Na criação com apego, sempre falamos sobre cama compartilhada. Porém, sabemos que a cama compartilhada é um arranjo que não funciona para todas as famílias, e por isso que falar em sono compartilhado também é importantíssimo, pois dormir no mesmo ambiente do bebê fará com que consigamos ouvir e atender às necessidades do bebê também à noite.

Por outro lado, grandes órgãos, como a Academia Americana de Pediatria (AAP), sempre abominaram essa prática, alegando que dormir com o filho é um fator de risco à morte súbita. Felizmente, existem muitos estudos que demonstram que a prática segura de cama compartilhada, na verdade, reduz o risco de morte súbita do bebê.

E, felizmente, as coisas estão mudando. Recentemente, a AAP divulgou suas novas recomendações sobre como reduzir o risco de Síndrome da Morte Súbita Infantil (SMSI) e, pela primeira vez, recomenda que os bebês durmam no quarto dos pais, durante o primeiro ano de vida.

O texto original da notícia com as atualizações das recomendações da AAP foi publicado em inglês no The Washington Post e você o encontra no final desse post, traduzido pela querida Lucia Verissimo.

Isso é um avanço considerável, e algo que ajuda muitos pais e mães a fortalecer suas escolhas de dormir próximos aos seus bebês. Só que nem tudo é perfeito, pois a AAP ainda não recomenda a prática de cama compartilhada, mesmo que admita que ela possa ser utilizada para eventuais cochilos, já que a amamentação deixa as mães exaustas. Por que isso? Porque sabe-se que é muito mais perigoso dormir com o bebê no colo, em uma cadeira de amamentação, por exemplo.

Eu sei, é um pouco confuso. É como se a AAP dissesse:

— Olha, cama compartilhada é ruim, não use. Mas, peraí, se for pra dormir com o bebê no colo, vá para uma cama! E tome aqui algumas recomendações de segurança para dormir na cama com o seu filho.

É como se um senhor muito, muito inflexível, começasse a dar o braço a torcer sobre um assunto, mas faz isso aos poucos. E tudo bem, isso já ajuda muitas famílias a optarem pela cama compartilhada, mesmo nesses cochilos, sem o peso da culpa e do medo. Já é difícil o suficiente criar filhos sendo julgado por todos os lados, então se um órgão alivia parte desse peso, estamos no lucro.

Por isso que eu vejo essa notícia como algo realmente positivo, porque é a primeira vez que a AAP dá orientações de segurança para a prática e para reduzir os riscos de morte súbita nesse sentido. Por outro lado, nessas orientações, aparece uma questão que pode causar um pouco de confusão. Segundo a AAP, dentre os fatores que reduzem o risco de morte súbita estão a amamentação, calendário de vacinas em dia, chupeta, e evitar cigarro, álcool e drogas na gestação e no puerpério..

Chupeta? É isso mesmo? Sim, é isso mesmo. Deixando de lado todos os problemas que o uso contínuo de chupeta pode causar, porque esse não é o foco deste texto, é importante ressaltar que, sim, há estudos associando a chupeta a uma redução do risco de morte súbita, e isso se deve ao fato de que isso altera o estado de atenção do sono do bebê, fazendo com que o sono dele seja mais leve, e isto acaba se tornando um fator de redução de risco. Todas essas informações são importantes para uma decisão informada e consciente por parte dos pais sobre o uso (ou não) da chupeta.

Enquanto isso, eu continuo por aqui, torcendo pelo dia em que a AAP publicará algo assim, só que de uma maneira mais polida:

— Pessoal, tá liberado o uso de cama compartilhada. Cama compartilhada é VYDA!


GUIA ATUALIZADO SOBRE SONO INFANTIL RESSALTA PERIGO DO CANSAÇO DOS PAIS

A Academia Americana de Pediatria atualizou suas recomendações sobre como prevenir a Síndrome da Morte Súbita Infantil e outras fatalidades relacionadas ao sono, em uma diretriz publicada nessa segunda-feira. As recomendações atualizadas reafirmam muitas orientações anteriores fornecidas pela AAP, publicadas em 2011. Os pais devem colocar seus bebês para dormir de barriga para cima, em uma superfície firme, sem nada macio ou solto (roupa de cama, almofadas, travesseiros). É mais seguro para os bebês dormir no mesmo quarto que os pais, mas não na mesma cama.

