Qual o Foco da Disciplina Positiva?

"Pensar na disciplina positiva nos leva mesmo a repensar as nossas relações com os nossos filhos. A principal diferença da disciplina positiva para as outras é a maneira como olhamos para a nossa relação com os nosso filhos e o foco."

Pensar na disciplina positiva nos leva mesmo a repensar as nossas relações com os nossos filhos. Nos meus últimos textos,  começamos a falar sobre as diferenças entre disciplina positiva, autoritária e permissiva. Neste texto, eu gostaria de me aprofundar um pouco mais nessas diferenças e refletir em como isso afeta as nossas relações com os nossos filhos. Além disso, vamos tentar entender qual é o foco de cada uma dessas maneiras de educar nossos filhos.

Então, se você ainda não leu Disciplina Positiva: Primeiros Passos e A Grande Sacada da Disciplina Positiva, corre lá que eu espero você terminar de ler!

A principal diferença da disciplina positiva para a disciplina autoritária, ou para a permissiva, é a maneira como olhamos para a nossa relação com os nosso filhos e, também, qual o objetivo que temos em mente com tudo isso. Por exemplo, se olharmos para a nossa relação com um objetivo a curto prazo, então, uma educação punitiva pode ser realmente melhor para você. Mesmo que seja apenas melhor para você, não para o seu filho.

Um dos recursos mais utilizados na disciplina autoritária é a punição. A punição, a curto prazo, pode mesmo funcionar! Ou seja, se você tem o objetivo de interromper um determinado comportamento imediatamente, a punição será eficiente porque age no comportamento. Mas nós estamos falando de criar filhos, então não podemos pensar a curto prazo.

As relações que desejamos construir com eles deveria ser para a vida toda, então temos nossas vidas inteiras pela frente e gostaríamos de alimentar vínculos que sejam fortes e duradouros com os nossos filhos. E é justamente por isso que precisamos pensar no longo prazo.

Sempre que o meu filho apresenta algum comportamento que eu não gosto, tento pensar nos efeitos dele a longo prazo, para me ajudar a não só me acalmar, mas também para tentar identificar qual a melhor resposta que eu poderia dar.

Por exemplo, quando o Dante estava em uma fase de jogar arroz no chão, durante as refeições, por mais que eu sentisse o sangue ferver com esse tipo de atitude, eu tentava me acalmar pensando no que seria esse arroz jogado no chão, considerando a vida toda que tenho pela frente com meu filho.

Será que se eu não gritar e bater no meu filho, ele vai jogar arroz no chão para o resto da vida? Acho que não. Mas eu poderia ensinar a ele que quando o arroz cai, o chão fica sugo e precisamos limpá-lo. E se eu ensinar que é normal que derrubemos as coisas, de vez em quando? Se eu mostrar a ele que as nossas ações têm consequências naturais e lógicas, ao invés de punitivas, qual seria o impacto disso ao longo da vida do meu filho?

Qual o impacto disso na autonomia do meu filho? Como será a auto-estima dele, se eu gritar com ele toda a vez que ele derrubar arroz no chão? A refeição, que já pode ser um momento tenso, dependendo de como conduzimos a situação, pode ser um momento ainda de muito medo e stress, se ele estiver do lado de um pai que grita por cada grão de arroz no chão.

Claro, é muito difícil segurar nossos impulsos e controlar nossa própria frustração. Depois de um dia cheio, ainda ter que lidar com comida jogada no chão é um desafio e tanto. Ainda mais se formos permissivos e simplesmente limparmos o chão sempre que nossos filhos jogarem comida nele. Ser permissivos também nos sobrecarrega, por isso que podemos envolver nossos filhos nessas situações, para que eles aprendam as consequências naturais de suas ações (como arroz no chão e limpar o chão sujo) e nós não precisemos nos sobrecarregar ainda mais limpando tudo. A limpeza passa a ser uma atividade coletiva e de conexão!

E é por isso que é tão importante mudar a maneira de pensar a educação dos nossos filhos. O “normal” é reagir ao comportamento, como se devêssemos sempre dar algum tipo resposta a um comportamento, e essa resposta normalmente tem um caráter punitivo/corretivo. Mas enquanto nós estivermos apenas reagindo ao comportamento, estaremos sempre arranhando a superfície. Quando nós nos focamos no comportamento, deixamos de ver o que está por trás daquilo, das necessidades não atendidas dos nossos filhos, e dos sentimentos com os quais nossos filhos realmente precisam da nossa ajuda.

Um comportamento que não nos agrade ocorre porque algo não está certo com a criança. Existe alguma necessidade não atendida, um sentimento grande demais para nossos pequenos filhos lidarem e o “mau comportamento”, muitas vezes, é a única maneira que eles têm de extravasar esses sentimentos negativos. É um grito de ajuda, não um pedido de correção. Não devemos punir quem está pedindo ajuda.

Quando pensamos em disciplina positiva, não estamos tentando corrigir um problema, tampouco estamos tentando consertar um comportamento. Vai além, porque estamos tentando ajudar nossos filhos a desenvolver a capacidade de descobrir por si próprios o que é certo e errado, e principalmente a auto-regular suas emoções.

Se uma das maneiras mais poderosas que temos para ensinar nossos filhos é através do modelo, como é que ensinamos auto-controle de emoções, se nós mesmos somos os primeiros a perder o controle quando eles fazem uma “mal-criação”?

Claro, existem dias e dias. Dias em que estamos exaustos, cansados e para baixo. E nossos filhos têm uma capacidade incrível de apertar os botões certos para nos irritar nesses dias. É realmente muito difícil conter a raiva nesses momentos e, sinceramente, não conseguiremos conter a raiva sempre, porque somos humanos. Só que existe uma grande diferença entre ser humano e explodir de vez em quando, e usar isso como um método de educação.

Mesmo que nós erremos, e nós vamos errar, sempre teremos a oportunidade especial de corrigir e pedir perdão aos nossos filhos, ensinando lições ainda mais valiosas sobre a nossa própria humanidade e possibilidade de falhar. Afinal, não queremos que eles tenham em nós a imagem de pais perfeitos, não é?

 

PS: a linda foto que faz parte desse post foi tirada pela querida fotógrafa Carla Raiter. Não deixem de conhecer o trabalho dela!

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.
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