessoas que entenderão que, por nunca terem usado a disciplina positiva, nunca mais poderão reverter esse quadro, principalmente quando castigos e punições foram usados de maneira sistemática.

O que a tradição cultural dita, quando nós começamos a perceber que o castigo, a ameaça e a punição não estão mais funcionando com os nossos filhos, é que devemos pensar que o problema está em nossos filhos. Eles estão se tornando mais malcriados, mais provocadores, mais desafiadores. E qual a solução para isso? Reavaliar toda a disciplina que estamos aplicando? Não, claro que não. Nós sempre iremos procurar maneiras mais vis e cruéis de punir nossos filhos, porque o problema nunca está na relação, e sim na intensidade da punição, como a tradição cultural determina. Aumentem a intensidade da punição que eles obedecerão!

A boa notícia é que não é bem por aí. Nunca é tarde para mudar e quebrar o ciclo de violência. Nossos filhos, mesmo mais velhos, sempre irão se beneficiar de um relacionamento com os pais baseado em empatia, respeito e afeto. Claro, a mudança pode não ser percebida imediatamente, porque há uma série de reparos a serem feitos na relação e no vínculo, mas é inegável que qualquer ser humano apreciará ser tratado com respeito e dignidade, principalmente nossos filhos.

Na verdade, existem até casos em que se vai de um lado para o outro, simplesmente porque não havia mais para onde ir. Eu nunca vou me esquecer do dia em que uma mãe contou sua história em um dos encontros da API Rio. Ela nos contou que eles já haviam tentado de tudo: cantinho do pensamento, suborno, ameaças e até palmadas. Ela e o parceiro estavam desesperados com a “desobediência” da filha que, ao menor sinal de frustração, tinha uma explosão de sentimentos negativos, se jogando no chão e fazendo o maior escândalo.

Foi então que, no dia anterior ao encontro, na hora da janta, a filha pediu uvas passas para comer. A mãe, que não queria a filha perdendo a fome, colocou um pouco das uvas em um pote pequeno e ofereceu à filha. Ela, por sua vez, teve uma explosão de frustração, deu um tapa no pote, derrubando as uvas passas no chão, depois de perceber que a mãe não daria o pote grande. No calor do momento, a mãe, enfurecida, mandou a filha para o quarto e, sem saber mais o que fazer, no desespero por estar tão desconectada com sua filha, foi para o próprio quarto. Lá, a mãe sentou no chão e chorou.

Chorando, ela começou a pensar no que havia acontecido. Começou a entender que a filha, na realidade, não soubera lidar com a frustração de comer no pote grande do supermercado, como ela sempre fazia. E no meio dessa confusão de sentimentos negativos, a única maneira que ela teve de extravasar seus sentimentos foi jogando o pote menor no chão. Mas o que a mãe poderia fazer? O que mais ela poderia tentar fazer? Não havia mais o que fazer. A não ser que…

Bem, só faltava uma coisa a fazer. Ela poderia tentar algo que ainda não havia tentado: acolher a filha.

Então, como que em um último esforço de tentar mudar aquela situação, a mãe decidiu usar seu último recurso, oferecer empatia e acolhimento à filha. Se aquilo iria funcionar, essa mãe não sabia, mas não havia mais o que tentar, de qualquer jeito.

A mãe foi até o quarto da filha e, chegando lá, deu um longo abraço na filha. Disse que entendia que a filha estava triste por não poder comer no pote grande. Mãe e filha choraram. Mãe e filha se acolheram. Nesse momento, o afeto venceu, o vínculo ficou mais forte entre as duas e não foi necessário que a mãe lesse livros ou assistisse a palestras sobre como disciplinar filhos. Ela só precisou ouvir o coração.

Esse é um exemplo lindo de como todos podem se beneficiar do vínculo e de uma relação baseada no respeito e empatia, independente da idade e mesmo que o passado seja marcado por uma disciplina mais autoritária e punitiva. Além disso, por mais difícil que seja nos livrarmos do sentimento de culpa que nunca acaba, precisamos reconhecer em nós mesmos a nossa própria humanidade.

Mesmo buscando a criação com apego como uma forma de nos relacionar com os nossos filhos, isso não garantirá uma criação perfeita. Nós falhamos e sempre falharemos, mas independente de nossas falhas, nunca fizemos nada disso pensando deliberadamente em causar mal para os nossos filhos. Se sempre fizemos com o melhor de nossas intenções, o que importa é que nos perdoemos e tenhamos consciência de que podemos mudar o que acontecerá daqui para frente.

Não existem pais e mães perfeitas. O que existe é o melhor pai (ou mãe) que eu e você podemos ser. Entender isso é essencial para nos livrarmos da eterna frustração de nunca conseguir ser aquilo que desejamos. Só conseguiremos ter compaixão com os nossos filhos quando tivermos de nós mesmos.

Nunca é tarde demais. Quebre o ciclo!

 

Agora, gostaria de deixar um pouco com você a discussão. Se você possui histórias pessoais de como você conseguiu mudar a sua relação com seus filhos, mesmo mais velhos, compartilhe conosco. Seu relato pode ajudar muito outras mães e pais, na mesma situação, a enxergarem que é possível seguir um caminho onde o vínculo, o respeito e o afeto são nossos guias.

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.