Quando Nasce o Segundo Filho

"Esse é o relato de um pai sobre o nascimento do segundo filho. O que acontece no parto do segundo filho e como se transforma a relação com o primeiro filho."

Quem costuma me acompanhar já deve saber que a época de pai de um filho só acabou faz tempo, né? Pois é, hoje sou pai de dois e — eu sei, eu sei — demorei muito para contar como foi vivenciar a chegada dele. Mas a espera acabou!

Gael nasceu em 14/03/2015 e, sim, também nasceu em casa, em um parto domiciliar planejado. Se você quiser saber também como é que eu vivi o nascimento do Dante, pode aproveitar para ler aqui.

Na verdade, é engraçado como você perde o fator surpresa quando o segundo filho também nasce em casa. Na época em que a Anne estava grávida do Dante, era uma comoção generalizada: todo mundo nos chamava de maluco, dizia que era um perigo e tudo mais. Desta vez, durante a gestação do Gael, as pessoas meio que esperavam isso:

— Vocês vão fazer aquela coisa de parto em casa, né?

— Sim.

— Affff, vocês são doidos.

— Pois é.

Ao contrário do que aconteceu comigo na época do Dante, dessa vez eu realmente tinha mais informações e experiência, então eu não tinha todo o medo de antes. Minha preocupação era mais em como seria a vida com dois filhos.

Que seria uma barra pesada, eu já imaginava, mas tendo uma relação bem danificada com o meu próprio irmão, eu ficava bastante apavorado em como ajudar meus filhos a serem amigos, e não competidores de olimpíadas. Fora isso, era aquele medo de saber se eu conseguiria ficar junto da Anne no segundo parto, ou se o Dante iria atrapalhar tudo, ou qualquer outra coisa do gênero.

Por sorte, a Anne entrou em trabalho de parto de madrugada, então pude ficar junto dela por algum tempo. Foi tão bom viver aquilo de novo com ela, sentir a parceria novamente vibrando tão forte, ver aquela mulher se transformando novamente. E eu ali, numa mistura eufórica de admiração e amor.

Mas não demorou muito até o Dante acordar com os primeiros rugidos mais fortes da Anne. Na época, ele tinha 2 anos e 3 meses, então não conseguia entender muito bem o que acontecia, apesar de termos contado histórias antes sobre como ele tinha nascido e como o irmão nasceria.

Então, logo veio a primeira surpresa: quando perguntamos ao Dante se ele queria ficar com a mãe ali no quarto, ele disse que não. Por conta própria, foi para a sala comigo brincar de Lego,  montar quebra-cabeças e assistir desenhos. Foi mais ou menos nessa hora que eu me dei conta de que tudo daria certo. A natureza é realmente sábia.

O tempo passando, a Anne lá no quarto com a equipe, e eu na sala com o Dante, roendo todas as unhas das mãos e pés. Olha, se eu tinha algum problema de ansiedade, fui curado na marra naquele dia. Ficar ali, apenas ouvindo o que acontecia no quarto, tentando imaginar o que estava acontecendo, enquanto brincava com o Dante na sala, era muito, muito angustiante.

Mas algo que eu jamais imaginei acabou acontecendo nesse período: pude sentir minha relação ainda mais forte com o Dante. Estar ali, com ele, naquele momento tão intenso, fez com que eu sentisse nosso vínculo ficar mais forte. Eu estava muito mais próximo dele, e sentia que o amava muito mais. Como eu me aproximei do mais velho durante o nascimento do mais novo, eu não sei. Só sei que aconteceu, e que foi lindo demais.

E, lá pelas tantas, entre um rugido e outro que ouvíamos da Anne, Dante resolveu perguntar:

— Papai, por que a mamãe tá fazendo esse barulho?

Pronto, por essa eu não esperava! Putz, o que é que eu poderia dizer para ele? Por que eu não me preparei para isso? Então, meio que sem pensar muito, disse:

— Filho, a mamãe está brincando de leão na selva. Ela está fazendo igual a um leão, que é para o Gael chegar logo!

Dante parou por alguns segundos, tentando processar o que eu acabara de falar. Então, ele responde:

— ROOOOAAAARRRRRR.

Dante estava urrando junto da mãe, dando aquela força que só um filho mais velho pode dar. Nosso pequeno leãozinho estava de prontidão para ajudar a mãe leoa, mesmo que de longe, da sala.

Mais um pouco de espera e, bem baixinho, ouvi um chorinho tímido. Olhei para o Dante com os olhos cheios de lágrimas e disse:

— Filho! O Gael chegou! Gael chegou!

Fomos correndo para o quarto e encontramos a Anne agarrada com o Gael. Um sentimento de “família completa” tomou conta de mim e pude sentir que tudo daria certo entre eles, que eu não precisava me preocupar tanto assim.

De todos os sentimentos que eu imaginei sentir, jamais poderia imaginar que sentiria ainda mais amor pelo Dante. Então, Gael, obrigado por me aproximar ainda mais do meu filho mais velho e seja bem-vindo, porque você também será muito amado por aqui.


Ah, e se você sabe da história da placenta apegada, deixa só eu avisar que, dessa vez, a placenta nasceu logo depois do Gael. E, dizem algumas pessoas, que o nascimento dela foi tão comemorado quanto o nascimento do próprio Gael!

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Thiago Queiroz

Thiago Queiroz

Sou Thiago, marido e pai. Também sou outras coisas, mas praticante mesmo, só marido e pai. Meus filhos, Dante e Gael, nasceram em casa e, desde o nascimento do Dante, mergulhamos no ativismo pelo parto e pela criação com apego. Hoje, sou líder do grupo de apoio para criação com apego: API Rio, e também educador parental certificado para disciplina positiva.