A novidade é o reconhecimento do fato de que pais cansados às vezes caem no sono enquanto alimentam seus bebês, e eles devem se planejar para isso. “Ouvimos histórias de pais que levam seus bebês para o sofá para alimentá-los, porque têm medo de cair no sono enquanto os alimentam na cama”, disse Rachel Moon, professora de Pediatria na Escola de Medicina da Universidade da Virgínia e principal autora da publicação. “Como o sofá é um lugar muito mais perigoso para isso acontecer, queríamos nos assegurar que os pais soubessem disso.”

Esse cenário pode ser particularmente comum para mães que amamentam. “O processo de amamentar deixa a mãe sonolenta, fisiologicamente falando”, disse Lori Feldman-Winter, professora de Pediatria da Escola de Medicina Cooper e coautora da diretriz da AAP. Se a mãe achar que pode acabar cochilando enquanto amamenta, “nós na verdade recomendamos que ela amamente na cama, pois amamentar o bebê no sofá ou na poltrona é mais perigoso se ela dormir”, disse Feldman-Winter.

Pela primeira vez, a AAP também orienta sobre como compartilhar a cama de maneira segura. Travesseiros, lençóis e cobertores devem ser removidos, e o colchão deve ser firme. Os pais nunca devem usar álcool ou drogas ao dividir a cama com o bebê. Cerca de 60% dos pais nos Estados Unidos dormem com seus bebês (ainda que ocasionalmente), mas a segurança da cama compartilhada é controversa por lá e pelo mundo. “A AAP finalmente reconheceu que os pais podem, com frequência, cochilar enquanto alimentam seus filhos, quer tenham intenção de dormir junto ou não, e que é muito mais seguro fazer isso numa cama do que num sofá. Eu penso que a abordagem inicial de simplesmente dizer aos pais para não compartilhar a cama com os filhos não funcionou”, disse Peter Blair, professor de Estatística Médica da Universidade de Bristol, no Reino Unido.

Nos Estados Unidos, cerca de 3.500 bebês morrem por ano de Síndrome da Morte Súbita Infantil e de outras fatalidades relacionadas ao sono, como sufocamento. A taxa de SMSI despencou em 50% nos anos 1990, depois que a Campanha “Back to Sleep” encorajou os pais a colocarem os bebês para dormir de barriga para cima. No século 21, no entanto, o progresso para diminuir essas mortes estagnou.

Amamentação, calendário de vacinas em dia, chupeta, e evitar cigarro, álcool e drogas na gestação e no puerpério estão relacionados com redução do risco de SMSI. A diretriz atualizada recomenda que os bebês durmam no quarto dos pais pelo menos nos primeiros 6 meses de vida, e de preferência durante o primeiro ano. Pesquisas sugerem que compartilhar o quarto pode reduzir o risco de SMSI em até 50%.

Natasha Burgert, uma pediatra com consultório particular em Kansas City, Missouri, diz que a maioria dos pais que ela atende coloca os filhos para dormir em quarto separado com poucos meses, mas que ela vai recomendar dividir o quarto por mais tempo. “Eu acho que isso vai ser um desafio para muitas famílias”, ela disse. “A idealização de trazer para casa seu recém-nascido e colocá-lo em um lindo quartinho de bebê está tão arraigada nos meus pacientes… É menos idealizado pensar que você trará para casa um novo colega de quarto, que você terá por um ano.”

A AAP diz que os pais devem usar camas com superfícies firmes e planas, como berço, moisés ou mini-berço acoplável à cama dos pais (co-sleeper). Moon diz que o objetivo dessas recomendações é dar aos pais as informações necessárias para manter os bebês em segurança, mesmo que às vezes seja difícil seguir as orientações. “Eu espero que pediatras e pais possam ter conversas sinceras, nas quais os pais não se sintam julgados”, disse Moon. “O pediatra pode, na verdade, sugerir boas idéias de como lidar com o que eles estiverem passando.”